O que trazes pra mim? - 92



Em 1938, Orson Welles transformou A GUERRA DOS MUNDOS, de HG Wells, numa peça radiofônica. Transmitida como se fosse o relato jornalístico de uma invasão de extraterrestres, a peça gerou uma onda de pânico nos ouvintes que, em diversos pontos dos EUA, ignoravam tratar-se de ficção.

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Numa páscoa da minha infância, uma rádio resolveu cobrir a Paixão de Cristo como se fosse um acontecimento contemporâneo. O mesmo locutor que lia as notícias do mundo real interrompia a programação normal da rádio a cada hora (com a tensa vinheta que antecede notícias urgentes) e relatava, passo a passo, a prisão, a escolha entre Jesus e Barrabás, a Via-Crucis, a crucifixação, a lança perfurando o flanco, o céu desabando…

Estaria mentindo se dissesse que a criança que eu era, tal qual os ouvintes incautos do Orson Welles, acreditou que aquilo estivesse acontecendo em tempo real. Mas, por outro lado: qual tempo não é real?  Eu estaria igualmente mentindo se dissesse que não fiquei profundamente impressionado.

Além do lance dramático, cultural e religioso, acho que esta época do ano induz a um estado meditativo quase melancólico. Quem conhece o outono porto-alegrense sabe a que me refiro.

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Tive uma sólida formação católica. Meu pai estudou em seminário e foi um católico praticante por toda vida. Minha mãe dava aula de catequese na paróquia que frequentávamos. A quantas anda minha religiosidade? Difícil dizer… Parece haver uma permanente negociação entre o lado racional e o místico; fé cega e pé atrás - uma outra guerra entre mundos - o que me deixa na desconfortável situação de ser considerado "crente carola" por quem é ateu e "ateu materialista" por quem crê. 

Mas minhas crenças e meu ceticismo não são, não pretendo que sejam, o assunto deste texto. Seu objetivo, na real, é bem prosaico: desejar a todos uma feliz páscoa. Àqueles que levam religião a sério e àqueles para os quais só se trata de um feriadão.

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Ovo, o novo, renovação, ressurreição, pessach, passagem, libertação.

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De minha parte, vou fazer o que tenho feito nas páscoas desde que consegui gravações integrais e muito boas da Paixão Segundo Mateus e Segundo João, de Bach. Ouço cada uma delas num fim de tarde do feriado comendo um ovo de chocolate. Ah, música e chocolate... Feitos pelo homem; podem ser prova da existência de Deus?
 26mar2013

O nó e o dó - 91



Um caso de admiração entre músicos na Viena da virada do século passado: Schönberg dizia que, observando Mahler fazer o nó da gravata, havia aprendido mais do que em 3 anos de conservatório. 

O leitor mais pragmático deve estar pensando "que baba-ovismo imbecil". Entendo o leitor. Mas devo confessar que entendo Schönberg muito mais. Eu mesmo já tive insights vendo artistas magistrais em atos prosaicos: guardando o instrumento no estojo, contando compassos com o pé no chão do palco... Já aprendi muito vendo como um produtor apagava anotações com a borracha e, depois, assoprava a folha. Não vale só para músicos talentosos: entendi muita coisa vendo Dunga caminhar para a bola,  bater o pênalti e vibrar com o punho cerrado na final que nos deu a copa de 94 - depois de ter sido estigmatizado na de 90.

Ok, talvez estes momentos de revelação não correspondam a 3 anos de conservatório. Mas, afinal, não estamos falando da matemática dos calendários, né?

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Se quiser (se puder) a gente aprende com os menores gestos das pessoas agraciadas com algum dom  (e todo mundo tem algum). Quando alguém está de corpo e alma, até os ossos, mergulhado em sua magia, o fundamental e o insignificante são inseparáveis, o geral e o particular se fundem.

O que faremos com o que aprendemos em cada esquina da vida (e com o que aprendemos formalmente, nos conservatórios) é problema nosso. E talvez seja a nossa solução.

