que cabeça, a minha...


Na volta de recente show em Brasília, esqueci no avião o livro que estava lendo - Número Zero, Umberto Eco. Rateadas dessas acontecem com mais frequência do que eu gostaria de admitir. Estou sempre sonado e cochilando nesses voos pós-show das manhãs de domingo. Essa é minha desculpa. 

Pra evitar esquecimentos, me disciplinei a jamais colocar livros no "bolsão em frente ao assento (o verdadeiro triângulo das Bermudas da aviação, onde livros somem para nunca mais)". Nem sempre funciona: no voo em questão, o livro deve ter caído das minhas mãos para o colo e de lá para o chão enquanto eu sonhava.

Só me dei conta da perda em casa, quando procurei o livro na mochila para aquela lidinha básica antes de dormir. Putz... a alternativa era buscar na estante um substituto, mesmo já tendo lido todos que estão ali.

Quem gosta de ler e lê bastante deve concordar comigo: com tanta coisa boa pela frente, tanta ignorância a aplacar, reler, mesmo os favoritos, não é uma decisão fácil. Dá um pouco a sensação de que deixamos de procurar, de avançar. Por outro lado, um reencontro com um livro que tenha nos marcado está sempre no horizonte dos nossos desejos, né? E no fim das contas, podemos avançar em várias direções, mesmo refazendo o caminho. 

Enfim... mania é mania, não se discute. Gosto de ler antes de dormir e precisava escolher, naquela estante, um livro já lido.

Ainda no corredor, entre o quarto e a sala, me decidi pelo Grande Sertão: Veredas. Mas, enquanto percorria com o olhar as lombadas, me lembrei que, em Brasília, um mesmo livro (Doutor Fausto) havia pintado em duas conversas diferentes, com Nando Peters e Carlos Maltz. Muita coincidência. Resolvi dar essa moral pro destino e, pedindo desculpas ao Guimarães Rosa, desviei para o Thomas Mann.

Li Doutor Fausto em 1991. A releitura tem um aspecto novo, interessante e divertido: descobrir o que o tempo fez ao livro e ao leitor.  Já nas primeiras páginas, o prazer cada vez mais raro de um texto denso e profundo. Linda dissonância da norma nesses tempos velozes e fragmentados da www, onde todo mundo escreve se achando juiz e comediante, com incontinência verbal e as postagens já envelhecem enquanto são escritas. Como contraponto, já tá valendo.

(*)

bah: falando em livros: pela correria da tour inSULar, participei de poucos eventos literários nesse ano. Dia 11/11 vai rolar um em Lagoa Vermelha, aqui no RS. Legal. E segue a tour:


abraços
06out2015

41 comentários:

  1. Sobre Número Zero: muito bom. Braggadocio morre no final.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahahahaha lembrei que certa vê tava vendo um filme bem legal com a galera quando chegou a minha prima e disse. ..- essa mina morre no final

      Excluir
  2. Pensei que teríamos um texto sobre o niver da Adri.. Muito hg surpreender e tangenciar o óbvio...

    ResponderExcluir
  3. Adoro ler....mas minha praia são manuais técnicos.... Acho o máximo ter uma dúvida e ela estar solucionada ali....na palma da mãos.... Sensacional. Comecei a ler o último do Maltz (o último rei do rock).....mas aparecem manuais técnicos e aí ganha a vez.. ahuahu.... Abraço.

    ResponderExcluir
  4. A mudança começa pela leitura.E não é papo de fã, mais seus livros são muito bons,bem escritos e bem humorados.Me lembro da primeira e única vez que fiquei perto e tirei uma fotografia com VC,na livraria Leitura em Bh.Na ocasião minha noiva estava grávida, tive preferência na fila, mês de novembro, te dei os parabéns adiantado,foi a única coisa que consegui falar...Dia 16 de Dezembro minha filha faz dois anos e já curte muito ouvir Humberto Gessinger com o papai.Certamente ela vai ler seus livros. Forte a abraço e até dia 19 de Dezembro.

    ResponderExcluir
  5. Vindo de outros tempos, mas sempre no horário. Que bom que vais estar novamente na Bahia! Boas leituras ...

    ResponderExcluir
  6. Certa feita, acabei me perdendo de um livro em uma viagem. Era o "Seis segundos de atenção" que aquele ônibus levou de mim, depois de oito horas mal dormidas.
    Pra amenizar a culpa, gosto de pensar que foi o livro que escolheu cair nas graças de outra pessoa. E, quando lembro, gosto de acreditar sozinha que alguém realmente o leu totalmente, pois eu estava economizando na leitura para não o ver acabar.

