Outono em POA


Por conta da canção Outono em PoA, fui convidado a gravar depoimento para uma TV local na semana em que a cidade aniversariou e a estação das folhas amareladas chegou.

É comum me chamarem quando acham que um evento se relaciona a alguma das minhas canções; sejam programas esportivos (algo relacionado ao Grêmio), comportamentais (sempre me ligam no Dia Mundial do Rock) e até (pásmem) nas mudanças de papa (sempre há quem se lembre d'O Papa é Pop). 

Nunca me sinto muito à vontade nessas ocasiões por achar que falta, nas minhas composições, a unidimensionalidade dos hinos. Hinos não têm dúvidas. Eu as tenho. Mais do que certezas.

Mas tudo bem, ninguém, além de mim, tem obrigação de prestar atenção nas filigranas de minhas canções. E, nesse caso específico, a matéria foi super-bacana e bem agradável de fazer. 


OUTONO EM PORTO ALEGRE

nem tudo está perdido
nem sinal de pedra no peito
o horóscopo do jornal arriscou “um belo dia”
liguei o rádio na hora certa
era a canção que eu queria

nem tudo está perdido
tudo em paz no reino da química
ninguém me telefonou enquanto eu dormia
sonhei com meu pai e ele sorria
chimarrão pra acordar era só o que eu queria

nem tudo está perdido
outono em Porto Alegre
sou o dono dos meus passos sobre folhas mortas
o mundo fica para outro dia
andar por aí era tudo que eu queria

veja você... que surpresa... que coisa incrível!
descobri que sou feliz!
veja você... quem diria... que ironia!
sem você eu sou feliz!
veja você... outono em Porto Alegre
me faz feliz

Há uma tradição na música popular (notadamente americana) de utilizar a passagem das estações como metáfora do ciclo da vida. Nestes casos, geralmente, outono é vinculado à melancólia, início da decadência que culmina no inverno. Mas, ciclos são cíclicos, né? (dããã!). Por isso, a noção de decadência final não faz muito sentido para mim. Escrevi uma canção tentando absolver o outono deste karma.

Eu gosto da estação. Equidistante dos extremados verão e inverno que, apesar de opostos, são muito parecidos: estações onde o corpo está muito presente nas exigências de aquecimento ou alívio de calor. E a primavera... confesso que, com suas cores berrando e seus pássaros cantando cada vez mais cedo, me parece um pouco exagerada. 

O outono, na falta de alguma obviedade que o caracterize, é mais propício a devaneios espirituais. Há, logo no início, a Páscoa; a Paixão, martírio e ressurreição, é um paradigma cristão que relativiza o corpo e tudo que é material. Uma questão sempre ambígua na cultura ocidental, independente de se professar ou não a crença.

Ops, peraí! Como diria Eddie Brickel e seus New Bohemians, Shove me in the shallow water before you get too deep! Não me deixe ficar muito profundo!

Gosto do outono de forma simples, descomplicada. A temperatura fica mais amena, o sol entra em casa de forma mais penetrante mas menos violenta, traçando novos desenhos na sala a partir do retângulo das janelas.

Para quem tem olhar atento, as folhas das árvores começam a cair lentamente, deixando mais aparente a estrutura dos galhos. Fica mais clara a relação entre o que é perene e o que é transitório. No próximo ano, serão outras as folhas na mesma árvore. Mudando de escala, chegará o tempo em que será outra árvore no mesmo chão. A vida e seu eterno bailado entre o que passa e o que permanece.

Motivos bobos (uma canção no rádio, um sonho que mate a saudade - um mate! -, um telefone em silêncio, um passeio sobre folhas secas) têm mais chances de fazer a diferença no outono e, (quem diria!), me fazer feliz.

É esse o papo da letra de Outono em Porto Alegre, o renascimento surpreendente, a partir de coisas aparentemente insignificantes, como uma rajada de vento e a passagem de uma nuvem em frente ao sol, nos banhando de luz-sombra-luz... bobagens. Mas bobagens também contam. Há estações que, ainda bem, nos deixam mais sensíveis a elas.

(*)

E na estrada, passada a excitação do lançamento do inSULar, o que me fará feliz neste outono? Simples: a tentativa de fazer, a cada noite, o melhor show de todos os tempos. Seja qual for o local, as músicas, o cenário, a formação... ou a estação.
abraços
01abr1015

48 comentários:

  1. Hje serei o primeiro, perfeito como sempre, vida longa Humberto !!!

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  2. no meu estado agora que é "inverno".

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  3. Hje serei o primeiro, perfeito como sempre, vida longa Humberto !!!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Vc fala ao nosso coração, amo vc HG!

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  6. Belo texto, sempre expondo muito bem seus gostos, também adoro o outono e o que ele traz (não é a melancolia). Acho o máximo isso de cada música sua ter um certo sentido, um porque de ela ser escrita, isso agrada meus ouvidos. Seria uma boa você fazer um texto com o significado envolvido em cada música ou em algumas delas!
    Abraço e uma boa semana!

