Foto - 88


COISAS DAS QUAIS EU POUCO ENTENDO 
E SOBRE AS QUAIS EU POUCO DEVERIA FALAR
PARTE 1 -  FOTOS



Pois eu estava pensando sobre a identidade visual do próximo disco e encasquetei com a ideia de fazer fotos com aquele astral do início do século passado: pretibranco, cena estática. Mas afinal, o que definiria esse astral? As roupas? As poses? A baixa qualidade das máquinas, da revelação e impressão? Tudo isso seria fácil de reproduzir. O que é impossível para nós, passageiros desse trem chamado era da informação, é reproduzir a falta de familiaridade que nossos antepassados sentiam frente à máquina fotográfica. Havia sempre uma leve desconfiança no olhar, como se as lentes fossem miras de uma arma que aprisiona instantes. Esse ar se foi para nunca mais. Impossível simular reverência ao que nos é banal. Desisti da ideia retrô.

(*)

Eram os faraós que não se deixavam retratar por temer que a imagem lhes roubasse a alma, né? Ou não? Enfim...

(*)

No livro de Oscar Wilde, o retrato de Dorian Gray envelhecia enquanto o próprio permanecia jovem.

(*)

Quanto melhor o fotógrafo, menos ele te pede.
 Alguns fotógrafos tem a mania um pouco irritante de dizer "vamo lá, me dá a foto".


(*)

Conheci um fotógrafo muito fã do Queen. Incrivelmente, a admiração não tinha origem no som da banda mas na personalidade do seu vocalista. Ele havia fotografado o show dos caras no primeiro Rock in Rio. Numa das poses teatrais do Fred Mercury, todos os fotógrafos correram para clicar mas ele vacilou e perdeu a chance. Com o canto dos olhos, Fred Mercury notou o vacilo, manteve a cena e fez um discreto sinal pra que ele armasse a câmera de novo. 
”Puta profissional!”, não cansava de repetir meu conhecido, "o bicho pegando no palco e ele, com sangue frio, esperando até que o ultimo fotógrafo registrasse a cena".
 

Acho Queen bacana. Mas prefiro o som do que a autoconsciência exacerbada.

(*)

De tudo que meu oficio envolve, este lance de ser alvo de flashes para capas e entrevistas é o que menos me dá prazer. Problema meu, é claro. Sei da importância disso. Mas não é a minha onda.


Quando digo que não gosto de fotografar, algumas pessoas confundem e acham que não gosto de fazer fotos com fãs. Mas estas não me incomodam, de jeito nenhum. Mesmo quando interrompem minhas corridas no fim de tarde para eternizar meu rosto vermelho, suado e ofegante.


 (*)

Foto é uma conversa entre luz e volumes gravada por uma lente.


(*)

Decerto já aconteceu com o leitor, com a leitora: ficar com o olhar parado num ponto fixo, sem nada de especial, no meio da parede, entre duas árvores, sobre um prédio... O ponto em si não vem ao caso, é  o olhar perdido que interessa. 

Tese: no exato momento, em vários lugares do mundo, há muitas pessoas na mesma situação. Se transformássemos esses milhares de perdidos olhares melancólicos em linhas retas, todos se encontrariam num cume, formando uma pirâmide com incontáveis lados. Tal não seria um olhar perdido, como chamam. Seriam olhares encontrados!

(*)

O olhar perdido salva qualquer foto. É uma bela expressão (facial e verbal). Fico imaginando o olhar rasgando mapas, esmagando bússolas, buscando a liberdade de se perder por ai.
 O olhar perdido ignora a câmera. Os melhores sons desconhecem microfones. Se os olhos são as janelas da alma, o olhar perdido fecha as cortinas e recria o mistério.

(*)

Como resolvi o lance das fotos pro disco? Pois bem... Demoliram umas casas em frente ao estúdio e nasceu um espaço misterioso. Tijolos brancos com vegetação invadindo o abandono. Na minha cabeça, uma mistura das Ruínas das Missões com The Wall. Um muro bagual. Nosso bagwalll, ao alcance da janela por onde foge meu olhar em meio a solos e mixagens.


