Solo le pido a dios - 84


******* TERÇA, 22jan *******

A semana passou voando! Som segue rolando, cabeça segue a mil. Gravamos a participação do Frank Solari na Milonga do Xeque Mate. Frank é um guitarrista extraordinário e um cara super do bem.
Depois da gravação, um registro fotográfico no terreno em frente ao estúdio. Já no primeiro dia fiquei fascinado com as possibilidades gráficas deste espaço.. Muro de tijolos brancos. Ops, uma grande banda já usou isso, né? A ideia é fotografar todos os convidados ali.
(foto de Gustavo Vara)
(as outras são do @alexandr_master)



***** QUARTA, 23jan *****

Fiz o baixo de Tchau Radar, A Canção e mergulhei nas guitarras de 12 cordas. Instrumentos de cordas duplas (guitarra de 12, bandolim e viola caipira) estão pintando em várias músicas. Adoro a ressonância das cordas vibrando em simpatia.
As 2 guitarras de 12 que estou usando no disco foram feitas pelo luthier Cherutti. Fiz uma salada de frutas no desenho delas: corpo de Gibson SG, braço da Stratocaster do Jeff Beck, captação de Telecaster - mas com captadores iguais ao do David Gilmour. Elas estão bem presentes nos discos Surfando Karmas e DNA e Dançando No Campo MinadoOutono em POA e Pra Ficar Legal são dois exemplos.
a da esquerda usei na música Bora
com a semiacústica do Freud Flintstone,
gravei Sua Graça
Minha primeira gravação com guitarra de 12 foi Terra de Gigantes. Usei uma Fender muito antiga e maravilhosa que havia no estúdio da RCA em São Paulo. Voltei a usá-la no na gravação do Ouça o Que Eu Digo Não Ouça Ninguém. Alguns anos depois, Augustinho descolou uma Steinberger de 12, que usou em Ninguém=Ninguém, Problemas Sempre Existiram, Muros e Grades e outras canções do período.

Para a gravação do disco !Tchau Radar!, desenhei uma guitarra de 12 que o Cherutti transformou em realidade. Tinha o corpo igual ao da minha Steinberger preta. Bolei um sistema em que 6 cordas afinavam na mão do instrumento e 6 afinavam na ponte. Coloquei um f-hole falso nela com o mesmo desenho que fiz pra capa do Filmes de Guerra, Canções de Amor e hoje tenho tatuado... A foto abaixo (com Luciano e Cherutti) foi tirada no início da construção do instrumento. 
a guitarra que, aqui,
era quase uma árvore ainda
soou maravilhosamente bem em
Concreto e Asfalto
com técnico e roadie colorados,
rolou aquela espiada no jogo
durante a pausa pro café



******* QUINTA, 24jan *******

O dia começa com uma caminhada para o estúdio. Nos fones, gravações do dia anterior e as demos...
Hoje finalizamos a primeira canção: Essas Vidas Da Gente. Gravei violões, voz e baixo fretless. Baixos sem trastes me fascinam da mesma forma que guitarras de 12 cordas. São instrumentos parecidos pelas manhas de afinação.
Meu primeiro fretless foi um Steinberger preto, que pode ser ouvido nas primeiras notas do VÁRIAS VARIÁVEIS. Depois tive um Cherutti, um Zeta. Estou gravando com o Tobias que uso desde o disco !TCHAU RADAR!
Steinberger fretless
Fretless Cherutti com marcas no lugar dos trastes
pra facilitar (um pouco)



******* SEXTA, 25jan *******

Dia de gravar algumas vozes.
Não é tão divertido quanto
tocar instrumentos,
mas alguém tem que fazer.
=)
Olhar atento na tela do computador.
O disco que, na semana passada,
estava todo na cabeça
gradualmente migra para o HD




******* SÁBADO, 26jan *******

Dia de folga do estúdio,
mas as ideias não fazem feriado!
Aproveitei para definir alguns timbres de teclado
e frases de Vocoder




******* DOMINGO, 27jan *******

Ah, que domingo triste! Acordei com a notícia da tragédia em Santa Maria. A vida abreviada de tantos jovens, a dor de quem ficou... tristeza profunda. Tava sozinho em POA. Tava difícil ficar em casa. Fui ao estúdio. Tem horas em que só fazer música parece fazer sentido, tem dias em que nem isso parece fazer sentido. O dia não rendeu, arrastou-se melancólico. Do que fizemos hoje, só chegará ao disco uma parte nova que escrevi para o fim da Milonga do Xeque Mate. A música estava pronta, mas hoje pintou este tema. Só violão e baixo fretless... instrumental, num dia em que as palavras não deram conta de expressar os sentimentos. 