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No mesmo livro em que li a frase de Schönberg, há uma citação do poeta francês Paul Valery: "o mais profundo é a pele", que me lembrou a pergunta do poeta estadunidense Walt Whitman: "o que pode ser maior ou menor do que um primeiro toque?". 

A vida fica muito maior quando estamos atentos e abertos ao aprendizado nos pequenos detalhes, quando nos livramos da prepotência das verdades absolutas. Às vezes a escolha é muito simples (quase óbvia no início do outono porto-alegrense): a flexibilidade das folhas ao vento ou a rigidez cadavérica das grandes certezas.

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Para algumas religiões, nossa passagem por aqui (primavera-verão-outono-inverno) tem como finalidade o aprendizado. Se não me engano, uma delas diz que a passagem não é uma só, que voltaremos até aprender. É, há que ter paciência! Acho que aprendi: ando sem paciência pra gente sem paciência. Ops...



19mar2013

INSULAR - 90


Peço licença ao leitor, à leitora, que não tem interesse por minha música para retomar o diário das gravações do disco. Na próxima semana volto a escrever sobre... sobre... as coisas que costumo escrever. Quem está chegando agora pode voltar no tempo das postagens se quiser acompanhar a saga do disco desde o início.

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Apesar de estar gravando músicas recentes, sinto como se esse projeto fosse um velho companheiro. Parece que esteve, desde sempre, no horizonte, esperando que eu construísse a ponte para chegar lá (não é à toa que a palavra “ponte” costura várias letras).

Se eu disser que estou colocando em prática tudo que aprendi (todo o conhecimento e intuição acumulados sobre o que uma canção/disco pode/deve/precisa ser) estarei sendo muito pomposo. Mas estarei sendo sincero. De certa forma é o que sempre fazemos, né: agir baseado no que já vivemos. Neste disco isso acontece num nível mais profundo e misterioso. Estou curioso para descobrir se, depois de lançado, esta sensação será compartilhada pelos ouvintes.

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Ninguém precisa me avisar que o formato álbum, disco, caminha célere rumo à irrelevância. Mas é isso que sei fazer e é isso que continuarei fazendo: tentar acrescentar sentidos ao que muita gente pensa que deva ser só um conjunto de canções.

Por isso e para isso são frequentes as idas e vindas do geral ao particular, zoom in e zoom out. Pensar na canção como algo independente, autosustentável, é claro; mas também pensar nela como parte de algo maior. Eu sei (ninguém precisa me avisar...) que serão raras as audições do disco inteiro (afinal, quem tem 45 minutos contínuos nestes tempos fragmentados?), mas estou pensando nele assim, com transições entre canções. Canções por vezes curtas demais ou demasiado longas, eu sei (ninguém precisa me avisar).

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E nesta busca, o que tem acontecido ultimamente? Seguinte: Tavares gravou as guitarras de BORA e TCHAU RADAR, A CANÇÃO. Nesta, ele também fez alguns vocais. 


Voltei ao estúdio onde fiz as primeiras demos dos EngHaw em 1985 para gravar com a banda do Bebeto Alves, os Black Bagual. Sempre uma viagem  no tempo voltar àquele espaço.

Sob a janela de vidro duplo que separa a sala de gravação da técnica, há uma peça larga de madeira rabiscada. São várias assinaturas, frases e desenhos sobrepostos, tipo uma porta-de-banheiro-público-do-bem onde, no lugar de surradas gracinhas pornográficas, foi encrustada com golpes de caneta BIC uma parte importante da história da música gaúcha.


Com a base de A PONTE PARA O DIA pronta, chegou a vez de gravar o vocal do Bebeto, de volta ao Estúdio Submarino Amarelo e ao nosso terreno baldio com bagwall.


Uma ida ao Rio para mais reencontros emocionantes: no estúdio Toca do Bandido gravei TUDO ESTÁ PARADO, com  Adal e Luciano.





Ainda no Rio, com Gláucio, Aranha e Pedro Augusto, gravei PLANO B.






Foram muitas viagens musicais e geográficas com estes caras, de 1996 a 2001 e de 2001 a 2008. Muito  bom reencontrá-los, saber que estão bem e continuam tocando pra caramba.