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    1. Eu concordo. Ele podia postar o significado de suas músicas, o que o motivou, o que o inspirou, onde estava seu pensamento e coração quando compôs tão belas melodias e letras tao tocantes.

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  7. Show mestre! A vida realmente é um bailado entre o que passa e o que permanece..

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  8. Pontualmente, estava só esperando voce pra dormir feliz....

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  9. Adorei o texto! O outono é o meu ano novo. Meu ano muda em abril e o outono vem para avaliar o que manter e o que deixar ir. Deixar o baú e levar só o que importa na mochila. A analogia à árvore sempre me caiu bem: minhas raízes me mantêm forte e de tempos em tempos procuro o melhor.

    Obrigada pelas palavras, sr. Humberto. =)

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  10. O melhor show de todos os tempos! Humberto, vi o pior é o melhor show de minha existência em sua compania. O pior foi em 2003. Em chapeco SC as distorções estavam muito fortes a qualidade do som era duvidosa, e com todo o respeito, parecia ter gente demais no palco. Por outro lado. O melhor show de minha vida foi em fevereiro de 2014 em Toledo PR. Um poder trio liderado pelo Humberto. A galera que assistiu se transformou em uma entidade que respondia a cada troca de instrumentos. Hora músicas suaves executadas de maneira visceral. Outros momentos o coro de mil vozes apoiando as harmonias marcantes. Sem dúvidas o ápice veio quando o bis da infinita hawaii transportou todos pra outra dimensão. ....a alternância de baixo e guitarra acoplados em um único instrumento na execução do exército de um homem só! Os novos arranjos e acompanhamentos de velhas poesias de fé, surfando karmas e dna pulsando noite a dentro vida a fora. Só quem viu viveu!
    Só temos a agradecer. Poesia, ritmo e o melhor é inigualável show que presenciei e fez mudar minha vida!
    Valeu Humberto, pela oportunidade de te acompanhar nessa nova fase.

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    1. Sem a menor sombra de dúvidas, essa é a melhor formação da "banda HG" após o inigualável ciclo GLM. Esses meninos tocam muito e sabem se comportar. O som está ótimo e o Rodrigo Tavares tem vinculo emocional com as canções, o que faz uma enorme diferença...

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  11. 1berto amei essa postagem sobre o outono, também uma das estações mais bonitas do ano.
    #GessingerLiveInSalvador

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  12. Depois destá reflexão passei do inverno à primavera. ...descobri que sou feliz!

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  13. Nunca parei pra pensar que ligar o rádio no momento da canção preferida fosse de fato a hora certa de ligar o rádio, Sorte ou premonição? ninguém me telefonou enquanto eu dormia, um telefonema bastaria. Sou o dono dos meus passos sobre folhas mortas, nas folhas que o outono levam ao chão, o mundo fica para outro dia, andar por aí era tudo que eu queria, ando só, pois só eu sei andar, sem saber até quando.
    Valeu a espera, e a reflexão. Um abraço Humberto.

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  14. Sempre com um texto limpo e entendido. Obrigado por partilhar suas idéias e pensamentos conosco, Humberto. Por isso com intimidade me refiro à você como Mestre.

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  15. Adoro o outono. É a estação equilibrada. E suas cores? Amo! Da minha janela acompanho a cada estação a transformação que você descreve. Todo ano uma nova árvore no mesmo lugar... interessante... nunca tinha pensado nela assim... pensava numa velha senhora de cabelos sempre novos... ou seriam novos pensamentos?
    Bom outono!

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  16. Bacana esse texto. em menos de duas semanas lá se foi minnha mamis de forma rápida, e um pouco de sofrimento, ou muito sei lá... Quem pode saber, só quem toma morfina...mas esse lance de c iclo da vida me fez rtefletinr muitas coias, nesse momento complicado. Valeu HG...Abs

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    1. Ei Cara, sou Wiliam do Estadual Central, vc é o Carlos Kleber que estudou comigo lá? Abs.

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  17. Texto maravilindo.e a música.ah essa música eu a amo...

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  18. Texto maravilindo.e a música.ah essa música eu a amo...

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  19. Humberto...
    Com você eu sou feliz!