    Sigamos assim!
    Espero te ver em breve, já que hoje faz dois anos do último show teu que pude ver.
    Thalita Simoni

    ResponderExcluir
  7. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  8. Quando perco ou faço doação de um bom livro (ou até mesmo quando devolvo à uma biblioteca pública) fico sempre pensando quem será a pessoa que irá ler aquele livro depois de mim...que o Número Zero esteja em boas mãos nesse momento...

    ResponderExcluir
  9. Temo pelo futuro da leitura boa e satisfatória dos livros de papel que nos acompanham por nossas andanças. Temo pelo futuro dos textos elaborados sem a necessidade da concisão internética, Temo pela infeliz concorrência com a volatilidade superficial da distração online. Como serão os leitores daqui uma ou duas décadas ?

    ResponderExcluir
  10. Em dia de post minha leitura antes de dormir é justamente o texto/agenda do blog.

    Semelhanças ...


    Além disso, baita show humberto (Belém), esse final de semana rolou a "ressaca" do teu show num pub onde tocaram uns cover coisa e tal ....

    (Acho que o teu show foi um dos mais significativos que rolou no estado esse ano)

    Acho essa tua fase insular d o c a r a l h o !

    Em comparação as outras fases ao longo desses últimos dez anos, essa se mostra a mais criativa, que mais tem a tua cara, a mais cativante. E feliz de quem viveu pra presenciar esse momento né (?)

    Minha fase favorita (tua) é sempre a que está por vir.


    Um grande abraço deste seu irrevogável fã.

    Caiê Relvas/belhell-pa

    ResponderExcluir
  11. Nem acredito ainda que virás a Lagoa Vermelha, Humberto! É a melhor notícia do ano. Estarei lá. A pessoa que mais fizer fiasco lá serei eu (gritos, lágrima e risos) Obrigada!!!!!

    ResponderExcluir
  12. Ler o mesmo Livro ou assistir o mesmo filme, quando gostamos muito, é sempre uma nova aventura. Não que se deva vier relendo as mesmas coisas, mas para tudo na vida existe um tempo e essas volta no caminho, como bem tu disse traz novas maravilhas nas entrelinhas que dependendo do momento faz outro sentido ou se é observado algo que anteriormente deixamos passar... adoro fazer isso!

    ResponderExcluir
  13. Creio que Dr Fausto seja o mesmo filme que o Netflix vem me sugerindo.
    Nesta sincronicidade, do dia a dia, vou vê -lo!

    ResponderExcluir
  14. Ser seu fã às vezes parece até um desafio, quando nos espelhamos em alguém tão grande como você, ficar parado nunca é uma opção. Acompanhar suas obras e trajetórias nos conduz por um caminho no qual estamos sempre em movimento...valeu...Boa Semana!

    ResponderExcluir
  15. Uma vez eu li, e não me lembro quem foi o autor, algo como: "Perigoso não é aquele que lê, mas aquele que relê."

    ResponderExcluir
  16. Nunca perdi um livro assim, nem nunca esqueci.
    Mas tem um bando de gente que já pegou emprestado e que não devolve.
    E por pior eu continuo emprestando.
    E continuo esquecendo pra quem emprestei.

    Dilema: Compartilhar conteúdo ou perder preciosidades?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah...
      Você vem muito pouco ao RJ (Estado).
      Melhora isso ae! rsrs
      Vou quebrar o cofre e fazer umas figas pra tentar despedir do Insular em Vila Velha!

      Abraço, galera!

      Excluir
  17. Show, super leitura, Umberto Eco, afinal Humberto Gessinger grande leitor, escritor, poeta, músico, instrumentistas, abraço.

    ResponderExcluir
  18. Sobre leituras... Humberto Gessinger o meu interesse pela literatura veio com a paixão por suas músicas... E hoje escrevo as minhas histórias. Bjs

    ResponderExcluir
  19. Seu Umbérto,

    Outra tem não tem. Comprade meu Quemelém é que dizia: sertão pra lá dos pampas é que desdobra às vistas. Desanda andanças nas inteligência, sim. Mas arre: o senhor transcuta? Aqueles livros talentam por mais demais. Há de se fugir? Nonada! Mire veja: o olho junto baixa escrevendo neles. Assim pode ser, se num pode, não. Ser não ser: quantas léguas pra lá dos horizontas que o sinhô Gessinger escreve e sobrescreve? Veja, mire: palavra na mão dele vira fogo! Sertão com lobisomem: se assombra todo mudo quanto lê, Deus proteja. Êxa... Histórias dele valem. Mais vida que terno de doutor. N'sses homens é que a gente devia de respirar. Ser tão astuto, Sertão matuto... Desabo muita falança nesse senhor interlocutor, não não? Sei! Herança de jagunço... Mas antes que dia engula noite cheia, adentro mato, lhe trago caça e um bom abraço, lembrança de sertão. Mais não digo: viver é muito dificultoso...

