Fleuma - 154

Em meio a tantas e tão heróicas imagens da Copa, foi uma insignificante que conquistou o disputado espaço da minha atenção. Aconteceu no jogo Japão x Costa do Marfim e foi assim:

Quando o juiz apitou sinalizando o fim do primeiro tempo, a bola estava com um jogador africano que simplesmente deixou-a de lado e caminhou em direção ao vestiário. Pasmém! Sem um último toque na bola! Nem um bico de desabafo para longe, nem um toque politicamente correto para as mãos do árbrito, nem uma firula pra torcida! Simplesmente deixou-a de lado! 

Quem não está entendendo meu espanto certamente nunca jogou futebol na rua. Nestas situações, quando a mãe grita "Chega, menino! Já pra dentro tomar banho e jantar!" é impensável sair sem um último chute desaforado, sem uma derradeira tentativa de gol ou drible.

Assim como - dizem - os esquimós tem várias palavras para designar a cor branca (pudera, vivem cercados de neve!), nós, nerds futebolísticos, sabemos diferenciar vários tipos de chute: o cara pode chutar com raiva, carinho, nojo, desdém... só não pode deixar de dar um último toque na bola depois que o juiz apita o fim do jogo! Ou depois que a mãe decreta o fim da brincadeira.

Como uma coisa - a bola - tão ardentemente cobiçada um instante atrás pode ser tão prontamente abandonada?

Ok, talvez eu esteja sendo radical. Podemos considerar o gesto (ou melhor: a falta do gesto) uma louvável prova de autocontrole e profissionalismo. Assim como políticos de ideologias opostas que se engalfinham atrás de voto são capazes de fazer uma aliança no dia seguinte às eleições ou às vésperas da próxima. Ok, ok, pode ser uma louvável prova de pragmatismo e autocontrole.

Profissionalismo? Eu preferiria mais amadorismo nos dois casos. Autocontrole? Não é muito minha praia. Eu não consigo ficar sem estourar as bolhas de ar no plástico de proteção das embalagens. E tenho que sair de perto do balcão quando vejo, na portaria do hotel, uma daquelas sinetas de metal. Ah, que vontade incontrolável de bater nela! Piiiiiiiiiinnnngg...

(*)

Esse papo me lembrou a seguinte história, que ouvi do produtor Paul Ralphes: o guitarrista de uma banda (não lembro se era a banda inglesa da qual Paul fazia parte nos anos 80) chega ao estúdio com sua nova guitarra: uma Gibson semi-acústica rara e maravilhosa, comprada de um colecionador. 

Todo mundo fica babando pela guitarra e pedindo para tocar (nos dois sentidos: passar a mão e fazer soar algumas notas). Nisso, passa pelo corredor o Eric Clapton - por acaso, ídolo do novo dono da velha Gibson. Clapton entra na sala timidamente, atraído pelo instrumento, e pede pra dar uma olhada. Todo mundo acha o máximo. Caramba, Clapton! O cara! Ele vai tocar na guitarra! Yeah!

Clapton pega a guitarra, examina a madeira, olha o sêlo através do f-hole, os captadores,  as cravelhas, o braço... e todos na expectativa, que só aumenta: o que será que Clapton iria tocar? Se ele fizesse o riff de Layla -uau!-  abençoaria a guitarra!

(Na minha adolescência ninguém pegava uma guitarra sem se exibir com o riff de Smoke On The Water ou a intro de Stairway to Heaven.)

Pois depois de examinar a guitarra, delicadamente ele a devolve dizendo "Nice", dá as costas e sai. Sem tocar uma nota.
17jun2014

55 comentários:

  1. pontualidade padrão fifa

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  2. Deve ser porque ele apenas apreciou a beleza do instrumento, mas ante uma possibilidade de se decepcionar com o som, preferiu guardar na memória. O mesmo fez o jogador, largou de lado pra não fazer algo que decepcionasse sua torcida, sei la, devaneio meu, rss. Abs Gessinger!

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    1. Nossa. Eu acho q sua linha de pensamento foi incrível. Eu não tinha pensado assim, agora acho q foi exatamente isso. :)

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    2. Simplesmente sensacional a sua maneira de pensar.

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  3. Com certeza.... Humberto, ja tem previsão para o lançamento do DVD? Achei que participando da gravação ficaria menos ancioso... ledo engano.

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  4. Sobre o auto-controle: Melhor não tê-lo.

