Encontro na montanha


No feriado, subi a serra em busca de sossego. A trilha sonora na estrada foi o disco que comemora 50 anos de carreira do Luiz Carlos Borges, projeto do qual tive a honra de participar. Quando ele me convidou, sugeri que cantássemos Encontro com a Milonga, uma composição inspirada - e muito bem escrita - em que o mestre fala da relação do músico com sua arte/ofício:

ouvi dizer que a milonga 
andava com a espinha torta
ouvi dizer que a milonga 
andava com a espinha torta
e até ouvi comentários 
que a milonga estava morta

então quem foi que esta noite 
veio golpear minha porta?
então quem foi que esta noite 
veio golpear minha porta?

acordei de madrugada 
inquieto e meio nervoso
e fui terminar o pouso 
abraçado na guitarra

parecia uma fanfarra 
a mescla de corda e voz
uma milonga entre nós 
e eu grudado na guitarra

só lá pelas quatro e meia 
já na madrugada longa
eu controlei a milonga 
sem entortar a harmonia

enquanto ela me dizia 
num tom grave, mas sincero
"ou tu canta como eu quero 
ou não vê clarear o dia"

"tum tum tum, tum tum tum" 
a milonga repetia
e eu não chorava nem ria 
com os olhos que eram um braseiro

mas quem nasce milongueiro 
mesmo com a vida num fio
não refuga desafio 
e nunca corre primeiro

as horas foram passando 
e eu já parecia outro
ela viu que eu era potro 
mas disse "não te amedronta"

"ninguém venceu, 
faz de conta que aqui nada se passou"
mas quando o sol apontou 
eu tinha a milonga pronta!

e ainda meio cansado 
depois desse pega-e-solta
com jeito, campeei a volta 
antes que ela fosse embora

e perguntei sem demora 
porque sou curioso assim
"conta em segredo pra mim, 
onde é que a milonga mora?"

e a milonga então me disse 
"não é segredo, parceiro
já morei com um missioneiro
que tinha n'alma um violão"

"eu durmo em qualquer galpão 
e desperto com a boieira
mas, se tu for da fronteira
eu moro em teu coração"

e não pude mais contê-la 
quando enveredou pra porta
me gritando "eu não tô morta 
e pra frente há muita lida"

"por ora estou de partida 
a razão pouco me importa
mas volto a golpear tua porta
porque teu rancho tem vida"

nem cuidei de despedida 
senão o pranto me agarra
afinei bem a guitarra 
e num dedilhado assim

pelo pago me perdi 
conforme a milonga manda
eu não sei onde ela anda 
mas foi quem me trouxe aqui
eu não sei onde ela anda 
mas foi quem me trouxe aqui

ENCONTRO COM A MILONGA 
(Luiz Carlos Borges)



Serra, madrugada, milonga, Borges... inevitável que viessem lembranças da gravação do set acústico do inSULar. Duas noites maravilhosas.

Na vinícola que nos serviu de locação (um abraço aos amigos da Valduga!) havia algumas cabanas para hospedagem. Por não serem suficientes para toda a equipe, decidimos que eu ficaria ali com os convidados enquanto a equipe pernoitaria em Bento Gonçalves. Mas, finalizadas as gravações, Duca, Borges e Bebeto preferiram descer a serra para dormir em casa. Fiquei sozinho nas cabanas. 

Como dormir depois de tudo que rolou? Impossível! A cabeça, a milhão, tentava pensar tudo ao mesmo tempo. A memória repassava os melhores takes enquanto outra parte do cérebro já estava lá na frente, planejando mixagens e edição.

No meio desse turbilhão, ouvi um CLIC e o quarto ficou totalmente escuro. Cheguei à janela tropeçando e descobri que não era só no quarto. A falta de luz era geral. Ainda que, lá fora, não fizesse muita diferença: era um enorme parreiral com raras lâmpadas e a lua (que, felizmente, foi registrada no DVD!) generosamente iluminava a noite. Sem luz, tudo ficava mais claro, à medida em que os olhos desmamavam da eletricidade.

Coloquei um casaco e voltei ao espaço onde, um par de horas antes, havia rolado a gravação. O equipamento já tinha sido retirado e não havia mais ninguém ali. Sentei-me no chão, escorado num barril de vinho, e vivi, calado e inerte, um momento de rara intensidade. Coisas aparentemente desconexas começaram a fazer sentido e alguns fantasmas revelaram sua patética inexistência.

A adrenalina foi baixando enquanto imagens se revezavam harmoniosamente na minha cabeça: meu primeiro violão, a pasta plástica abarrotada de poesia pueril, os vinís da minha adolescência, as várias fases da minha carreira, os músicos talentosos com quem tive o prazer de tocar, os vários palcos, hotéis, cidades... assisti a tudo como se fossem alas de uma escola de samba lisérgica a desfilar ao som de uma balada do King Crimson.