***** SEGUNDA, 28jan *****

Segura a Onda, Dorian Gray foi a música do dia. Nico Nicolaiewsky, o convidado. Cantamos juntos e ele gravou acordeon. Figuraça, um grande artista, um grande papo. Perguntado se queria ouvir mais metrônomo no fone, ele respondeu: "Sou alérgico, mas se quiserem tomo um anti-histamínico". Sábias palavras! Sem o clic, a música respirou, seguiu no ritmo do coração. 

Depois da gravação,
uma descida ao terreno das fotos.
(foto de Gustavo Vara)



***** TERÇA, 29jan *****

Hoje foi dia de aula. Mestre Borges fez chover para cima. Deixou um take de voz especial de bueno e 3 opções de gaita que... vou te contar... difícil de escolher qual a melhor. Dá vontade de lançar 3 versões da canção. A música se chama  Recarga e, de fato, recarregou nossas baterias.


a foto da foto
foto de Gustavo Vara

e ainda ganhei um
autógrafo na minha sanfoninha!
bah: o título do texto? Nada, não... só uma música do Leon Gieco que tem andado na minha cabeça. http://letras.mus.br/leon-gieco/194409/traducao.html

abraços
29janeiro2013

Solo Gaúcho - 83


Alô, alô, base: mando notícias do front. A primeira semana de gravações foi de trabalho intenso e intensa felicidade. Gravamos as bases das músicas que têm uma onda mais gaúcha e acústica como RecargaSegura a Onda Dorian Gray e Milonga do Xeque Mate. O Rafael manda muito bem nesta praia.

começamos com as guias:
uma versão de cada música só com
voz, violão e metrônomo
sobre a qual gravaremos os outros instrumentos
Rafael, Protásio, Master e Kami
enquanto compunha e gravava as demos
 eu sabia que tinha um material muito forte
mas, confesso, eu estava um pouco confuso
quanto ao rumo que deveria tomar
foi só quando tirei o baixo da parede
que entendi o que as músicas estavam pedindo 
aço
nylon


bandolins
e, se... ?
viola caipira
armas à disposição
mandando ver
renovando o estoque de piadas
percussões e baterias gravadas
agora, só no mate
reflexos no aquário
peixe fora d'água



gaita com wah wah?
você só ouve aqui

a cordeona é eletrônica
mas sentimos falta do barulho dos dedos nas teclas
então...
gravamos

aos poucos vamos eletrificando
eletrizando
(2x 2x) 6 cordas pra guitarra
6 sentidos na mesma direção
600 anos de estudo
6 segundos de atenção
6 pilhas pro meu rádio
60 toneladas de um minuto 
em suspensão


Hoje fiquei mais no registro visual. Difícl parar para escrever sobre o fluxo de ideias musicais. Ainda mais por não querer direcionar a audição de ninguém. Quero que o disco chegue como alguém que a gente encontra casualmente na rua...
Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land

And help me understand the best I can 
(Echoes - Waters)

Se, por um lado, uma imagem vale por mil palavras, por outro, uma canção vale por mil imagens. Em breve a música falará por si. Semana que vem atualizo as infos das gravações, ok?

Tamo junto, vamo junto!

bah: fotos by @alexandr_master e @romoliv
abraço
22jan2013


Solo e Bem Acompanhado - 82



Semana passada intensifiquei meus treinos tenísticos: mais tempo e mais intensidade. Não, gentil leitor, não estava preparando-me para o Australian Open, bondade sua! Foi um ritual de  despedida momentânea das quadras pois, com o início das gravações do disco, quero concentração total nele. Foco de raio laser. Forno aberto não assa pão.

Como sempre faço, fui andando ao clube e, no caminho, parei na Stereophonica para autografar livros e calendários. É uma rotina semanal que me dá muito prazer. Não entendo quando me perguntam como tenho saco pra tanto autógrafo. Eu gosto mesmo de fazer os rabiscos! Sou grato a quem se interessa pela minha arte. Fico imaginando onde cada item vai chegar, como será recebido... mais que tudo, a tarefa mecânica e repetitiva da grafia me dá a mesma paz zen que sinto treinando direitas, backhands, saques e voleios. Talvez por ter tido, por toda a infância, a pior caligrafia da turma – raramente algum canhoto conseguia desenhar letras tão feias quanto as minhas – acho legal que meus garranchos façam algum sentido hoje. Não pela beleza, pelo afeto.