Ah, antes que me esqueça: o disco vai se chamar INSULAR. Outra hora falo a respeito. Por enquanto fica meu abraço.
12mar2013

O Espírito do Tempo - 89


COISAS DAS QUAIS EU POUCO ENTENDO 
E SOBRE AS QUAIS EU POUCO DEVERIA FALAR
PARTE 2 -  ZEITGEIST


Pois não é que o papa renunciou!?! A especulação sobre os motivos vai desde a falta de energia física e mental, natural fruto da idade avançada, até cinematográficas tramas que envolvem sexo e dinheiro. Onde está a verdade? Num dos extremos, no meio termo ou lá e cá?

Fico imaginando o lado pessoal, o momento - na solidão do seu alojamento, de pijamas - em que Joseph deu uma olhada o espelho e... o que viu?


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Em It’s All Right Ma (I’m only bleeding), Dylan canta que “até mesmo o presidente dos EUA deve, às vezes, ficar nú”. Não é o melhor verso da canção, mas, nas inúmeras gravações ao vivo, sempre é o que causa maior reação do público. O que resta de humano nas pessoas que detém tanto poder é uma questão que sempre fascina.

Eu sei, caro leitor, a renúncia do papa, nesse mundo onde a timeline gira adoidada, é assunto antigo. Por que falo disso agora? É que tenho meu próprio tempo. Na verdade, todos temos. Apesar de muitos ignorarem o seu (são as pessoas que se sentem compelidas a emitir juízos definitivos sobre os motivos e desdobramentos de tudo que acontece no exato momento em que acontece - parece fácil: basta um clic, o computador está sempre pronto, aquecendo a barriga dos sofátivistas).

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Também entrei tardiamente - no meu tempo certo – nas redes socias. Aquele tempo do Orkut, lembra? Pois eu não peguei aquela onda, nunca entrei ali. Comecei acessando bate-papos de assuntos que me interessavam (coisas bem diferentes entre si e que ainda me interessam: violão clássico e raquetes de tênis) e notei que se repetia com constância absurda o mesmo comportamento: muito rapidamente uma discordância virava um estranhamento que descambava para ofensa. E nem estou falando de campos polarizados como política e futebol, eram prosaicos sites de equipamento para jogar tênis e tocar música!

Muita pressa de ser visceral. Deve ser o “espírito do tempo", algo difícil de definir mas fácil de sentir. 

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Não sei se foi Vinícius de Moraes ou Humphrey Bogart que disse “A humanidade está 3 uísques atrasada”. Pode ser lenda urbana, talvez nenhum dos dois tenha dito que o mundo estava 3 doses abaixo. De qualquer forma, é uma perspicaz definição do espírito do tempo que já não vale para os nossos dias.

Agora, tudo parece estar alguns tons acima. É preciso uma quantidade absurda de adrenalina para fazer um coração bater (sem muita força), é preciso um som muito alto para que possamos ouvir (sem muita atenção), é preciso imagens muito berrantes com infinitos pixels para enxergarmos (um borrão). 

Mas, afinal, de tudo que temos (aparentemente) ao nosso alcance, quanta dor podemos, de fato, sentir? Quanta alegria podemos gozar? Quanta solidariedade podemos oferecer? O que realmente nos toca além do calor da bateria do laptop na nossa barriga enquanto clicamos entediados no sofá?

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É muito pouco e muito lento o que se pode fazer para mudar o espírio do tempo. Mesmo que seja na minúscula escala pessoal (Dãããã! Óbvio, né? Senão não seria o espírito do tempo). Sacar qual é o tal espírito já é um grande passo.

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Mostre-me um cara que acredita em mudanças repentinas e avassaladoras e te mostro um cara que não soube ler os sinais.

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Não se preocupe, leitor, não vou me embrenhar no pântano sobre o que é causa e o que é consequência neste mar de pontos de exclamação onde a razão frequentemente se afoga. Muita gente muito mais capaz do que eu já escreveu sobre isso. Este é só meu papo das terças. Na verdade, é só uma desculpa pr’eu te mandar um abraço. E agradecer a companhia.


05mar2013