Vozes - 104

Algo me diz que eu deveria me manifestar racionalmente, sem emoção, sobre os acontecimentos palpitantes de nossos dias. Ser razoável, equilibrado, profundo, elogiar esperanças, condenar excessos.

Algo me diz que eu deveria me manifestar só com emoção, palpitar (no sentido de um coração que palpita) e palpitar (no sentido de dar palpites superficiais sem compromisso) pois não há neutralidade, sempre se está de um lado ou de outro e equilíbrio não há. 

Algo me diz que não faltam opiniões por aí e que eu deveria ficar quieto... ou voltar ao início do texto.

Se não fiquei (se não ficamos) preso(s) eternamente no loop dos três primeiros parágrafos e chegamos  a este quarto, algo me diz "melhor assim". Há que andar mesmo que a cerração nuble a manhã deste dia de inverno e nos impeça de saber exatamente aonde nos levam passos claudicantes ou firmes.

Algo me diz que já escrevi muito a respeito e o fato de não serem novas as canções até empresta-lhes significados.  O tempo, é certo, acrescentou uma melancolia que prefiro não expressar. Não sem ter nas mãos ao menos... ahn... um baixo... mesmo que desafinado.

Algo me diz que faltou um cartaz dizendo "o caos me representa".

Algo me diz que o cantor do jingle pisou no freio numa sílaba para que "sai de caRRO, vem pra rua" soasse "sai de caSA, vem pra rua" tentando evitar o escárnio. Afinal, tudo começou pela oportuna reinvindicação de mais dignidade no transporte público.

Algo me diz que o país rejuvenesceu e amadureceu dez anos ou mais na última semana.

Algo me diz que continuamos os mesmos, nada mudou, a chance passou com a semana (Ops, loop de novo? Voltar dois parágrafos e ficar preso nestes três? Nah... avançar!).

Algo me diz que partes deste texto serão tiradas de contexto e usadas por quem pensa assim ou por quem pensa assado. Pior: descontextualizados, trechos serão usados por quem pensa assim E por quem pensa assado - algo me diz.

Algo me diz que ninguém lerá ou levará em conta.

Algo me diz que alguns comentários começarão com "algo me diz".

Pronto. As vozes se foram. Ninguém nada me diz. Silêncio bom para descobrir que vozes ouvir.
25jun2013


Soundcheck - 103

Soundcheck é o teste do som, feito antes do acesso do público ao local do show. Oportunidade de músicos e técnicos checarem equipamento e palco. Por influência de nossos hermanos do Prata, há quem chame - no sul - de "prova de som". 

Eu e minha geração falamos "passagem de som" (o que me traz à mente a imagem nada a ver de um som passando (Efeito Doppler é o seguinte: quando um som é emitido por uma fonte em movimento em relação ao receptor, este ouve uma mudança de tom: mais agudo ao se aproximar, mais grave ao afastar-se (é a deformação de som que a gente percebe quando passa uma ambulância (a comprovação científica foi obtida numa experiência, em 1845, em que uma locomotiva puxava um vagão com vários trompetistas (wikipedia))))).  

Há um dito corrente entre músicos afirmando jocosamente que "quando o equipamento é bom, não precisa passar som; quando é ruim, não adianta".  


(*)

"Não precisa" e "não adianta" formam as margens de um abismo onde muita coisa cai e se perde. Há momentos em que a própria palavra mergulha nesse buraco negro. 

Quando pintam assuntos palpitantes (as manifestações de rua, por exemplo) rolam papos (nas redes sociais sobretudo, mas não por culpa delas) em que as opiniões ficam cada vez mais simplificadas, esquemáticas e rasteiras. Junta-se num canto do ringue quem pensa assim e no outro, quem pensa assado. No meio, um imenso vazio onde a palavra perde o que tem de mais legal, a possibilidade de criar pontes. 

Fica a impressão de que entre "torcedores" da mesma ideia, a palavra é desnecessária e entre "torcedores" de ideias diferente, ela é inútil. E vai pro saco a chance de sacar e comentar sutilezas (nada sutis) que resumem num ponto com alta densidade de significados o que parece se diluir no quadro geral. Oportunidade perdida, uma pena...