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  20. O outono eh perfeito como os seus hinos(sim,escrevestes hinos para a minha geracao!!).Unidimensionais,transcedentais e inequivocos...
    Amo suas musicas,seu blog e seu cabelo.
    Muitos outonos felizes pra nos,com vc!
    Obrigada!!
    ;)

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  21. O outono eh perfeito como os seus hinos(sim,escrevestes hinos para a minha geracao!!).Unidimensionais,transcedentais e inequivocos...
    Amo suas musicas,seu blog e seu cabelo.
    Muitos outonos felizes pra nos,com vc!
    Obrigada!!
    ;)

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  22. Estaçoes, tenho uma forte tendência ao gostar mais do outono,justamente pelo equilibrio entre as temperaturas. Mais no fim são apenas maneiras diferentes de observar o mesmo quadro. Talvez um pouco mais introspectiva, reflexiva diria até filosófica. Mais no fim são religioes diferentes falando do mesmo Deus. Abraço mestre

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  23. Humberto, um ser surpreendente, assim como o outono, um ar singelo, palavras simples e poéticas, nos fazem acreditar no amanhã, acreditar no ser, na natureza, nas diferenças e mudanças das estações, provocadas pelos ciclos da vida. Suas canções também são assim, imprevisíveis, mas com a certeza de um ciclo de evoluções, quanto mais o tempo passa uma canção melhor. Enfim,sucesso para todos!!!!!
    Abraço!!!
    Marcus. (Bahia)

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  24. Estranho paradoxo né: quanto mais gente, mais solidão. Porto Alegre tem cada vez mais gente, cada vez mais sós. Grandes cidades são ou estão assim. Muitos portoalegrenses se esquecem por exemplo que existe por perto um belo rio (que não é rio). O que dizer então da passagem do tempo, das estações. Olhamos cada vez mais para uma telinha em nossa frente (como há telas não é mesmo), e cada vez menos para folhas que caem de uma árvore, ou para sorrisos ou choros de pessoas queridas. Quando você expressa essas sensações, é como se buscasse lá no fundo aquilo que não vemos mais. Tipo, tirar um som de um instrumento que há muito não se ouvia. Ou olhar pra fora da janela e sentir/ouvir/cheirar/ver. Não é a toa que no disco de Outono em POA há outra musica em que somos convidados a ver com os próprios olhos, a ver a vida como ela é. Valeu.
    Wendel.

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  25. Atrasado... Perdi a remarcação do compromisso! Mas não poderia deixar de comentar: texto entrópico!

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  26. hoje voce e feliz, mesmo nesse mundo caotico . é livre do sistema.......rj,

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  27. Abraço, Humberto G.,rock e poesia sempre juntos por aqui!Legal seu envolvimento em cada show independente do dia e local!

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  28. Abraço, Humberto G.,rock e poesia sempre juntos por aqui!Legal seu envolvimento em cada show independente do dia e local!

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  29. Simplicidade e perfeição define!

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  30. Com um texto desse, como não se apaixonar mais ainda pelo Gessinger?! Adoro você!

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  31. Um texto leve e profundamente lírico! Bom demais de se ler!

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  32. Este comentário foi removido pelo autor.

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  33. Trás esse outono aqui pra Recife. Só sabemos o que é verão, ou chuva de não sair de casa. rsrs

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  34. Hinos soam como obrigações...
    Eu prefiro as entrelinhas, elas te permitem ser o que quiser... Como as estações do ano.. tudo se transforma...
    Long live to rock'n roll

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  35. Há sempre coincidências estranhas que nos fazem pensar...
    Na semana em que eu meu perfil eu coloquei a frase:"eu sonho com um abraço a dois braços", por culpa da maior angústia da minha vida até o momento, vem você, o ídolo/sócio ( a entender) postar algo parecido. No show em umuarama deu a nítida impressão de estarmos nos estudando. Não se assuste, como não me assustei! Sempre leio, analiso, descarto ou guardo os textos, porque o mundo também é cíclico... (((( impossivel e estressante publicar normalmente no blog, tem que fazer conta, etc. etc. etc... sem paciência pra isso, por isso como anônimo, se der) Meu nome é Adil

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  36. e também não se pode corrigir... rss... Meu nome é ADIEL e não Adil

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  37. E mesmo sem perceber, seus textos se parecem curiosamente com suas músicas, a cada frase, uma bela estrofe ;)

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  38. Andei sobre folhas secas e senti o vento do outono que escapa de seu texto... Liiiindo!! Tbm amo essa estação. Bjssss ♥

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  39. Bah único: Escrevendo meu "contrapost" pelo post da última segunda, 22/06/2015, sensível a questão "estações", lembrei de um raciocínio e contrapost escrito para outro post - esse. Achei o bendito em algum arquivo de editor de texto no meu celular. Depois foi só voltar algumas semanas e reler (é bom reler e não necessariamente entender de novo, mas o novo) tuas postagens. Bingo!

    O contrapost em questão:

    Com todo respeito a opinião dos amigos gessingerianos, mas não!

    Please Humba, não faça isso!

    Nesse caso da "Outono em Poa" ou em outras canções - se uma entrevista, alguma mídia relevante, algum de fé questionador em que valha a questão -, ok, dá um "ficaadica". Mas no geral não! Não precisamos legendas linguísticas para o que está sendo traduzido pela alma... a cada versão, a cada formação. A cada audição nossa de cada dia (ou era).

    Saudações amigos, saudações 1berto!

    Att,
    Neto Silveira (NPoA!)
    Lautildes da S. Neto.

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