Chegando à Stereophonica, notei olhares surpresos: “Ué, não vinhas amanhã?”. Putz, tinham razão! Eu pensara que a quarta já era quinta! Quem diria! O rei da hora certa, amigo de cronos e dos relógios, perdido no calendário!

Já que estava ali, tomei um café antes de seguir para a quadra. Ao chegar, o porteiro perguntou, só pra puxar assunto: “e aí, vai suar hoje?”. Hoje-oje-je-e-e! a palavra ficou reverberando no meu cérebro como se ele fosse um cânion. Que mané! Mesmo tendo descoberto, na parada anterior, que havia trocado os dias, segui para cometer o mesmo erro em outro lugar. Cheguei no clube um dia antes!

Tem acontecido com frequência. Esquecer de desligar a chaleira até que água evapore e um cheiro de queimado me faça cair na real, procurar por toda a  cozinha o pacote de chá que estava o tempo todo no meu bolso, procurar a chave pela casa inteira e descobrir que ela estava no lado de fora da fechadura, procurar muito os óculos que estavam suspensos na própria testa, colocar creme de barbear na escova de dentes, abrir o micro-ondas para esquentar uma xícara de leite e descobrir que já havia uma quente lá dentro... sim, estas coisas têm acontecido. Acompanhadas por períodos de silêncio maiores do que o habitual. 

No popular: ando com a cabeça na lua. Neste caso, a lua é um objeto bem definido, um objetivo que hoje comecei a realizar na prática. Primeiro dia no estúdio, início das gravações. Semeadura ou colheita? Difícil saber. Sem dúvida, Solo Fértil.


Baudelaire, Rimbaud, Verlaine... quem era mesmo que falava em chegar ao desconhecido através do "desregramento dos sentidos"? (Google: Rimbaud). Não chego a tanto, mas aceito e até cultivo um alheamento das banalidades do cotidiano quando estou nestes períodos. Criar música para mim não é algo para se pensar em horário comercial, parando para almoço e lanche. Não se tira férias disso. É preciso flertar com a obsessão, perder algumas noites e fins de semana perseguindo a musa. Vale a pena. Demanda muita energia emocional e racional, mas vale muito a pena ficar acessível a todas as conexões entre letras, músicas, arranjos, capa... Mesmo que estas conexões passem despercebidas pela maioria das pessoas. São só detalhes? Sim. Mas tudo é detalhe. Deus está nos detalhes.

(*)

A conversa tá boa (ao menos para mim) mas não posso esquecer de falar, como prometido no twitter, sobre o o que vem por aí! 

Escrevi num post, há quase um ano, que estavam pintando músicas mas que eu não sabia o rumo que tomariam. Com o tempo, saquei que elas pediam uma banda plugadaça. O repertório amadureceu e cresceu a vontade de convidar vários colegas e amigos para participar do disco. Já não era uma banda, eram várias. Por isso vai sair como disco solo.

Já estão confirmadas as participações do mestre Luis Carlos Borges, Nico Nicolaiewsky (os mais jovens o conhecem do Tangos & Tragédias, eu o conheci no Musical Saracura, a banda gaúcha favorita da minha adolescência), Bebeto Alves (poetaço! cara que tem uma intuição incrível sobre como inserir a música gaúcha no som do planeta (a banda dele, Os Black Bagual é triboa e também estará no disco)) e Frank Solari (guitarristaço que derrete as cordas)...

... da turma EngHaw, teremos guitarras de Luciano Granja e Fernando Aranha, teclados de Lúcio Dorfman e Pedro Augusto, baterias de Gláucio Ayala e Adal Fonseca. Camarada Tavares também tá escalado pra guitarrear e o gringo Rafael Bisogno vai gravar algumas baterias e as percussões. 

Para um cara insular e com pouca inteligência social, como sempre fui, é uma benção ter a chance de me conectar com tanta gente talentosa. Músicos, técnicos, produtores... timaço!

(*)

Havia muitas músicas novas no Novos Horizontes e no Pouca Vogal (8 em cada um), mas não gravo um disco só de inéditas há 10 anos, desde o Dançando no Campo Minado. Acho que valeu a espera, o disco tá chegando na hora certa. Mantenho vocês informados por aqui à medida que as ideias migram da minha cabeça (ah, este cânion!) para o HD, ok?


bah 1 : lembro com carinho de ter visto as finais do Australian Open de 2002 (Capriati x Hingis, Safin x Johansson) em Fortaleza. Estava fazendo o show de lançamento do Surfando Karmas & DNA. Ontem assisti ao primerio dia do torneio trocando cordas de violões, violas, bandolins, baixos. Não, gentil leitor, às vésperas de uma gravação não seria aconselhável deixar o serviço para um roadie. É como autografar e treinar direitas, backhands, saques e voleios: zen e pessoalíssimo.

bah 2: O nome do disco? Talvez tenha pintado no texto...

