dum dum-dah-dum dum dum dum dum

Sentei no sofá com a sanfona no colo, a mão esquerda tateando os botões da baixaria enquanto a direita zapeava no controle remoto. Seriam, estes também, botões da baixaria (em outro sentido)? Não nesse caso: só estava procurando um canal para assistir a mais um jogo da Copa.

Sem me dar conta do que fazia, comecei a tocar, vacilante, a frase de contrabaixo que Roger Waters criou para a musica Money. Dum dum-dah-dum dum dum dum dum. Ela é famosa pelo grande sucesso da canção e pela singulariedade do compasso 7/4, pouco comum na música pop (pode-se ouvir uma rádio por semanas sem escutar nada que fuja ao 1-2-3-4; em algumas rádios pode-se esperar em vão a vida inteira por algo que fuja a essa regra).

Não sei quão comum é o fato de alguém surpreender-se consigo mesmo. Comigo acontece com frequência. O que pode ser sintoma de excesso (ou falta) de auto análise. 

Fiquei surpreso ao me flagrar tocando - no sofá esperando o início de um jogo qualquer - a frase de baixo de Money no acordeon. Caraca, me dei conta de que, apesar de fã desde sempre, nunca tentei tocá-la no contrabaixo! Ao menos nunca tentei emular o original nota por nota. Apesar de saber que copiar é uma forma válida de aprendizado (se não nos esquecermos jamais que estamos copiando - parece obvio, mas... olhe em volta).

Seria extremo amadorismo meu, fã e baixista, nunca ter tocado Money no baixo? Ou extremo profissionalismo? Conviver com o mistério, não querer decifrá-lo pra não quebrar o encanto seria sinal de ignorância ou de sabedoria? Será este o significado do dito existencialista "a dúvida é o preço da pureza"? 

Acho que é possível admirar sem querer copiar. Correndo o risco de extrapolar e dar um passo maior do que as pernas: acho que é possível amar sem querer possuir.

(*)

Falando em "correr", "passo", "pernas" e no "risco da racionalização das paixões": pergunte a uma centopeia como ela anda e ela tropeçará.
abraços
29jul2014

41 comentários:

  1. Se tu soubesse antes o que sabe agora, perderia toda a graça, HG!
    Um brinde às descobertas de / em nós mesmos.

    Boa semana e berço! Que a segunda virou terça. =)

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  2. "dedos nas bolhas! " rs
    Saudações RN.

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  3. Adorei gessinger, você me inspira a cada dia com suas palavras .

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  4. Obrigado pelo show em Marechal. Pra mim, foi o melhor.

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  5. Tenha uma boa noite mestre ! Ótimo texto. Te amo ♥

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  6. Admirar, amar sem possuir. Boa mestre.

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  7. Amar sem possuir.
    Ser amado sem ser possuído.
    Não possuir quem não quer ama.
    Ser amado por quem não possui quem não ama.
    Contemplar e torcer pra que contemple.
    Perceber que contempla e retribui.
    Ambos dizem sim na contemplação.
    Ambos, virgem de vida, se protegem na paixão.
    Aproximação?
    Pra mim ainda um mistério.
    Tudo acima fiz sozinho
    Sem recíproca.

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  8. Bom, bom... Muito bom... Abraços... E esperamos você novamente em Guarapuava!

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  9. Texto ¨da hora¨!!! Só foi melhor mesmo o Show do dia 19 sábado aqui no PR Teatro Positivo, Obrigado e ótima semana HG!!!

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  10. agora sim!!! =)
    uma semana dum dum-dah-dum dum dum dum dum pra nós!

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  11. Muito boa essa da centopeia. É como tentar entender a respiração, dá falta de ar, tontura, lucidez...(oi?)
    Boa semana.

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  12. Trás a Clara para cantar com você em Jaguariuna!!!
    Seria o máximo vocês dois juntos tirando um som!

    Boa semana, Sr De fé!!

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  13. Toque o baixo de money pra ver. O segundo riff é mais emocionante ainda!

