Primeiras vezes - 101

Ao periodo de gravação de um disco, sucede um tempo de desaceleração. Os dias ficam maiores, voltam a seu tamanho normal. As atividades, apesar de ainda criativas, ficam mais mornas: detalhes do projeto grafico, alguma pequena mudança na ordem das músicas...

... e começam os pensamentos sobre como mostrar o disco ao mundo. Aí recomeça a agitação, pintam as ideias sobre como transpor as musicas para o show. Quais tocar, como tocá-las. 

A maneira mais simples é reproduzir os arranjos de forma literal, nota por nota, com a mesma instrumentalização. Também há a possibilidade de fazer o oposto, recriar o disco a cada show. Entre as duas, se situa o caminho que pretendo seguir. Não será novidade para mim, é o que sempre fiz. Mas será mais interessante agora que gravei todos os instrumentos - com exceção da bateria e das participações dos convidados.

Estou falando da sutil e subjetiva arte de condensar informação sonora. Como o voo de uma pomba desenhado por um simples traço de grafite (não errei a concordância (não desta vez): o desenho é do voo e não da pomba - mais difícil e inevitável que seja assim).

Estou falando, ainda, da magia de fazer soar notas que não são tocadas. Apresentar os elementos fundamentais e, principalmente, sugerir os outros. Perdão, uso mal a palavra "principal". Não existe "principal" e "secundário" no ofício/arte do mágico que nos surpreende cada vez que tira um coelho da cartola.

Quero manter o formato power trio na estrada. Em muitas canções gravei muito mais do que 3 instrumentos. O grande barato é fazer essas duas linhas se encontrarem criando - com o público - um terceiro ponto. Esta magia é que tem feito tudo mais valer a pena nestes 28 anos.

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Nos shows, por enquanto, tenho tocado só duas musicas do INSULAR  (Tudo Está Parado e Tchau Radar). Pelo singelo fato de já terem sido gravadas e lançadas pelos parceiros.

Preservo o resto do material por querer dar aos ouvintes, especialmente aos fãs, o prazer da " primeira ouvida". Sei que não é facil nos tempos pós-www, mas para mim a primeira audição de um  disco sempre foi um momento especial. O inicio de um diálogo que começa com muitas perguntas (por que isso, por que aquilo, como assim, como assado) e vai se transformando em adjetivos. Sensação fugidia que tento manter.

Vou morrer sem conseguir expressar o que senti ao ouvir pela primeira vez o Wish You Were Here, sem saber nada a respeito dele além das poucas informações do encarte, que mais escondiam do que revelavam... com ouvidos em estado de atenção total e olhos escaneando cada centímetro quadrado da capa. Como são frágeis e valiosas as primeiras vezes!

Adoraria poder ouvir meus próprios discos assim, pela primeira vez, sem ter escrito, arranjado, gravado e mixado as músicas... infelizmente não é possível. Quando a gente grava, fica como o churrasqueiro que vai tirando lascas e, pronta a carne, já não tem fome. Demora um pouco pra ela voltar. Por isso, sempre fico com a contraditória impressão de que todo mundo ouviu o disco antes de mim.

Mas graças a Deus, há vários artistas que me dão este prazer. Agradeço os churrascos sonoros e literários que eles preparam. De lamber os bigodes!

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E segue o baile. Esta semana a parada é no Teatro da UFPE, em Recife. De volta à capital pernambucana depois de 1988, 89, 90, 91, 92, 93, 97, 2000, 01, 02, 03, 04, 05, 06, 10, 11 e 2012. Quem foi? Quem vai? Abaixo fotos de alguns destes shows.

Nas primeiras idas a Recife, no fim dos 80, me chamava atenção a qualidade da livraria do antigo aeroporto. Muito acima da média!

Livrarias de aeroporto, pelo espaço exíguo, geralmente se limitam a best-sellers. E, no caso, o público alvo imagino que seja pessoas em férias (que não querem esquentar a cabeça com palavras de muitas sílabas) e executivos (a fim de descobrir os últimos truques para se dar bem). Mas a livraria do velho aeroporto de Recife era muito variada e interessante.