De volta ao presente: neste carnaval de 2015 também tive uma dessas epifanias. À noite, na escuridão branca da montanha imersa em nuvens; tentando, em vão, sintonizar meu velho rádio de seis pilhas pequenas e antena torta.

A cada movimento do aparelho, por menor que fosse, embaralhavam-se as estações. Um locutor argentino invadia a polca de uma banda folclórica alemã silenciado por um pastor e fragmentos do que deve ser o que chamam de sertanejo universitário.

Coisas desconexas, fantasmas. Tudo envolto em muita estática. Uma metáfora do mundo ruidoso, multi-facetado e fragmentado ao qual temos que (tentar) dar sentido. Cada um tem sua forma de buscar este sentido. Música é a minha. Ouvi dizer que ela estava com a espinha torta. Então, quem foi que, esta noite, veio golpear minha porta?

24fev2015

43 comentários:

  1. Hoje não queria comentar, só queria agradecer ao blogessinger pela oportunidade de conhecer gente que vale a pena ser conhecida; por conhecer gente do bem!

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  2. Mestre. Belo texto, mais uma vez. Vida longa à milonga!

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  3. Boa noite HG , vi q o texto é grande e irei lê-lo agr , mas antes queria garantir q vc pudesse ler meu comentário , hj escrito mais rápido porem com o carinho de smp.... Forte abraço

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    1. Vdd... De todas as artes essa é a que eu escolhi pra caminhar lado a lado comigo, pra ela não ha estrada ruim.

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  5. Belo texto. Lê-lo me trouxe à mente a recente noite do seu show em São Paulo. E novamente fiquei fascinado com o carinho e zelo que você tem por sua arte. Me fez lembrar da milonga que cantamos aquela noite. Do seu sorriso meio tímido ao ver a cortina se abrir.

    Aprendi muito naquele show. Vi como, mesmo depois de 30 anos fazendo isso, você ainda se entrega de corpo e alma à sua música. Muito obrigado por ter me agraciado com o melhor show que já presenciei. E que veio acompanhado de algumas lições sublimes para essa vida longa...

    Abraços, mestre.

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  6. Suas ideias teu talento nato e equipe que trabalha contigo te fazen o último grande poeta.1 abraço nos vemos em #insulminas

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  7. "...Sentei-me no chão, escorado num barril de vinho, e vivi, calado e inerte, um momento de rara intensidade..."

    Quase me teletransportei para esse momento, de tanto que imaginei!

    Demais!

    Esses momentos estão nos meus preferidos da jornada chamada: vida!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Parabéns pelo texto mais uma vez maravilhoso. Beijos

    Contando os dias pra lhe vêr.

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  10. Baita texto. O dia hoje acordou meio nublado, meio pesado e eu ainda dormindo. Dai então uma visita ao Blog e finalmente eu acordei.

    Abraços!

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  11. Simplesmente demais, parecia que eu estava lá, valeu!!!

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  12. "...fantasmas revelaram sua patética existência.". Parei um pouquinho ali, saboreando o talento de quem sabe dançar com as palavras. Quanta coisa numa frase...
    Boa semana. Bom trabalho.

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  13. "A Nostalgia do Presente na espera do Futuro"

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  14. Show demais, as participações deste jovem senhor no DVD e anteriormente no CD Insular de estúdio foram muito preciosas, vou procurar saber mais sobre a música do Luis Carlos Borges, boa dica este comemorativo dos 50 anos!

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  15. Quem golpeou sua porta?... Deve ter sido a milonga!.. não dá p/ resistir a você... Sempre perfeito... Bjs, irresistível

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  16. Meu presente de todas as semanas!
    Obrigada por existir e compartilhar conosco tanta poesia!
    Abraço da fã!

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  17. Quando morava na capital do meu Estado, era relutante em pertencer àquele lugar. Tudo era tanto (mesmo não sendo tão grande). Tudo era tempo. Havia pó de minério, praia sem banhistas e no céu faltavam as estrelas. Tudo era pouco (mesmo ao muito movimento). E eu era o compromisso, o ônibus lotado, o nariz entupido e a falta de sorrisos. Daí, resolvi escolher o canto dos pássaros, o vento do mar, som das cigarras. Agora, nem tanto nem pouco, só é bonito.

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  18. http://www.luizcarlosborges.com/ comprando aqui!

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    1. Boa, vou comprar por lá tb Jean! Aliás mto bom o site pra conhecer mais sobre o trabalho do Borges..

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  19. beto... um dos seus mais belos textos!

    obrigado.

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  20. Obrigada por compartilhar um momento seu com seus de fé's, obrigada pelo texto maravilhoso e muito bem escrito.
    Bezitos e boa semana!

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  21. Belo e intenso texto HG. Dá pra ter noção dos sentimentos da noite de gravação e o que sente a cada show apresentando o Insular.
    Ah! Tua música nunca esteve com a espinha torta. :)
    Abraço, até 05 /03.