Tenho fotografado ali com os convidados do disco. Parece que em breve construirão um supermercado no terreno. Já sinto saudades antecipadas. No futuro vou caminhar nos corredores do tal supermercado pra comprar iogurte e lembrarei da felicidade de fotografar ali ao lado de colegas de profissão e sonho.




um abraço
26fev2013

Avenida Anonimato - 87


 (QUAL É A) SUA GRAÇA gessinger


um santo com meu nome
já andou por esse chão
ele não deixou pegadas
estradas também não

fico imaginando
o que levou à redenção
o santo com meu nome
que andou por esse chão

(*)

envelopes com meu nome
já cruzaram oceanos
se perderam no caminho
navegaram outros planos

fico imaginando
se rasgaram o papel
se trocaram o meu nome
Ninguém Escreve ao Coronel

(*)

a rua com meu nome
é avenida anonimato
aquele um, aquele outro
não tem cão, caça com gato

um fake com meu nome
um clone delirante
mal sabe o coitado
que um só já é o bastante

(*)

só você sabe quem eu sou
só você sabe como é


bah 1: A letra acima é de uma música do disco que estou gravando. Escrevi antes de saber sob que formato ela viria à luz (PcVgl, HG3, EngHaw). Nunca passou pela minha cabeça que sairia num disco solo. Meu nome é cheio de letras, difícil de dizer, pouco sonoro, daqueles que pedem um pseudônimo, né? Na próxima vida, talvez. Ainda não decidi o nome do disco. Tá quase. Certamente ainda nesta vida.

mega ultra hyper micro 
baixas calorias 
kilowatts gigabytes
eu
o que faço com esses nomes?

bah 2: Cheguei a pegar o finzinho do tempo em que, para saber o nome de alguém, perguntava-se “qual é a sua graça?”. Lembro de ouvir, quando criança, pessoas idosas usando a palavra “graça” como sinônimo de “nome”. Há muito não ouço. Caiu em desuso.

bah 3: Santo Humberto era um caçador. É padroeiro das coisas relacionadas à caça. Há uma raça de cães chamada Cão de Santo Humberto. São considerados cães de temperamento tímido. Poucos latidos. Pensei não conhecer nenhum exemplar da espécie até descobrir que Pluto, da Disney, é um deles. Ah, então conheço um! Pena que o Pateta (Goofy) não seja um Cão de Santo Humberto. Me amarro nele. É um  bloodhound. Minha cocker se chamava Laika. Mesmo nome da cadelinha que os russos colocaram no céu em 1957 à bordo do Sputnik - primeiro ser vivo a orbitar a Terra. Nome tradicional de cachorro - tradicional melhor amigo do homem.

bah 4: histórias de fakes, há tantas... mas é um papo deprimente, né?

bah 5: num mar de relacionamentos efêmeros, com ondas caóticas vindo e indo de e para todos os lados, há - tem de haver - uma ilha, um porto seguro... alguém que sabe como é.

foto do Protásio
que está gravando
e vai mixar o disco
nome parecido com Pro Tools, né?
Pro Taals io
um verdadeiro
abraço
com nome 
e endereço
19fev2013

No guichê ao lado - 86



O deus romano Mercúrio era um mensageiro. Geralmente é representado com asas no capacete e nas sandálias para simbolizar a rapidez de seus deslocamentos. Dizem que o planeta Mercúrio recebeu este nome por mover-se rapidamente no céu. Chama-se de “mercurial” algo instável e volátil; alguém temperamental, cujo humor ou comportamento se altera inesperadamente. O elemento químico Mercúrio tem como símbolo Hg.

Eu sou um outro Agagê. Há quem me ache mercurial, sempre mudando de instrumento, estrada cheia de curvas... Sinceramente? Não me vejo assim. Tenho dificuldade de me desfazer de camisetas velhas e adoro tocar instrumentos antigos. Prezo muito relacionamentos longos, duradouros. Sou casado há séculos. Com a mesma mulher! Até acredito que a monogamia deixa a relação mais interessante. (Mas isso só vale para quem tem o dom. Tentar forçar uma relação assim deve ser um inferno pra quem é de outra praia. Ok, ok, esqueçam estas afirmações. Além de serem politicamente incorretas no momento - culturalmente incorretas - não me interessa e nunca interessou dar pitaco no jeito como cada um leva a vida.) 

