Compacto Simples


Quem leu o Pra Ser Sincero (Ed. Belas Letras, 2010) talvez lembre que tínhamos, na casa da minha infância, um monte de discos. Ganháramos aquele tesouro de um tio. Era uma coleção completamente aleatória pois este tio, por sua vez, ganhara os discos por trabalhar num escritório de arrecadação de direitos autorais. Tinha de tudo ali!

Ninguém, em sã consciência, compraria aqueles e só aqueles discos. Como coleção, não fazia o menor sentido. Mas o caos daquela diversidade foi muito bom para uma criança curiosa e ávida por desbravar o mundo aparentemente infinito dos sons musicais. Prato cheio, saudável mistura.

No início dos 70, lá em casa,
uma eletrola como esssa
fazia a mágica de transformar 
vinil preto em música multicolorida.
Eram, na maioria, LPs (no livro eu cito dois dos meus Long Plays favoritos: Os Incríveis e José Mendes). Mas havia também alguns “compactos”. Não, não se trata de compact discs! Ok, falo de tempos passados, né?, melhor explicar: "compactos simples" eram discos de vinil menores, com uma faixa em cada lado. 

Sem capa específica, vinham num papel genérico da gravadora com um buraco que coincidia com o selo do disco onde se lia nome da música, tempo de duração, ano de produção, intérprete, compositor, editora, etc... 

Antes de serem extintos (na minha vida profissional não convivi com eles), esses pequenos discos se sofisticaram, apareceram os "compactos duplos". Com quatro faixas e capas como as dos LPs, com projeto gráfico relacionado ao conteúdo.


Um compacto duplo maravilhoso da discoteca da minha infância: The Mamas & The Papas! A capa mostrava o quarteto dentro de uma banheira (vestidos, é claro - surrealismo pop, bem anos 60, né?). Três sentados e Michelle Phillips, deitada sobre eles. Linda. Confesso que era um motivo extra-musical pra gostar do disco. California Dreaming abria um ladoMonday Monday, o outro. As outras duas canções, minha memória não guardou. 

Mas o compacto que eu mais ouvia era simples na nomenclatura porém muito sofisticado no conteúdo: Mutantes! Lembro bem das duas músicas: Dois Mil e Um no lado A e Dom Quixote no B.

Dois Mil e Um é uma viagem! Colagem de música caipira com sons progressivos… foda! Muito louco ouvir hoje - quando 2001 já é passado - a confrontação de coisas (então) modernas, universais, com o regionalismo tradicional ("meus sangue é de gasolina" cantam eles num verso, ecoando Marinetti e os futuristas do início do século XX, com caricato sotaque caipira). Letra com sacadas bacanas, arranjo incrível, surrealismo pop, psicodelia e música de raíz manipulados com muito talento. Genial, foda mesmo.

Mas, hey, não é hora nem local pra ficar falando da minha admiração pelos caras. O assunto pintou porque semana passada gravei um compacto simples. Sim, com toda pompa e circunstância! Apesar dos sinais que o ambiente teima em emitir de que nada mais tem significado.

Sinais de que nada significa!?! Estranho, né? Não os levo em consideração pois, se nada faz sentido, há muito que fazer.

Talvez as gravações que fiz não assumam forma física de compacto simples nunca, mas no meu coração sempre será.  Faz Parte e Pra Ficar Legal são as canções. As duas são lado A. Ou lado B. Depende da perspectiva e, sinceramente, tanto faz.

No post da semana que vem explico melhor o que farei com elas e o que elas farão comigo. Enquanto isso...

...boa semana,
meus caros!
26jan2016

bah 01: o selo dos compactos informava mais do que o Spotify informa, né? Dois Mil e Um foi composta por Rita Lee e Tom Zé.

É improvável que te traga lembranças da infância, mas, mesmo assim, vale muito a pena:  
Aproveite.

bah 02: Num show do Sérgio Dias no JazzMania, no Rio, em mil-novecentos-e-Rickenbacker, pedi a ele um autógrafo. Num guardanapo, ele desenhou, no "O" do seu nome, um símbolo hippie. 

Tenho feito o mesmo nos autógrafos que dou. Serpentes mordendo o próprio rabo, ying-yang, o círculo da bandeira do Brasil, o distintivo do Grêmio, os parênteses do Pouca Vogal, etc... fazendo as vezes do "O" do meu nome. 

Ah se aquele alemãzinho que ouviu o compacto até furar soubesse!!!!!!

51 comentários:

  1. Grandes lembranças. Boa semana, Mestre!

    ResponderExcluir
  2. Ainda guardo a eletrola do meu pai. O compacto que ouvia nela direto era o do Ricthie, com Menina Veneno. O primeiro vinil foi o Rádio Pirata ao vivo do RPM. E "nunca imaginaria que assistiria ao PRM e Gessinger juntos um dia cantando a mesma faixa!" SRN.