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  22. Caramba!!!
    Me senti ali sentado contigo, escorado no barril! :)

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  23. "Toda vez que falta luz, o invisível nos salta aos olhos". Aos olhos, e o inaudível vem também com força aos ouvidos. Até o silêncio faz barulho, nos nossos ouvidos tão acostumados com barulheira.
    Obrigado por ter partilhado esse momento que passaste na serra, permitindo estar ali contigo. Acho uma doidera essa transformação pela qual os locais podem passar em questão de horas, a dominação do breu e do silêncio.
    E obrigado por encantar a minha geração (anos 90), e a posterior, e a anterior, com relatos tão belos que nos tiram do breu cotidiano. Impossível não sorrir muito, com os dentes e almamente, ao ler suas prosas nesse espaço verde e amarelo.
    Abraço.

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  24. Lindo,Lindo esse texto...Leio o viajando como se estivesse lá assistindo.

    Abraços amigo, de quem muito te admira. Parabéns!

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  25. Maravilhoso, só quero dizer obrigado, voltei em tantas fases que vivi também, onde quando passando por 1986 encontro com os Enghaw. Abraço
    Marcelo Serrano

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  26. Humberto te admiro!! A nostalgia que tu teve naquele momento de se sentar ao chão, lembro-me do show que fizeste aqui em Cascavel PR em setembro de 2013 (a voz e alma dos engenheiros do Hawaii), foi nostalgia pura!!! Mais nostálgico ainda quando ao final do show você me entregou a palheta que havia tocado as ultimas canções.. Isso pra mim ate hoje, quando lembro do momento, sinto uma emoção tao forte, que eh difícil de dizer.. De explicar..Nunca, em seis shows que fui tive a sensação de que você olhou pra mim.. Entre milhares de pessoas neste show de 2013, você olhou. Sei que não se lembrará disso.. Mas pra mim é uma honra poder compartilhar isso contigo. Que Deus esteje sempre com vocês. Tenho 24 anos, mas desde os 9 anos de idade, te acompanho. Abraços, Jenifer Mello.

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  27. Humberto te admiro!! A nostalgia que tu teve naquele momento de se sentar ao chão, lembro-me do show que fizeste aqui em Cascavel PR em setembro de 2013 (a voz e alma dos engenheiros do Hawaii), foi nostalgia pura!!! Mais nostálgico ainda quando ao final do show você me entregou a palheta que havia tocado as ultimas canções.. Isso pra mim ate hoje, quando lembro do momento, sinto uma emoção tao forte, que eh difícil de dizer.. De explicar..Nunca, em seis shows que fui tive a sensação de que você olhou pra mim.. Entre milhares de pessoas neste show de 2013, você olhou. Sei que não se lembrará disso.. Mas pra mim é uma honra poder compartilhar isso contigo. Que Deus esteje sempre com vocês. Tenho 24 anos, mas desde os 9 anos de idade, te acompanho. Abraços, Jenifer Mello.

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  28. Great moments! Reminiscências, memórias que vêm e vão, inspirações, pulsão poética, êxtase. É preciso saber viver para experimentar tudo isso e sentir certa leveza difícil de explicar mas muito boa de experimentar, sem truques, sem artifícios, sem alucinações: de dentro para fora.

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  29. Gente que merece ser conhecida e reconhecida pelas futuras gerações, mto obrigado ao blogessinger por expôr a cultura gaúcha e trazer ao nosso conhecimento tanto talento escondido pelo tempo.

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  30. Belo texto 1berto! Parabéns!

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  31. HG, é incrível como tens a habilidade de fazer de suas memórias as nossas memórias, tamanho o cuidado com a narrativa e os elementos essenciais. Parece que estivemos lá naqueles momentos, fascinante !
    É muito bom, de vez em quando, rebuscar o passado em busca de boas lembranças, é reconfortante.

    "Deve ser o que chamam Túnel do Tempo..."

    Abraços HG e aos "de fé", de alguém perto demais das capitais.

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  32. Genial!

    Um trecho coincidiu idéias para o meu momento:
    "eu não tô morta e
    pra frente há muita lida
    por ora estou de partida
    a razão pouco me importa
    mas volto a golpear tua porta
    porque teu rancho tem vida.
    nem cuidei de despedida
    senão o pranto me agarra."

    Bravo!

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  33. Sinto música nova ai.. *-* Será? <3 Grande abraço!

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  34. Sinto música nova ai.. *-* Será? <3 Grande abraço!

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  35. Fera demais! Ansioso também pelo show no Rio no dia 07/03. Estarei lá com minha guria cantando a plenos pulmões! Evoé!

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  36. http://www.papodehomem.com.br/quem-esta-sendo-incentivado-pelas-leis-de-incentivo

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  37. Que "estoria" familiar. .. talvez tudo se resuma a uma queda de braço. ...Abraços RBK

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  38. https://www.youtube.com/watch?v=3d9pI6iG1UM&feature=youtu.be

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