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  5. Talvez a bola de lado, parada diante o apito que a congela revele as mudanças futebolísticas. Talvez - e só talvez - o prazer pelo futebol, o brilhantismo do amador - fazer por amor em latim - tenha se perdido no oceano colorido das chuteiras tão caras ao padrão dos salários. Um jogador da seleção de Camarões declarou: "Eu detesto futebol. Jogo apenas para ganhar dinheiro".Quem sabe alguns torcedores também não se declarem: "Eu detesto torcer, apenas o faço para esquecer por um segundo o medíocre do mundo". Pois talvez e mais uma vez só talvez, o áureo da mãe que grita que o jogo chegou ao fim seja o retrato da criança, do passado, o qual, infelizmente, confundido com o que se deve ser esquecido tenha virado apenas lembrança.

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    1. Aos 33 Jesus na cruz e eu... O que faço com esses números?

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  7. Nirvana!!! Poucos entendem. Sentir com inteligência é isso.

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  8. Clapton tem um (bom)aluno gaúcho.

    Abraço, querido ídolo!

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  9. Haha estamos no mesmo barco então ...autocontrole?Faço o possível.Ainda serei como minha psicologa,fica com aquela cara de paisagem o tempo todo,sem saber o q realmente está pensando.E olha q no mesmo dia já ouviu vários desabafos,talvez melhores ou piores do q os meus...Chegaremos lá...mas com relação às bolhas de ar das embalagens não garanto...relaxa demais.... bjos 1berto

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  10. Essa foto foi no Ceará. Se não me falha a memória, Parque do Cocó em 2008.

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  11. 17 meu aniversário
    Presente :seu texto
    Obrigada HG

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  12. E que seja bem vindo o amadorismo, o incontrolável, que seja bem vinda a emoção, que a vida seja sentida! Sejamos aqueles que estouram as bolhas, que tocam os sinos. Pois foi assim que você mestre, segue encantando e emocionando multidões por onde passa! Boa noite 1berto!

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  13. Como psicanalista, penso no quão sentindo tem essa atitude, tanto do Clapton quanto do jogador. É tão transcendental ver alguém postergar o desejo e dar o rumo certo as pulsões, incrível, mas é o ponto de chegada, ou seria alguma espécie de ponto de partida? Vamos chegar lá e compartilhamos as experiências. hahaha

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  14. Até deu pra imaginar o Clapton a postos para tocar Layla, uma das minhas preferidas da vida, e... indo embora. Só deixando na vontade.

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  15. Admiro muito as sutilezas que te atraem e, principalmente como elas ganham pulsação nas suas palavras. Adorei o texto e nem sou nerd de futebol ;-p Autocontrole...hahaha nah! Tb preciso me afastar da campainha entre outras deliciosas tentações para minha criançada interior (sim, são muitas).
    Boa semana.

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    1. Te com suas...tb tenho esse probleminha. Deve ser mal de gaúcho rs.

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  16. ... Alguns "artistas" possuem um certo "quê" de sensibilidade ou talvez despretensao que parece soar a arrogância... não o H.G... o artista mais normal que conheço. .. por isso sou muito fã. .. vlw, Humba...

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  17. Belo texto! Em meio a tantas informações tão interessantes a que mais despertou atenção foi sobre a campainha rsss porque será ? rsss

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  18. Eu e meu poeta manoel de barros fariamos um ulimo gol imaginario...

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  19. Ótimo textos, ás vezes sentimos essa sensação de frieza de ânimo, impassibilidade, em alguns momentos de tensão, poderia citar vários exemplos, um deles, foi quando tive a oportunidade de estar tão perto de vc, mas não consegui falar nenhum dos tantos assuntos que gostaria de puxar com vc... Pode ser a sensação de uma copa do mundo!
    Eu realmente, não assisti esse jogo e não vi o lance!
    Esperava pelo texto! Beijos.

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  20. uma vez em 1997 no clube farrapos pedi para ver um baixo epiphone semi acustico,nome se nao me engano "rivolli" algo assim, o dono do instrumento alem de me dar o baixo nas minhas maos tirou a foto minha com o instrumento para mim. com isso eu disse: Obrigado HG!Muito bom seu baixo.

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  21. Prefiro quando você conta histórias, mas suas divagações sobre tudo e sobre nada também são bem vindas.

