Até quando o motor aguenta? (126)

Algumas montadoras estão equipando seus carros elétricos com um sistema de alto-falantes que simula o ronco dos motores tradicionais. Pelo visto (ou melhor: pelo ouvido - ou, melhor ainda: pelo não ouvido), o silêncio ficou demais.

Este "demais" que, para mim, significaria "do caralho!", para as fábricas parece significar "demasiado, excessivo".

Algumas delas justificam a invenção pelo viés politicamente correto: o silêncio dos carros elétricos seria perigoso para pedestres que, ao não ouví-los chegar, estariam mais sujeitos a atropelamentos.

Outras defendem a simulação do ruído de motor por achar que o som é um componente importante do prazer de dirigir (alguns carros com câmbio automático possuem um sistema de audio comandado eletronicamente pelo motor, que simula o som de mudanças de marcha).

(*)

Em algum de meus livros (que se embaralham - todos - na minha mente no fim desta noite insone), escrevi sobre a presença, em alguns teclados digitais, de timbres com o estalido de arranhões num disco de vinil.

Ah, como persistem algumas coisas que já não existem! Exemplos claros dessa utilidade inútil também são visíveis na arquitetura, nas roupas, nos móveis... Inutilidades úteis também estão presentes, ainda que menos perceptíveis, em muitas das nossas ideias, em muitos de nossos gestos.

Dependendo do rigor da análise ou do nosso humor no momento, podemos considerá-las máu gosto kitsch ou algo necessário para reconhecermos um mundo que parece mudar rápido demais.

(*)

Como consequência de uma evolução contínua, por vezes nos deparamos com momentos de transição que, se tirados do contexto - desvinculados do que veio antes e virá depois - parecem absurdos (ruído de vinil em discos digitais, ronco de motor envenenado em carros elétricos).

Essas fases intermediárias (com suas gambiarras juntando elementos contraditórios) reforçam a convicção de quem pensa que nós, seres humanos, não somos racionais; somos racionalizantes. A racionalidade não estaria na origem do que fazemos; seria um verniz posterior, apenas justificativa de nossos atos. Um alibi para impulsos, instinto, compulsão, sei lá o que...

(*)

Escrevo enquanto, pela janela, entram os primeiros raios de sol do dia que nasce. É provável que eu revise o texto ao anoitecer. Duas transições, noite>dia>noite, que se repetem desde sempre. Na verdade, são picos de obviedade num dia que, para quem tem olho-vivo-faro-fino-pé-atrás, a cada segundo esta se transformando.

(*)

O tempo dos cronômetros, que parece tão objetivo e definitivo, é uma abstração que, às vezes, falha. Nessas horas (ops: instantes) surreais, os relógios derretidos das pinturas de Dali são mais reais.

há tanto tempo 
há tantos planos
mas eu nunca sei
em que ano estamos

bah 1: Neil Young investiu muito tempo, dinheiro e energia num projeto de carro elétrico. Acho que ele partiu de uma premissa errada: seu protótipo era uma adaptação de um enorme Lincoln Continental, um tradicional carro dos anos 50. Ele queria quebrar a conexão entre energias alternativas e carros pequenos, lentos. Queria mudar o combustível mas preservar o excesso de espaço, velocidade e individualismo do sonho americano. O slogan do projeto deixava isso claro: Repowering The American Dream. 

Ok, louvável iniciativa do mestre. Mas acho que não basta mudar a energia que faz as engrenagens girarem... são elas que precisam ser repensadas.

bah 2: dia desses, caminhando no meu trajeto costumeiro, ouvi um ronco estranho. Bonito, com um grave preciso. Olhei para a direção de onde ele vinha e vi, parado no ponto, o mesmo ônibus de sempre. Não fazia sentido. Quando ele se pôs em movimento, apareceu a real fonte do som. Havia uma Ferrari atrás do coletivo. Ela passou por mim quase picando pelo asfalto cheio de buracos, fazendo a curva e subindo a lomba de forma muito desengonçada,  inadequada. Parecia pedir, pelo amor de Deus, um simulador de estradas perfeitas.

bah 3: abraços!
03dez2013

44 comentários:

  1. aewwww!!!!!!!!!! chegou o que eu estava esperando!!!!