É natural que,
em cada mudança de ciclo,
algumas pessoas percam o interesse pelo meu trabalho
outras comecem a se interessar por ele. 
A quem vai, a quem fica e a quem chega,
como diria mestre Gil,
aquele abraço!
Como diria mestre Caetano, 
abraçaço!
15jan2013

Pó Pará, Simancol e Sifragol - 81



Quanto tempo dura a mudança de ano? Tempo nenhum - o inexistente momento entre a meia noite do último dia de dezembro e a hora zero do primeiro de janeiro - ou a dúzia de dias que precedem e sucedem a virada?

É uma época estranha, ao mesmo tempo histérica e melancólica. Um bombardeio de diagnósticos e prognósticos, retrospectivas e perspectivas. Um espelho que nos visita a cada 12 meses. E nós, se visitarmos esse espelho, o que veremos?

-Ih, papo de autoconhecimento?!? Papo cabeça com baixos teores?!? Pó-pará!!!

Ah, eu e minha boca grande, cabeça vazia e dedos ligeiros! Ouço o clique de milhares de mouses fugindo do texto. Perdi meus leitores! Agora estou só nesta imensa página em branco... 

Faltou Simancol - antiga gíria que transformava em nome de remédio a falta de noção. Sefragol era outra dessas gírias. Se mancar, se flagrar: ter noção de onde e como se está. Autoconhecimento? Estão aí os profissionais da psicanálise pra dizer que não é tão fácil quanto parece. Tem remédio?

(*)

Enquanto alma, espírito e consciência pairam no ar em silêncio enigmático, o corpo pode ser um bom começo de conversa com nós mesmos. Ele deixa pegadas. E o chão responde deixando marcas nos pés. Autoconhecimento? Dá uma olhada na sola dos teus tênis: as partes mais gastas te dirão como tens andado.

Surfar na própria timeline das redes sociais também pode ser revelador de como estamos nos relacionando com o mundo. Como um Sherlock Holmes a procura de nós mesmos, podemos descobrir, nos nossos perfis digitais, como queremos ser vistos (o que já é um bom indício do que somos).

Os caminhos para o autoconhecimento são vários. Infinito mais um. Este “um” é o seguinte: desconhecer um pouco do que somos também faz parte!


(*)

O trem pára. Algumas pessoas descem, outras embarcam. É sempre assim nas paradas. Alguns ficam pelo caminho, outros juntam-se à caravana. Seguimos na esperança de que, na proxima estação, aeroporto, esquina, espelho, a gente se conheça melhor. Ou intua o que não é possível conhecer.


bah 1: Propriocepção é a capacidade de reconhecer, sem usar a visão, a situação do próprio corpo no espaço. Os grandes atletas e bailarinos possuem uma refinadíssima percepção de onde estão seus corpos e do que seus músculos precisam fazer para levá-los aonde querem.

No ensaio Federer como uma experiência religiosa, David Foster Wallace usa uma final de Wimbledon  para costurar algumas intuições interessantes sobre corpo e mortalidade. Lá pelas tantas, diz que a maestria do tenista suíço (a beleza cinética de seu jogo) reconcilia o ser humano com o fato (fardo?) de ter um corpo. 

Como contraste a esta exuberância, o texto informa que a criança que participou do cara-ou-coroa antes do jogo estava se recuperando de um câncer. A leitura fica mais pungente quando se sabe que, alguns anos depois, DFW desistiu do próprio corpo.

bah 2: Hein? Alguém leu este texto até aqui? Alguns daqueles cliques de mouse em debandada eram imaginários? Bom saber! Há 28 anos isso acontece, já deveria ser do meu conhecimento, mas sou meio burrinho mesmo, custo a aprender.

Alta madrugada, fui ligar um incenso. Os fósforos que peguei ao acaso eram de um hotel em Nagoya. Um flashback me levou de volta ao Japão. 1993. De lá pra cá (daqui pra 1963), pouca coisa aprendi. Uma delas: nunca tomar café depois que o sol se foi. 
Pois é... pensando nisso e aproveitando o fósforo aceso, esquentei um café na esperança de fazer brilhar um sol particular.

 8jan2013