    ResponderExcluir
  3. Putz muito bacana as explicações porque se não houvesse estaria perdido no que falava sobre os discos antigos , e no mais e isso boa semana HG

    ResponderExcluir
  4. Gênio Humberto, lembro desses compact discs, minha mãe tinha um em que se não me engano um lado era Born in the U.S.A e outro Great balls of fire, acho que eu tinha uns 4 ou 5 anos, e lembro que era uma festa quando ela me deixava ouvir... Bons Tempos

    ResponderExcluir
  5. Putz muito bacana as explicações porque se não houvesse estaria perdido no que falava sobre os discos antigos , e no mais e isso boa semana HG

    ResponderExcluir
  6. Sempre durmo bem depois de um BloGessinger. Ótima semana pra você, mestre.

    ResponderExcluir
  7. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  8. Segue nessa força brother! Vida longa!

    ResponderExcluir
  9. Bom de mais estes LP's. Foi com eles que comecei a ouvir suas musicas

    ResponderExcluir
  10. Humberto, a cançao “2001“ nao seria do Tom Zé?

    ResponderExcluir
  11. Indo dormir louco e legal depois dessa.

    ResponderExcluir
  12. Ah, meu caro... Quanta admiração! Vambora que a estrada é longa e vamo pra frente pra ver o que próximo blogessinger trará :))
    Saúde e paz <3

    ResponderExcluir
  13. Obrigada por compartilhar suas recordações conosco.
    Essas passagens de tempo me fazem viajar... e eu adoro isso!
    É muito bom ser fã de um cara como você!
    Boa semana Berto.
    Abraço!

    ResponderExcluir
  14. Gosto desses textos em que você se revela fã. Reconheço, por vezes, elementos meus nas suas palavras (ou suas palavras na minha formação pessoal?).

    ResponderExcluir
  15. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  16. Humberto mutante, com Sergio Dias na captaçao das ondas analogicas de uma guitarra... Praticamente o camaleao. Pow, 3 mic na gravaçao...

    ResponderExcluir
  17. Lá em casa tínhamos um eletrola como esta e minha mãe tinha este exato disco do The Mamas & The Papas, que eu amava. Mas confesso que era fã mesmo era da coleção do Benito de Paula, achava ele o cara mais estiloso de todos rsrrs

    ResponderExcluir
  18. Poucas semanas atrás eu vasculhava os vinis do meu pai. Tenho lembranças desses dias que eu ficava vidrada olhando aquela coisa grande tocando discos e eu querendo mexer sem poder (porém mexendo). Sensacional, mestre. Obg.

    ResponderExcluir
  19. Génio vlw 1berto louco pra ficar legal aqui. Em guarapari es

    ResponderExcluir
  20. Génio vlw 1berto louco pra ficar legal aqui. Em guarapari es

    ResponderExcluir
  21. Simples e excelente!
    Faz Parte, sinônimo de canção perfeita!

    ResponderExcluir
  22. Taí uma idéia legal ! Mestre podia re-lançar os vinis do EngHaw ou Gtrio ! O que acha ? Eu seria dos primeiros a comprar, tenho um toca discos USB e a alguns LP's bem legais de ouvir ! Sucesso !

    ResponderExcluir
  23. Boa Noite Gessinger, desejo uma ótima semana pra você e também para sua família! E espero ganhar um autógrafo desses ainda :) Obrigada por ser meu artista favorito 😊

    ResponderExcluir
  24. Humberto, por que o disco !Tchau Radar! Não está disponível no apple Music? Poderia pedir pro teu staff disponibilizar pra gente? (senti falta também de "10.001 destinos" e "Novos Horizontes")

    ResponderExcluir
  25. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  26. Boas lembranças de infância Humberto! Com mutantes! Maravilhoso!
    Tenho o engenheiros nas minhas lembranças de infância. No meu caso, também são maravilhosas recordações musicais! Obrigado!

    ResponderExcluir
  27. Nadar contra a corrente é coisa para quem vê além do óbvio. Doida pra ouvir (até furar, provavelmente)
    Boa semana!

    ResponderExcluir
  28. Caraca! Obrigado pela dica grande Humberto!!! Cara, adorei a canção! De fato, ela é singular!

    ResponderExcluir
  29. Lança em 7". Físico. Tem uns selos que lançam. 'Selo 180' é um. Parece que é de Passo Fundo.

    ResponderExcluir
  30. Michelle Phillips é linda mesmo, até hoje. Uma das mulheres mais bonitas. Gosto muito da carreira solo da outra integrante do grupo, Mama Cass Elliot. Excelentes músicas e composições, uma voz que já na época soava "antiga", e que infeloizmente já se silenciou pra sempre. Recomendo escutar: "Make your own kind of music", "Move in a little closer" e "Easy come, easy go".