(*)

Afinal, Mercurial ou não? É possível que os dois pontos de vista aparentemente opostos sejam verdadeiros e complementares: talvez eu mude para não mudar. Talvez ser o mesmo num mundo diferente seja uma grande mudança.

Definições rígidas e simplificadas são legais pra começar uma conversa no ônibus ou no bar, mas estas certezas esquemáticas rapidamente nos deixam na mão, são incapazes de desenhar o mundo. Quando se abre o peito, talvez pintem talvezes demais no papo. Mas a coisa começa a ficar interessante mesmo é nesse lusco-fusco, no espaço livre e verdadeiro que há entre ideias absolutas mas falsas; buscando o que é permanente na mudança, sacando o que há de novo na repetição. Demasiado paradoxal? A culpa não é minha. Pode reclamar pr'O Criador (ou pro acaso - é só escolher o guichê).  

(*)

Falando em constância: jogo tênis desde criança. Tenho um compadre que me acompanha nas quadras há mais de 35 anos! Cada um seguiu seu caminho na vida. Nesse tempão, rolaram alguns tempinhos sem jogo. Mas, sabe como é, por mais que se lave os tênis, o pó de tijolo não sai. 

Nosso primeiro jogo não houve. Explico: treinávamos com o mesmo professor, em turnos diferentes. Naquele tempo (metade dos anos 70) crianças que estudavam no turno da manhã e crianças que estudavam à tarde viviam em mundos paralelos que muito raramente se encontravam em algum fim de semana. O tal professor, achando que nosso nível de jogo era parecido, marcou o encontro. 

No dia do jogo, fiquei esperando, mas o compadre não apareceu. Depois explicou: “meu pai não pode me levar, deram uma batida no Malibu, rolou problema com os documentos e depois ele teve que ir pro hospital”.

Havia, em POA, uma boate chamada Malibu. Supus que meu parceiro de tênis fosse filho do dono e que, quando a polícia deu uma batida no estabelecimento, os documentos não estavam em dia, o que gerou uma confusão que acabou com feridos no hospital.

Eu poderia ter ficado com esta impressão para sempre. Sim, era só uma impressão, fruto de um mal entendido. Demorei alguns meses para descobrir a verdade: 

Na real,  Malibu era o nome do carro deles (um Chevrolet importado, raridade na época), a batida fora um pequeno acidente de trânsito; o guarda se enrolou com os procedimentos por não estar acostumado com a documentação (carros importados, raridade na época) e o pai do meu então futuro parceiro tenístico fora ao hospital não por estar ferido e sim por ser médico – estava a caminho do trabalho.

Volto a esta história sem importância sempre que penso na fragilidade dos encontros, dos inícios, quando o terreno é desconhecido e uma vírgula mal colocada pode ser o fim de algo que nem começou. Deve acontecer a toda hora e a gente nem fica sabendo. Uma esquina dobrada um segundo antes ou depois é um encontro que não houve. Por outro lado, um mal entendido também pode ser fagulha inicial. Aquele segundo cedo demais ou muito tarde pode ser o instante exato, a hora certa. 

(Pode ser, talvez... Tá sentindo falta de firmes afirmações? Entendo. Ó: aquele guichê ainda está aberto.)

(*)

As palavras guardam, em si, armadilhas. Uma usina de mal entendidos em potencial. Principalmente as digitadas com pressa por alguém desatento. É fácil transformar uma coisa "legal" em algo "letal", basta esbarrar na tecla errada. G e T são vizinhos no teclado.

Mesmo sem trocar as letras, só vacilando na space bar, “quem vai ao show” pode virar  “quem vaia o show” e "simples de coração” pode virar “simples decoração”.

Mas, se ao escrever você transformar aquela “garota muito parada” numa “garota muito tarada”, a proximidade das teclas não servirá como desculpa.  Há 4 delas entre o T e o P. Prepare-se, não faltarão teses psicanalíticas para explicar o engano. Vindas de quem não acredita no acaso.