    ResponderExcluir
  20. Que pena, acontece eu mesma ando tão esquecida ultimamente. Realmente temos estes receios de voltar a releitura. Precisamos sempre avançar em busca de coisas novas. Porém, aprendemos muito do velho também. Talvez você tenha percebido na releitura algo que talvez passou despercebido da última vez. Enfim, esta é minha humilde opinião, hahá. Porque dá sempre um friozinho na barriga quando estamos falando de Humberto e com Humberto. Tenha uma excelente semana! Abraços.

    ResponderExcluir
  21. Humberto isso se chama ato falho... Nada eh sem querer kkkkk abco estarei em dezembro no show de encerramento.... Fa pra sempre!!!

    ResponderExcluir
  22. Grande Humberto, um bom livro sempre tem que estar na mochila. Cara, também escrevo letras e quem sabe um dia você não faça uma crítica!

    ResponderExcluir
  23. Quando me deparei no texto com as referências ao Guimarães (ser que me marcou muito quando o redescobri em uma matéria da revista "Bravo!" que mostrava o seu diário) achei que o texto iria se perder em devaneios em torno da obra do autor. Foi automático. Me surpreendi quando você o desviou para "Doutor fausto", do Thomas Mann, quando, no momento, leio "A Montanha Mágica". Sei que lerei a obra por muito tempo, devido ao tamanho, mas a coincidência foi estranhamente agradável.

    No mais, parabéns pelo blog, Humberto. Os textos são bastante agradáveis de se ler.

    http://www.descoise.blogspot.com

    ResponderExcluir
  24. Tantos comentários, tu sem tempo algum... E eu aqui na esperança de ser lida só para dizer que és lido...
    Aprendo algo toda vez que aqui pouso!...
    Abraços.

    ResponderExcluir
  25. Costumo dizer que são os livros que me escolhem e não eu que os escolho. É mais fácil assim, alguns títulos ficam décadas na minha lista de espera porque outros vão aparecendo pelo caminho. Por conta disso, o citado Grande Sertão: Veredas, eu só fui ler a algumas semanas atrás.

    Abraço!

    (Acabei de me dar conta que acho que nunca perdi nenhum livro na vida, diferente de chaves e celulares).

    ResponderExcluir
  26. Deixo aqui meu blog, onde há algumas opiniões e trechos sobre livros incluso alguns do Gessinger... :)
    http://www.listadelivros-doney.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  27. Impressão minha ou esse Nando Peters tava errando um monte de coisa no show aqui em Ijuí, nos solos improvisos radicais...Volta Tavares...hahahaha

    ResponderExcluir
  28. Meu favorito do Thomas Mann é "Montanha Mágica".

    ResponderExcluir
  29. 1berto, sei que minha sincronicidade é totalmente des-sincronizada (com hífen ou sem, diabos de nova regra que não sei usar direito - acho que estou ficando velho, porque sempre achava velho quem falava da reforma ortográfica de 72).

    Isso acontece porque não sou um bom seguidor, nada adepto a muitas sincronias. Apareço de vez em quando. Racionalizando, eu acho que pode ser porque é sempre boa a leitura e fico frustrado quando leio apenas uma postagem, então espero acumular. Falando a verdade, a explicação mais palpável é que seja desleixo mesmo...
    Mas mesmo tão des-sincronizado (?) tocaste num tema que me é absolutamente caro e provocas reflexões, e resolvi fazê-la em "letras altas"... Não sei exatamente o porque, já que faz tanto tempo e menos ainda porque certamente não contribuirá em nada, porque ninguém irá ler isso mesmo (e isso já possibilita uma outra reflexão acerca do paradoxo da informação disponível e informação útil, embora obviamente esse meu comentário não acrescente em nada).

    Sou de péssima organização de forma geral, mas com livros e discos isso é pior - e olha que isso vindo de alguém que ainda guarda fitas de video-cassete (algumas delas com velhos shows dos Engos gravados) é bastante relevante. Sei que a fase do cd já se foi, mas eu não consigo me desfazer dos meus, mesmo que quase não sejam mais usados em tempos de spotify e, pior ainda, mantenho os LPs (inclusive os dos Engos, originais, dos anos 80 e 90, alguns até arranhados), mesmo não tendo mais toca-disco há mais de 15 anos...