( Assim como eram variados e interessantes os doces no antigo aeroporto de Curitiba. Se bem que ainda rolam doces incríveis lá, eu acho. Quando perguntaram ao técnico Rubens Minelli quanto tempo ele havia passado treinando na cidade, ele respondeu: 8 kilos. )

Paralelos entre as culturas pernambucana e gaúcha são frequentes. Eu entendo as semelhanças. Ainda que Pernambuco tenha sabido, ao longo dos anos, muito melhor do que o Rio Grande do Sul, tratar do seu folclore, da cultura regional. Não é a toa que pinta pelo caminho um Chico Science...


Ops, prometi fotos de shows em Recife e... viajei pelos aeroportos... agora vai:

1993
1997
2000

2001

2002
2002
2004
2010


abraços
28mai2013

Silenciosas Estátuas na Avenida Anonimato - 100

Tenho certa intimidade com elas, uma vida em comum. Acho que não ficarão melindradas se eu fizer uma confidência. Estou falando das palavras e do fato, cada vez mais frequente, de serem insuficientes para expressar algumas - ahn... qual seria a palavra? - coisas, sentimentos.

Fiquem tranquilas, minhas amigas palavras, esta deficiência não as fere de morte. Pelo contrário: a tentativa vã do ser humano de juntá-las (em prosa, poesia, canções, discursos, relatórios, etc...) para explicar o inexplicável, tentando exprimir sentimentos que não entendemos, tem gerado obras de beleza - ahn.. qual seria a palavra? - inexplicável.

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Penso nisso agora que, terminada a gravação do INSULAR, tenho dedicado mais tempo ao livro novo...

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Datas cívicas e personalidades políticas se repetem no nome de grandes avenidas em várias cidades (7 de setembro, Getúlio Vargas, Castelo Branco...). O que realmente interessa não ganha estátua, não vira nome de rua. Avenida Paz de Espírito, existe? Nem tudo tem que estar na cara, decifrado, né? Há muita vida além dos outdoors. Palavras e monumentos não dão conta de tudo.

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Bah, chegamos ao centésimo post! Alguém aí acompanhou todos? Valeu! Um abraço a quem tá chegando agora e vibrações positivas para quem já esteve por aqui. Segue o baile.

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E, se o baile segue, esta semana toco em Fortaleza. Um amigo pediu um histórico do datagagê  das vezes que toquei na capital do Ceará. Aí vai: 1987, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 99, 2000, 01, 02,  03, 04, 05, 06, 07, 08, 10, 2012. Infelizmente, não tenho fotos de todos os shows. Mas tenho a lembrança de terem sido alguns dos pontos altos de cada tour! Quem foi? Quem vai?

1999
2001
2002
2002
2003
2006
2006
2007
2008
2010
2012
2012 - Bienal do Livro

21mai2013

Quando a Distância não Separabólica - 99


Perda de tempo andar em linha reta. São abstrações; não existem na natureza linhas retas, círculos perfeitos e triângulos equiláteros. Tudo é aproximado, negociação entre querer e poder.

É no zigue-zague da agulha fazendo a linha unir dois panos que se caminha. Até que um dia soe perfeitamente natural quando alguém disser que a distância aproxima.

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Semana passada, num posto de beira de estrada, nas andanças entre shows, depois de muito tempo, voltei a comprar um disco do Gaúcho da Fronteira. Já na primeira faixa fui transportado ao Rio de Janeiro em 1991, a um apartamento na lagoa, ao estranhamento que causavam bombachas numa banda de BRock naquele início de década.

Em meio às curvas e corcoveadas do ônibus pelo pampa, observei o encarte do disco. 9 fotos. em cada uma delas, um sorriso aberto. Provavelmente mais do que sorri em toda minha vida.