Bah : E Hg, o que tem a ver com mercúrio? Vem de Hydrargyrum, prata líquida em latim. Bonita imagem, né? Metal em forma líquida. Elemento de transição. É o tal lusco-fusco. Corre lá antes que feche o guichê!


na periferia do mundo
no centro do teclado
H e G 
lado a lado

abraços
12fev2013

A Quantas Ando - 85


Hello! Is there anybody out there? Mando notícias da expedição sonora rumo ao nortesulestoeste ... Journey to The Center Of The Earth... voo mergulho... vida afora noite adentro... sempre em frente sem pressa e pra sempre.

Terminamos as gravações da primeira fase do disco. No fim de fevereiro, vou ao estúdio onde fiz a primeira demo dos Engenheiros do Hawaii (em 1985) gravar mais uma canção. No início de março, gravo as três últimas música no Rio de Janeiro onde reencontrarei Gláucio, Aranha, Pedro Augusto, Adal e Luciano. O futuro também se faz com o que se fez. O prezado leitor até poderá não gostar do resultado final, é claro, mas terá que reconhecer que caprichei! 

O que temos até agora são estas sete músicas:

SUA GRAÇA (gessinger)
HG - voz, baixo, violão de aço, guitarra de 12 cordas, órgão Hammond e harmônica
RAFAEL BISOGNO - bateria

MILONGA DO XEQUE MATE (gessinger)
HG - voz, baixo, acordeon, violões aço e nylon e vocoder
FRANK SOLARI - guitarra
RAFAEL BISOGNO - bateria e percussão

SEGURA A ONDA, DORIAN GRAY (gessinger)
HG - voz, baixo, bandolim e violões de aço e nylon
NICO NICOLAIEWSKY - voz e acordeon
RAFAEL BISOGNO - percussão

ESSAS VIDAS DA GENTE (gessinger/bebeto alves)
HG - voz, baixo fretless, violão de aço e sintetizador

RECARGA (gessinger/leindecker)
HG - voz, baixo, viola caipira, guitarra de 12 cordas e palmas
LUIZ CARLOZ BORGES - voz e acordeon
RAFAEL BISOGNO - bateria e palmas
ALEXANDRE MASTER - palmas

BORA (gessinger)
HG - voz, baixo, guitarra de 12 cordas, acordeon, sintetizador e vocoder
RAFAEL BISOGNO - bateria
(RODRIGO TAVARES - guitarra)

TCHAU RADAR, A CANÇÃO (gessinger/tavares)
HG - voz, baixo, violão de aço, piano Rhodes e órgão Hammond
RAFAEL BISOGNO - bateria
(RODRIGO TAVARES - voz e guitarra)

(Tavares vai gravar as partes dele na segunda quinzena de fevereiro, quando vier a POA para os ensaios do show. Falando nisso, bah: começaremos por Belo Horizonte. Cidade querida onde rolou a pré-estreia da fase acústica. Tudo a ver começar por lá o retorno à pressão). 

Segue o diário fotográfico da semana:

******** QUARTA, 30 ********
acima: chá
à esquerda: cédula para votação
dos melhores takes de gaita de Recarga
o colégio eleitoral foi: eu, Master e Protásio
difícil escolha; mestre Borges
nos deixou um ótimo problema pra resolver!
à direita: divisão do vocal com Nico
em Segura a Onda Dorian Gray
belas harmonias
embaixo: o Mesa Boogie
que amplificou as guitarras de 12 cordas

Make Tea Not War
sim, eu sofro bullying por tomar chá
vocoder + voz natural

 ******** QUINTA, 31 ********
hey, mãe: eu tenho
um órgão Hammond e
um piano elétrico

 ******** SEXTA, 01 ********
na caminhada pro estúdio
com os pés no chão e a cabeça na lua
a rua parece um muro...
... e o muro parece um gato.

Minuano é o único outro disco
feito entre caminhadas.
Andanças cariocas.
Eu morava na Lagoa, o estúdio ficava em Botafogo.

Depois de 27 anos gravando discos,
este será o primeiro feito num estúdio de POA.

É inquestionável a importância
das coisas sem importância, né?



 ******** SÁBADO, 02 ********
coube às harmônicas as notas finais
desta fase de gravações

abraços
05fev2013