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  2. No mesmo instante, eu aqui e você ai! Não é interessante, saber?

    Abraços

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    1. No mesmo instante, no mesmo suspiro... No mesmo "ENTER"... Talvez vocês com a intenção de de um "ENTRE"... Ficou fofuxo, essa simultaneidade, e por consequência, emplogação de ambos. Semana que vem tem mais!!!

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    2. Ps. ... de um mesmo "ENTRE"...*

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  3. Estradas perfeitas no Brasil? Duvido! kkkk

    Foi numa dessas máquinas de ronco alto, que o Paul Walker se foi, nesse fim de semana.

    Abraços

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    1. Agora Paul Walker tem milhões de fãs, o cara leu o texto td e só se ligou na rua esburacada. Vai lê post do Vrumm!

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    2. Sr. Anônimo leu o texto todo e todos os comentários... só se ligou no humilde comentário do cara, porque podia facilmente ser alvo de suas críticas e complexo de superioridade. Vai lê revista de fofoca!

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  4. Muito bom Humberto, sempre vale apena esperar seus textos
    ah e o quanto estao proximos e distantes uma ferrari um coletivo na nossa sociedade .
    Abraços

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  5. no nosso corpo, tem o apêndice e as amigdalas de inutilidades

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  6. muito bom esse texto... assim é que sabemos que um músico é um músico mesmo, quendo ele detecta o grave do ronco do escapamento...

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  7. Pra quem anda mais pelo ar e/ou com os pés no chão, tem muito barulho de carro aqui hoje...rs
    E quem sabe o silêncio não faria os pedestres mais atentos....nah! Quem dera...
    Abraço.
    Bom trabalho, boa semana!

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    1. O problema é quando não se pode ver... Apenas ouvir :/

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Verdade, Letícia. Que lapso... :-( fico até com vergonha, já que acabo de concluir um curso de ledor em que gravei dois livros para deficientes visuais. Meu foco estava em outro ponto de reflexão quando comentei. Me referia aos que enxergam bem, mas não veem nada :-( E não só pedestres ;-)

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  8. Fico pensando até que ponto o exterior nos molda... será que completamente como quiseram alguns filósofos? Existem fatos que mudam completamente meus pontos de vista! Será que é o acaso quem decide quem será o bem aventurado da vez? Interessante seria esses mapas do acaso.

    Cada dia vejo mais nítida uma nova vibe no ar, uma nova sociedade preparada para assumir as rédeas, sem cavalos, sem horse power. Sem ninguém preso as rédeas. Sem rédeas!

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  9. Pensemos : está aí um p....paradoxo, numa sociedade desigual , tanta gente sem ter o que comer mas os carros elétricos já se tornam objetos de preocupação para as montadoras. Num país onde atrás de um coletivo tem uma Ferrari ....onde a impunidade que assistimos na tv impera ,socorro,valeu Humberto seus textos são dez.

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  10. João Félix Ambrosio3 de dezembro de 2013 02:10

    ... 110, 120... 160... Só Pra Vê Até Quanto o Motor Aguenta...(8)
    Belo Texto Humberto... Parabéns, Você é o Cara!!!... lhe Aguardando em Imperatriz-Ma Dia 13/Dez \e/

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  11. amei o texto e estou muito feliz por poder ir no show dia 11....comemorar meu niver em grande estilo!!!! Adoro!!!!!

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  12. Uso suas palavras para falar do seu texto, foi "do caralho" cara!
    Concordo com que disse que o silêncio pode deixar o pedestre mais atento. As vezes ficamos mais acordados no silêncio, do que em qualquer barulho...

    bah 1: Vale a pena esperar a semana toda pelo seu texto.
    Até a próxima, bju!!