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  22. Ante na infância criavamos aquele. clima de expectativa. Hoje e tudo tao corrido que, algumas pessoas perderam olhar para apreciar aquilo que é mais simples. Ainda bem que o Humberto Gessinger não perdeu este olhar. E nos presenteia com suas belas pinturas. Obrigada. bjs

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  23. Paixões movem os amadores e a paixão contida move os profissionais. Sou mais fã das pessoas que demonstram sensações =)

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  24. Clapton não tocou pois poderia se decepcionar com o som ou com a afinação quem sabe? quanto a bola, sempre dei um chute a gol antes de para de jogar! bela lembrança ocorreu agora dos tempos de criança. Outra: O Show em Bagé foi tão bom quanto um outro Show em Bagé quando tu tinhas um cabelo "pasmem os mais novos" bem curto! Tava bom demais! abraço,

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  25. Huahauhauha HG eu te amo muito cara, mas depois de tantos anos trabalhando em hotel se vc chegasse no balcão do check in e ficasse batendo no "Ping Ping", juro que eu ia te olhar feio!!! Um beijo!!!

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    1. Em tempo: Clapton é meu guitarrista predileto junto a um guitarrista brasileiro que também tem o Clapton como seu guitarrista predileto. Um grande cara que você conheceu bem. Abraço!

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  27. Robert Smith (The Cure) escolhe seus instrumentos somente pela aparência. Também não testa/tira nenhum som quando os compra. =) Saudações. Emerson Gimenes.

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  28. Poucos sabem, mas a FIFA proíbe os atletas de qualquer contato com a bola após a deliberação da arbitragem dando conta do fim do tempo regulamentar... As punições vão de banimento perpétuo até multa proporcional ao PIB do país infrator...
    (Franco)

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  29. não há jornada maior do que a tracejada pelas estrelas...
    não há rigor de maior aprendizado do que o binômio tocar/brincar p/ c/
    um céu estrelado

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  30. Há um tempo em que é preciso
    abandonar as roupas usadas
    Que já tem a forma do nosso corpo
    E esquecer os nossos caminhos que
    nos levam sempre aos mesmos lugares
    É o tempo da travessia
    E se não ousarmos fazê-la
    Teremos ficado para sempre
    À margem de nós mesmos”
    Fernando Pessoa

    Se liga HG!

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  31. VI ESSE LANÇE E ME VEIO EXATAMENTE ISSO NA À MENTE, COMO PODE? HG CADA VEZ MAIS MESTRE RSRSSR

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  32. Pra que Autocontrole Humberto??? Controle é coisa de controlado!
    Grande abraço!

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  33. Fleuma em plena flâmula estendida... verde e amarelo não me inflamam mais.

    (pelo menos enquanto a bola rola).

    E... apatia não é a palavra, tampouco autocontrole.
    Há coisas mais simples e profundas que ainda (e a cada dia mais) me emocionam.

    Mas, quando escuto a gritaria atrás do muro, percebo o quanto cada um investe diferentes afetos e os expressam diversamente.

    E, cá pra nós, Humberto, os capricornianos entendem muito bem de guardar uma multidão dentro de si.

    Abraços especiais e ansiosos. Sábado nos vemos em Castelo! :)

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  34. Tantas histórias fantásticas nesses anos de carreira, penso que seu livro de memórias não seria nada tedioso! :)

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    1. Já falei isso prá ele. Próximo livro ser de histórias da banda e dele, com ilustrações. =)

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  35. Humberto vc vem quando a Bahia? Eu e minha esposa aguardamos muito isso sem qualquer auto-controle

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  36. Humberto vc vem quando a Bahia? Eu e minha esposa aguardamos muito isso sem qualquer auto-controle

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  37. Humberto vc vem quando a Bahia? Eu e minha esposa aguardamos muito isso sem qualquer auto-controle

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  38. Nem tudo é como pensamos que é. Outro dia ouvi algo assim: "não tente me decifrar,eu posso não ser o que é, e ser aquilo que não é", algo assim a vida é mesmo um grande PARADOXO.

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  39. Achei que vc nem estava vendo a copa.

    Até sábado em Castelo-ES!!

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  40. São só detalhes... mas representam tanto! São estes que me surpreendem e por muitas vezes não digo nada, e quando digo, me sinto só.

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  41. Eu só fico puto que no seu show Aqui em Vitória no próximo dia 20 estarei de escala e não poderei ir, malditos numeros/datas!

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  42. Talvez eles tenham perdido aquele encanto de quando criança, afinal, que criança aguenta ver uma bola perto de um gol e resiste em não chutá-la? que criança consegue estar perto de qualquer instrumento sem sequer fazer um barulho?

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  43. Humberto você vai estar aqui em Curitiba dia 28/06 mesmo? Confirma pra nós :D

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  44. Show estou a cada dia admirando o seu trabalho ainda mais. Brilhante compositor, músico espetacular e escritor de mão cheia. Gessinger é incomparável!!!

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