    Cheguei a ver alguns compactos na minha infância ao início dos anos 90, todos antigos. Pegar um deles para tocar era sinal de muito gosto por aquelas 2 ou 4 músicas, visto que naquela época, ao menos creio que fosse o normal, só se colava um disco na vitrola caso fosse escutá-lo inteiro, todas as músicas. Colocar um compacto era bastar-se com aquelas poucas, saber que a experiência sonora seria rápida. Um primórdio do mp3.

    Abraço, Genius!

    ResponderExcluir
  31. Cresci em uma época onde o três-em-um da Gradiente, com aquela boa vitrola e duplo deck, onde gravávamos coletâneas de 60 minutos de nossos hits, era o ápice da experiência sonora. Saudade grande! Ainda vive meu primeiro Gradiente rs, de decks hoje engasgados, mas com um fio de vitrola que até que vai bem.

    Já os compactos, felizmente também os herdei, e a cada revisita novos sons descubro! Tal coleção é bem 70s, disco music Donna Summer e Jackson 5, e também algum Tim Maia, e um posterior Christopher Cross e George Michael, pra nos lembrar que os bailinhos-oitenta seriam dançantes em um outro ritmo, porém igualmente inesquecíveis :)

    Grande texto, Humberto! Boa semana pra ti!

    Um abraço,
    Rebeca

    http://blogpapelpapel.blogspot.com

    ResponderExcluir
  32. Humberto, ler que o passado está presente e que a arte é atemporal, recordando a evolução tecnológica e o resgate nostálgico das nossas influências, foi bom demais!

    Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  33. Um dos melhores posts que você já fez, Humberto! Obrigado...

    ResponderExcluir
  34. Olha alemãozinho só tenho uma coisa pra lhe dizer: "Faça me o favor de dar forma física pra esse compacto simples! Tá avisado"

    ResponderExcluir
  35. Sidnei Rodrigues - SP26 de janeiro de 2016 13:22

    Belo Texto e ótima dica HG!!!
    Bora correr e conferir as belas canções, abraço.

    ResponderExcluir
  36. Dois caras de respeito: Humberto e Arnaldo... vcs fazem a minha vida ser mais feliz.. obrigado..

    ResponderExcluir
  37. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  38. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  39. Quero participar tambem,dessa magica do vinil,tenho o compcto do Bowie,It s not America

    ResponderExcluir
  40. Quero participar tambem,dessa magica do vinil,tenho o compcto do Bowie,It s not America

    ResponderExcluir
  41. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  42. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  43. Meus dezenove anos não me deixam mentir... Cresci ouvindo teus cd's, descendo pra praia com a minha família. Aprendi depois a baixar suas músicas e colocá-las no mp3. As recordações são muitas -apesar da pouca idade- e a vontade de continuar a ouvir.. Ah, essa continua..

    http://ellasabeblog.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  44. Relançar um LP é pra gênio mesmo!

    ResponderExcluir
  45. Humberto, deixer uma camisa da nossa campanha pela liberação da Fosfoetanolamina, a pílula do câncer na portaria de teu prédio e com tua irmã, juntamente com o CD do cantor Oscar Alejandro que gravou a tua música até o fim numa versão em espanhol!

    ResponderExcluir
  46. Somos mais parecidos do que eu imaginava, na casa de uma tia minha tinha uma eletrola dessas e eu ficava fascinado com o som produzido por ela num velho compacto os irmãos Alessi, ouvi muito All For a Reason de 1977 ou 78 num lembro direito, e muitos outros como Mauro Sérgio, Juanita, Jane e Herondy, Fabio Jr. e até alguns do rock nacional como a Blitz com o Você não Soube me Amar de um lado e o NADA, NADA, NADA, NADA do outro. Bom seria um relançamento em vinil de tua obra, os meus estão aqui guardando marcas do tempo mas seria maravilhoso continuar a coleção onde os lps pararam. Imagina um simples de coração em vinil!!!!! Ai meu Deus!

    ResponderExcluir
  47. Em 98, se não me engano, levei as capas dos meus CD's para você autografar, e você fez o "O" de Humberto com o símbolo de cada capa de disco.

    ResponderExcluir
  48. Olha os "Mutantes" aí :

    Versão original:

    https://m.youtube.com/watch?v=2BKGMjYCPhc

    Versão " dois mil e um" rs:

    https://m.youtube.com/watch?v=6Ha6E6DpMBE




    ResponderExcluir
  49. Há algum tempo, comprei uma vitrola philips só p ouvir os poucos vinis de meus pais, so p reviver o feeling dessa época.

    ResponderExcluir