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  13. Hoje tudo se simula, até as amizades são simuladas, basta ver o números de "amigos" que tum tem no Facebook. Uma garota posta uma bosta de foto com cara de quem lambeu gilete e ainda ganha um LIKE com os dizeres - LINDA AMÔ DEMAIS- Quando ao barulho, me parece que o infeliz que curte um carro/moto barulhento que a toda força que quem não tem nada pra admirar na conduta seja forçado a experimentar o mesmo prato cheio de bosta que ele. Assim, se você tem um carro que sai por ai fazendo barulho (seja com som alto ou escapamento barulhento) saiba que no inferno prepare YOUR ANUS, pois ele não será perdoado.
    EU LONGE DEMAIS DA CAPITAIS (LITERALMENTE)

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  14. "Aerodinâmica num tanque de Guerra", Vaidades que a terra um dia à de comer!

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  15. Utilidades inúteis. Umas mais inúteis que as outras. #1berto

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  16. Humberto,

    É sempre saudável aquele tempo que para a fim de podermos pensar no próprio efeito do tempo e de como somos apegados ao passado e resistentes à mudança.

    Boa reflexão.

    Um abraço.

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  17. Temos provado a mistura de dois mundos!
    Qual vai sobreviver?
    Qual voltara em sonhos?
    Vale mais mostrar/ouvir/sentir do que se correto!
    Cadê os carros a ETANOL ( 100% nacional )?

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  18. Nossa ! Profundo... Super texto! Achei o máximo!

    Parabéns pelo brilhante raciocínio... E um grande Abraço - direto de Belo Horizonte.

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  19. Silêncio e Sons - Geniais o tema da semana e o texto.
    "Manta de veludo, franjas de algodão".
    Ou o contrário, como dizia o poeta?!
    O modo de ver ou ouvir faz a diferença.

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  20. Eu queria ter 0.00001% do seu talento de transformar qualquer tema em um belo texto.
    Bjim da sua eterna fã

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  21. fraco, gessinger...meio fraco

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  22. " Mas eu nunca sei pra onde vamos... "
    E como diria voce, meu querido amigo Humberto.. à espera de séculos mais interessantes?

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  23. é sempre um aprendizado e uma admiração cade vez mais pelo grande mestre Humberto. e realmente Humberto eu me enquadro quando tu diz que teus leitores gostam de escrever. tu despertou isso em mim e na contra mão não foi dentro da sala de aula, e sim através da tua música da tua arte. um belo ponto de ligação para despertar o interesse da escrita "música e leitura" sou teu fã !!!

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  24. é sempre um aprendizado e uma admiração cade vez mais pelo grande mestre Humberto. e realmente Humberto eu me enquadro quando tu diz que teus leitores gostam de escrever. tu despertou isso em mim e na contra mão não foi dentro da sala de aula, e sim através da tua música da tua arte. um belo ponto de ligação para despertar o interesse da escrita "música e leitura" sou teu fã !!!

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  25. é sempre um aprendizado e uma admiração cade vez mais pelo grande mestre Humberto. e realmente Humberto eu me enquadro quando tu diz que teus leitores gostam de escrever. tu despertou isso em mim e na contra mão não foi dentro da sala de aula, e sim através da tua música da tua arte. um belo ponto de ligação para despertar o interesse da escrita "música e leitura" sou teu fã !!!

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  26. simulador de estradas perfeitas foi boa cara!!! Ótima 1berto, vc é o cara

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  27. Hoje terminei a leitura do seu blog desde o primeiro post. Já era fã e inevitavelmente a admiração aumenta na mesma intensidade em que descubro que aquele alemão marrento é muito mais humano que se possa imaginar.
    Confesso que chorei em alguns momentos como na história do Simples de Coração, que poderia ter os graves de Stu Hamm... Bem como sobre a morte do produtor Greg Ladany, da inspiração da música Lado a lado, enfim, muita coisa pude aprender. também toco baixo e sou fascinado pelo som do fretless, tb me emocionei com a forma carinhosa com que vc se refere a ele. Tive contato com o álbum Insular e digo que valeu a espera. vale a audição e não são 45 minutos perdidos, aliás, muito melhor apresentado que muitos primeiros ou segundos tempos de jogos deste último brasileirão que foi bem tenso, pra ser sutil no adjetivo. Grande abraço de um baixista que também tem olhos claros e também é pai de uma Clara.

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