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  14. “Há um tempo em que é preciso
    abandonar as roupas usadas
    Que já tem a forma do nosso corpo
    E esquecer os nossos caminhos que
    nos levam sempre aos mesmos lugares
    É o tempo da travessia
    E se não ousarmos fazê-la
    Teremos ficado para sempre
    À margem de nós mesmos”
    Fernando Pessoa

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  15. Nada melhor como começar o dia com tuas palavras reflexivas que, pintam a luz com cores quentes e flamejantes!

    Valeu Humberto... Amo-te... Sempre!!!

    Bjs

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  16. Sinto o mesmo ao pensar em tirar alguma música sua!

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  17. Amo money!!! Mas ainda n tirei no baixo. Vou fazer isso assim q puder =P

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  18. Baita reflexão, Humberto!

    Obs: Sábado estive no seu show em Umuarama. Gostaria de saber o nome daquele chamamé que vcs colocaram pra tocar após o show.

    Abraço!

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  19. Cara, sou seu fã desde os anos 80, você é um dos maiores baixistas do país e fico feliz em vê-lo tocar nosso amado instrumento de novo; faça um favor a nós, não abandone mais as 4 cordas graves, eu também passo pelo que você disse, hehe, e parabéns, excelente texto!
    rob paulin

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  20. Parabéns, Humberto! Você conseguiu se superar a cada texto que você escreve no seu blog. Que sigas assim!

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  21. Entre tantas coisas que poderiam ser ditas, vou me ater a uma somente: o que me encanta em suas letras, pensamentos, textos ou qualquer outra coisa que seja escrita por você é essa forma misteriosa e ao mesmo tempo clara de instigar a nossa imaginação. "O que será que Humberto quis dizer com essa música?" eu tenho esse hábito ouvindo quase todas as músicas e lendo quase tudo. Ouvindo a mesma música várias vezes, dá para se imaginar no mínimo duas coisas diferentes! Isso é simplesmente fascinante!

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  22. Nem tanto mon ami... Cada momento com suas demandas particulares; demandas que não é você que regula, mas seu ser. Não acredito que se possa recusar encarar o mistério; ao menos, não para o sempre. Recusar, para perder-se em seu fascínio, não é questão de honestidade reflexiva. A dúvida, sim, é questão de honestidade. A recusa a dogmas ou a investigadores que não criticam os pressupostos por trás de seus trabalhos. Que - desgraçadamente com frequência - sequer se dá conta de que trabalha sobre pressupostos.

    Mas reconhecer nossas limitações empíricas não precisa significar recusa da empiria. Mesmo o delírio de um louco ainda é um delírio empírico. Delírio empírico do Ser. Em toda sua grandeza. Reconhecer grandeza até na sordidez. Que sais-je pour condamner une existence? Isso não significa que, em outro plano, outro marco, eu não possa ou deva condenar uma existência.

    Conhecer e exercer nossos limites, a cada dia, é um imperativo biológico. Porque é assim que o espírito avança. E o espírito sempre se movimenta para a frente. Em matéria de avançar, meu caro, não creio que somos suscetíveis de escolha. Talvez no reino do ser - deste ser que somos - não se possa escapar do dilema da Esfinge: "Descifra-me ou te devoro.