    Os discos tem essa coisa mais perene, de volta contumaz. Mas os livros são mais descartáveis, geralmente de leitura única (embora às vezes, mas bem às vezes, voltemos para uma segunda leitura como fizeste com o teu Thomas Mann - e nunca uma segunda leitura será mais do mesmo, porque a leitura é basicamente uma interação entre a letra escrita e a experiência vivida, e mesmo duas leituras enfileiradas não serão nunca iguais)...

    Mas fato é que guardar livros é a coisa mais estúpida possível do ser humano. Deixar um livro na prateleira por 1, 2, 10, 15 ou 25 anos (como no teu caso) para uma nova oportunidade é uma loucura. Além do mais, haja espaço para guardar isso - só o tempo perdido para tirar o pó desses livros...

    O mais adequado é repassar o livro, fazer a informação, o texto, as letras passearem por outros lugares. Por isso nunca me importei tanto com a não devolução de livros que eu empresto (embora fique um pouco mais chateado com os livros técnicos, que talvez tenham alguma periodicidade de consulta maior).

    Sou um frequentador de sebos e acho tão útil essa cultura de fazer circular os livros. Muitas horas gastei dentro dos saudosos sebos da Riachuelo, do Bom Fim ou aquele da Rua da Praia, sentindo o inegável cheiro inebriante de mofo e poeira que tanto fascinava. Hoje em dia ainda gasto umas boas horas por mês (geralmente madrugadas) nos sebos virtuais tendo me cuidar para não gastar demais. Embora os livros em bom estado sejam melhores, os mais acabadinhos guardam também os seus encantos, com riscos, sublinhados e anotações nos levam a uma leitura adicional ao texto impresso ("o que se passava pela cabeça do leitor original quando destacou ou anotou isso?"). Mas nunca fui ao sebo para levar livros, apenas para buscar...

    A melhor iniciativa que eu vi são essas trocas de livro que começaram a pipocar em vários lugares e achei serem a grande sacada do compartilhamento. Leva um livro e pega outro, sem fiscalização ou controle de qualquer tipo, apenas para circular as ideias. A gênese da auto-organização (?) da sociedade em torno de um valor comum. Sensacional...
    Quando no condomínio em que morava começaram a aparecer livros nas mesinhas do hall eu achei incrível e me prometi que iria me tornar um grande adepto às trocas...

    (continua...)

    ResponderExcluir
  30. Mas da filosofia à prática vai uma distância significativa...
    Não consigo me desfazer dos livros. Já li, vejo na estante livros que estão há anos ali (alguns provavelmente com tempo parecido do que teu Thomas Mann), mas não consigo me desfazer dos coitados dos livros que ficam confinados à minha estante...
    Ou às caixas, quando começa a faltar lugar nas estantes...

    Tive que fazer uma mudança esses dias (poucas coisas são tão chatas e perversas na vida como uma mudança - até ver o Grêmio ser rebaixado é menos ruim do que ter que fazer uma mudança). Havia feito outras em 2013, em 2005 e em 2000. Pois bem, na hora de fazer a mudança, encontrei caixas e caixas de livros ainda fechadas e separados e identificados por tipo/assunto (talvez esse seja o indício do porque as mudanças serem tão chatas e demoradas). Tomei a firme decisão de abrir as caixas (tinha caixa fechada de livros que tinha feito na minha primeira mudança, em 2000) e destinar os livros, deixá-los respirar, serem úteis a outras pessoas, cumprirem sua missão…

    Cheguei ao autodiagnóstico de ser humano totalmente egoísta, desvirtuado (ou avistado) e dissociado de uma filosofia de vida em comunidade.
    Desempacotei todos os livros, mas fiquei com pena porque poderia voltar a reler os livros e tinha planos disso. Cheguei à conclusão que sou como uma criança mimada na minha relação com os livros - na hora de dividir os brinquedos ou destinar um brinquedo que não está usando, a criança começa a usar de novo o brinquedo velho e esquecido e para “racionalizar” explica para os pais que é o brinquedo que ela mais gostava: exatamente eu com meus livros…

    Resultado: nada de livros circulando, cumprindo seu papel. Todos reencaixotados e uma lista enorme dos livros que eu preciso reler - e uma falta crônica de espaço para guardar… E de tempo para ler tudo…

    Definitivamente, somos quem podemos ser…

    ResponderExcluir