Foi a distância que me aproximou desta vertente mais popular da música tradicionalista (Teixeirinha, Gildo de Freitas, Gaúcho da Fronteira). Se eu não estivesse morando no Rio, talvez até regravasse alguma canção gaudéria, mas provavelmente seria algo mais reflexivo e intimista, mais parecido comigo. Fico feliz que a distância tenha trazido perspectiva ao meu olhar. A mistura de ambientes me ensinou muito.

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Sempre me interessei pelo contrabaixo, sua história, seus ícones, a técnica… Esforcei-me para honrar suas, por vezes, contraditórias tradições. Adaptei-o a minhas necessidades, limitações e desejos.

Fiquei 4 anos sem tocá-lo, na estrada com o Pouca Vogal. Passeava pelas frequências graves com a PK5, um teclado que, tocado com os pés, fazia a função do baixo.

Agora, voltei ao baixo num power trio e me surpreendi: sem falsa modéstia, estou tocando melhor do que antes. Apesar do hiato. A limitação das 12 notas da PK5 (só uma oitava... ainda por cima, tocada com os pés enquanto as mãos e a boca se ocupavam de outros sons) me ensinou muito sobre o instrumento e sua função. Mais uma vez, a distância aproximou.

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Às vezes a gente se sente, pra citar aquela ópera, como uma pluma ao vento. Depois de alguns voos divertidos, a subordinação aos caprichos das correntes de ar pode ser um saco! Quando o vento parece estar nos levando na direção contrária aos nossos desejos, é bom lembrar que a distância pode aproximar.
14mai2013

Vâmo! Vâmo! (pr'aonde?) - 98


A cena é recorrente em filmes de guerra: o soldado ferido fica para trás, não consegue acompanhar o pelotão. O comandante vai até ele e, para animá-lo, faz um sermão motivacional que mais parece um esporro do tipo “você é um homem ou um rato?". Coitado do cara, tá todo estropiado e ainda tem que aguentar a mala do chefe!

Há adaptações da cena para vários tipos de filme. Sobre esporte, por exemplo. Basta substituir general e soldado por técnico e atleta. Num filme sobre a busca do estrelato, é só colocar produtor e músico, diretor e ator, etc...

Situações limites da vida real levadas ao limite pela ficção. Cores berrantes demais. Um desequilíbrio na gangorra impressionismo/expressionismo.

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A adrenalina, que corre nas veias para deixar o animal mais esperto num momento de perigo, pode não ser uma boa conselheira a longo prazo.

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Dizem que o lateral direito de um grande time se emocionou tanto na palestra antes do jogo (papo emotivo envolvendo carta dos filhos e fotos da mãe pedindo vitória, com trilha sonora melosa no início e Eye Of The Tiger no fim) que entrou chorando em campo e cometeu um pênalti aos 8 minutos de uma semifinal de Brasileirão.

Com frequência, me sugerem que faça uma canção enaltecendo o clube de futebol para o qual torço. Eu até poderia enfileirar alguns lugares-comuns, fanfarronices do tipo “passar por cima”, numa melodia épica. Mas, pra ser sincero (e minha única chance de escrever boas canções é sendo sincero – não falo isso com orgulho, imagino que seja uma limitação) a canção que eu poderia escrever teria uma andamento lento e diria “estou roendo as unhas no concreto frio da arquibancada, viajando, viajando".

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Fico meio cabreiro com discursos motivacionais. Efeito contrário, eles me deprimem. Assim como canções melancólicas podem animar, fazendo companhia. Às vezes é tudo que se pode: estar disponível, ficar ao lado, ouvir. A não ser que alguém ache mesmo que tem resposta para todos os enigmas do universo, de ataques alienígenas ao achaque do flanelinha da esquina.

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O general (o técnico, o produtor, o diretor) pode preferir esbravejar ou insinuar. O soldado (o jogador, o músico, o ator) pode reagir melhor a gritos ou sussurros. De certo mesmo, só o seguinte: a solução, para todos, está dentro de cada um. Se não estiver ali, não está em lugar nenhum.

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bah: Este foi um texto sobre política.
07mai2013