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  23. Definitivamente, não creio que a análise possa ser um mal. Pode ser um mal na hora inapropriada. Recusar a crítica – a meu ver - rescende muito mais à fuga do que à sabedoria. Todavia, a demanda do artista é diferente da demanda do crítico. A demanda do filho é diferente da demanda do pai. A demanda do médico diversa da do paciente. Não estou traçando paralelos.
    Lembra quando escreveste em outro texto da tua surpresa diante do jogador de Camarões que desprezou a bola quando do apito final do árbitro? Ali te faltavam elementos para caracterizar a atitude do jogador. Ou a não-atitude, como queira. O mesmo cara que virou as costas para a bola quando do apito, poderia ter feito uma embaixadinha em outro momento. E não são muitas as conclusões que isso possibilitaria. Talvez ter ou não ter emulado Money tenha um significado, sim. Talvez não tenha nenhum. Nesse caso, sua posição é mais privilegiada para saber. Certamente. Vale algo esse mistério? Algo vale: te embriagou um pouco. Mistério embriaga mesmo.
    Falei outro dia do Maltz. Que gosto de uma certa avaliação que ele fez do nosso momento histórico. É um lance de astrologia e coisa e tal. Me diverte: não digo nem que é verdade nem que não é. O Maltz, olhando de dentro, toma isso como verdadeiro; Não fazê-lo seria impostura, quase impossível. Mas a graça pra mim tá em olhar o aspecto lúdico da coisa. Acho que um componente necessário de uma boa crítica é uma certa calma, uma certa generosidade diante do contraditório – ou do aparentemente contraditório.
    Eu sou um estudante de psicanálise a nível acadêmico. Não vou me tornar um psicanalista de profissão porque estou fazendo esse curso apenas por conta de uma relação com minha formação prévia e minhas leituras. Talvez, análise seja mesmo um pouco minha seara. Mas, a primeira vista, teria um certo cuidado com coisas do tipo “riscos de racionalizar e tropeçar” e "a dúvida é o preço da pureza”. Acho que o erro está em pegar essas coisas (essas frases) e enrijecê-las. Acho que a boa análise sempre nos ajuda a ter cuidado, ás vezes até o cuidado de não ter tanto cuidado.

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    1. Diacríticos e crases, nem te ligo, porque, de fato, se dedilha rápido; porém, de onde sai rescende e descifra? Anatomia dos atos falhos. Isso me grila quando é gramática.

      Agora, já que tamo na madruga, vou aproveitar pra dizer um negócio: acho os textos do Humberto até legais, têm umas sacadas vez por outra, mas é coisa que na minha opinião tá mais ao nível de bate-papo informal mesmo. Até por isso me senti instigado a dizer umas coisas. Não leio isso aqui há muito tempo - coisa de 20 postagens - mas não vi nada que justificasse tanto auê. Rola uma certa carência nessa turma, né não? Esses dias uma menina se disse emocionada até com um "não-texto". Deixando a pieguice de lado, de que neguinho pode se emocionar até com comercial das Casas Bahia, tava difícil de perceber o quê que podia emocionar ali.
      Talvez eu tenha jogado um pouco de lenha na fogueira. Talvez comentário de leitor passe sempre mesmo em brancas nuvens. Mas pra mim isso aqui tá com um aroma qualquer de jogar pra torcida.


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  24. Continuo a pensar...será a crise uma etapa necessária???Razão X Emoção!!Texto muito bem escrito, filosofia é tudo.

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  25. Sempre com frases que fazem pensar. Mesmo sendo possível amar sem querer copiar, às vezes (leva crase?) torna-se inevitável não tentar copiá-lo, ao menos para fingir ser genial. Às vezes sempre, no caso...

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  26. Sempre inteligente!...Frases incríveis deste cara de sobrenome Gessinger! Muito bom. Parabéns!
    Flávio Henrique.

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  27. Money no acordeon deve ser top! HAUHAUHAUA Sempre surpreendendo-se com si mesmo e surpreendendo os outros, né Humberto? Grande mestre!

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  28. dum dum-dah-dum dum dum dum dum para todos nós! :))

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  29. http://youtu.be/6YuD-ETFHxo

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  30. (emdinheirosavai) e ae, quando vamos bóra , bulma ?!?!?!? (avenida anonimato)

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  31. (emwidnheirosavai) (pra provar que sou eu) ganhei um livro do gessinger com sopa de letrinhas hehehehehehe (face rardi(espaço)uar)

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  32. Será que é possível ouvi-lo tocar no acordeon e cantar a música "Money" no próximo show que tu fizeres em Fortaleza? Ótimo texto grande Humberto! Sou cada vez mais seu fã!

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  33. Também sou fã do Pink Floyd,e seu é claro.
    Engraçado que ontem mesmo fui pegar o. Violão,3 do plural saiu legal... Mas parabólica eu nem tentei.fiquei com receio.

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