( A mega-empresa de material esportivo que patrocina o torneio que a FIFA está fazendo no Brasil coloca no ar, no intervalo dos jogos, uma propaganda que - seguindo a cartilha de marketing das grandes corporações que querem falar à juventude - usa alguns clichês de malandragem de rua. No fim do anúncio, um coquetel Molotov é arremessado numa pilha de aparelhos de TV. Se entendi o roteiro da propaganda, trata-se de um pesadelo de um dos jogadores patrocinados pela marca. Que ironia... ).
abraços
18jun2013

p.s: E segue a tour HG2013. Sexta e sábado estarei no Paraná: Campo Mourão e Curitiba. À  capital, volto depois de 1987, 88, 89, 90, 91, 94, 95, 96, 98, 99, 2001, 02, 05, 06, 08, 09, 10, 11 e 2012. Quem foi? Quem vai? Abaixo fotos de algumas destas passagens.

1989ago soundcheck
1995mai soundcheck
1995dez
1999nov
2002mai
2005dez
2006set
2008mai soundcheck 
2009set
2010mai
2012jul

Ops... Hoje não vai rolar texto. Volto semana que vem, quando a segunda 16 virar terça 17. Até lá, um abraço.

Ah, e neste sábado volto a Bauru-SP depois de 1989, 1992, 1996, 1997, 2001, 2003, 2005 e 2006. Quem foi? Quem vai? Abaixo algumas fotos destes shows.

out 1992
mai 1996
fev 2001
abr 2001
jul 2003
ago 2006

Escuridão Antes de Amanhecer - 102

E aí, como vocês têm passado? Aqui em POA, chegou o frio de 2013 e a semana foi corrida. Cruzei duas vezes o país para shows espetaculares em Fortaleza e Recife. Entre os dois, dei duas clicadas importantes no send:  mandei o livro novo para o editor e o INSULAR para masterizar.

Agora, segue a busca da capa certa para ambos. E a constatação de que mudou muito nossa sensibilidade gráfica com a profusão de imagens que nos chegam e a facilidade de edição do mundo digital – mudou muito o papel (ops, literalmente!) de uma capa de disco. Se esta constatação afetará o resultado do que estamos fazendo? Não sei… A vida real não é tão linear quanto as teses.

É um momento estranho este em que livro e disco já estão prontos mas ainda não ganharam vida - algo  que só acontece quando alguém lê/ouve. Confesso que pinta uma certa (não diria aprensão, mas) curiosidade a respeito de como chegarão às pessoas, como serão recebidos. 

Sentimentos deste tipo nunca rolam quando estou escrevendo, gravando. Ao contrário do pensamento corrente, sempre achei um sinal de respeito do artista em relação ao seu público não pensar nele quando cria. Não quero que meus artistas preferidos tentem me paparicar. Não quero que políticos façam pesquisa para saber o que os eleitores querem ouvir. Quero que ambos sigam seus instintos e corram o risco de não encontrar ninguém na plateia do teatro ou nenhum voto na urna.

Agradar é sempre algo ótimo e bem vindo, mas não acho que deva ser a finalidade última. Deve ser consequência de algo difícil de explicar mas fácil de sentir.

Noto que a ansiedade (pronto, usei a palavra) é bem menor com o INSULAR e com o livro novo. Nas muitas milhas percorridas, já senti na pele que não adianta e não precisa forçar a barra. Livros e discos acabam encontrando seus leitores, ouvintes. Se não muitos, ao menos os certos.

É o que tenho feito desde longe demais das capitais: clicar send. Mesmo antes de existir um cursor e essa opção na tela. Por sorte, sempre encontrando generosos ouvidos e olhos - corações e mentes. Aos quais agradeço tentando não pensar neles para que a magia não se quebre.
Por hoje é só. Tomem cuidado! Mas arrisquem-se! Mas tomem cuidado mas arrisquem-se mas tomem cuidado mas arrisquem-se… até terça que vem.
bah 1: Ao som da tardia parceria entre Pete Townshend e David Gilmour: always knew it was crazy / to put my love on the air / but I only communicate / when I put my love on the air

bah 2 : DE FÉ em Fortaleza: http://www.youtube.com/watch?v=lGBT0m3Kfmo&feature=youtu.be
O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ em Fortaleza: http://www.youtube.com/watch?v=HLOEq_eBIMo
03jun2013