E mais não direi - 80



Se houvesse uma câmera oculta sobre o espelho, do outro lado teriam visto minha cara sonolenta e a mão distraída colocando desodorante na escova de dentes. Que maneira de começar o dia! Que desculpa posso dar? Objetar que pasta de dentes e spray são parecidos? Não cola. Já usei esta justificativa quando escovei os dentes com creme de barbear.

Minha transição do sono para a vigília, além de lenta, é a porção do dia que menos me agrada. Injustiça da minha parte (mal agradecido):  muitas vezes acordo com respostas para questões que pareciam insolúveis antes do sono. Há manhãs em que a frase que faltava, uma ideia para arranjo, um título ou uma capa acordam ao meu lado sem que eu os tivesse visto ir para a cama.

{ Algumas ideias preferem chegar sem serem notadas. Qualquer esforço que façamos parece assustá-las. Só nos resta esperar. Mais fácil falar do que fazer, né? Como é difícil manter o sangue frio quando não se sabe se o que se espera chegará! }


Minha hora favorita do dia? O anoitecer.  Quando chega, evito ao máximo acender as luzes da casa. Gosto da maneira como os olhos vão ficando mais sensíveis à medida que a luz vai diminuindo. Resulta uma sensação de integração com o ambiente - harmonia - que é uma definição muito próxima de “paz”.

{ Eu trocaria, na boa, as 5 horas entre 10 da manhã e 3 da tarde por 3 horas a mais de pôr do sol...

... nah, bobagem,  pecado jogar fora duas horas de cada dia, né? Já basta o tempo que perdemos com coisas que não nos merecem. Melhor deixar o relógio andar como anda. Além do mais, perigava a gente enjoar de tanto pôr do sol. }

as aparências enganam
aos que odeiam
e aos que amam
(isso é um amanhecer)

Declarar-me fã do outono e do anoitecer revela mais de mim do que seria prudente revelar. Ainda mais hoje que o horóscopo do jornal disse pr'eu armar uma retranca e jogar com muitos volantes.

Se eu acredito na astrologia dos jornais? Nah. Tanto quanto no futebol. Quem está muito próximo do topo da minha pirâmide de respeito são os antigos astrônomos. Conseguiram explicar coisas tão complexas com instrumentos tão rudimentares! 

Semana passada me veio esta dúvida: quando é lua cheia num país, é lua cheia no mundo inteiro? Uma pergunta de simplicidade constrangedora para quem tem o dom. Não é meu caso. Desisti de encontrar a resposta sozinho depois que meu raciocínio deu várias voltas em torno do sol sem sair do lugar. Tive que perguntar para outra pessoa, que respondeu parecendo não acreditar que eu falava sério.

{ Mas eu sei que havia um império tão grande que, se dizia, nele o sol nunca se punha. E sei que hoje estas coisas já não existem. Só restam fragmentos, tudo é pedaço. E sei que as fotos, nos idos tempos analógicos, eram reveladas numa sala escura. E sei que numa noite sem estrelas os vaga-lumes fazem a festa.}


Voltando à cara no espelho, não se engane: aquele cara com cara de sono passando desodorante ou creme de barbear na escova de dentes estava chegando a uma importante conclusão! Às vezes cai a ligação entre matéria e espírito: nem sempre nosso semblante revela o que se passa em nossa mente e coração. Seria mais fácil se tudo estivesse na cara.

{ Em francês, a expressão physique du rôle indica uma aparência adequada para determinado papel, (jeito de...). Atores que tenham uma cara que revele o que os personagem pensam e fazem ajudam o filme? Não sei. Atalhos, nunca se sabe...

Os gringos, que são mestres em catalogar tudo, principalmente na cobertura esportiva, usam a expressão game face pra quando o cara tá focadaço no jogo. Uma cara de tensão relaxada, se tal é possível. Tite já estava com game face na entrevista coletiva, dois dias antes do jogo. Claro que ganharia. }

arde fins de tarde
de luz vermelha 
Ah, Jesus! Novamente um doido fez disparos numa escola americana. Matou 27 pessoas. A maioria,  crianças. Era sobre isso que eu deveria estar escrevendo, não sobre o pôr do sol, esporte e as aparências. Mas as palavras fogem como um sol se pondo rápido demais. Só restam fragmentos, tudo é pedaço. Ascenssão e queda do Império da Razão. Não se engane: este cara que vos fala, com cara de espanto, silencia sua compreensão.

in my rear view mirror
the sun is going down
Ao som de Two Suns in the Sunset (Pink Floyd), The Sun Goes Down (Thin Lizzy), As Aparências Enganam (Elis Regina), Anoiteceu em ... }
abraços
18dezembro2012

Inspirar, expirar - 79


Que não sejamos exatamente como gostaríamos de ser é um sinal de sanidade mental. Fica sempre para a próxima volta a chegada ao ideal. Não somos os reis da cocada. Também não somos o fim da picada. Se nos incluímos em algum destes extremos, esta é uma boa razão para correr a próxima volta: tirar nossa cabeça daí! 

E nessa toada seguem as voltas, os ciclos. Vários deles - de diferentes amplitudes - convivem. Se tivermos sorte e/ou sabedoria, convivem harmoniosamente os anos e os dias; faixas hetárias, trabalhos e romances; os ciclos da arte e do ofício; do corpo, da alma e da mente. É sempre bom ouvir os cucos dos relógios interno e externo saindo da casinha em sincronia e cantando em harmonia.

(*)

Qual a diferença entre uma segunda-feira e um sábado? Podemos responder com uma lista extensa de circunstâncias que diferenciam estes dias. Mas, na essência, não encontraremos resposta. Robson Crusoé e as clássicas histórias de náufragos estão aí para confirmar quão iguais são os dias.

A abstração matemática dos calendários enquadra algumas porções de tempo criando ciclos para facilitar nossa vida em sociedade. Como consequência, no final do ano, alinham-se  algumas  vírgulas e muitos pontos finais. O carro-chefe talvez seja o ano letivo (ah, que saudade do último dia de aula: batalhas de bexiguinha e a  perspectiva de liberdade ali, logo ali, depois da curva).

Na esteira da virada de ano, talvez teu time faça o último jogo num estádio e inaugure outro (um ciclo de vários anos). Talvez tua banda encerre uma tour (um ciclo de várias emoções), talvez retires os baixos da parede e os amplificadores do case... talvez tudo isso se acumule na tua mente e tenhas que falar/escrever a respeito.

(*)

Vez por outra ficamos parados à beira do caminho tentando entender o que há de permanente em nós (há algo?) e o que é frágil fruto (semente, flor) das circunstâncias. Normal. Há momentos para ficar boiando, subindo e descendo sem sair do lugar enquanto as ondulações, em ciclos, passam sob nosso corpo inerte.

E há momentos de remar vigorosamente para alcançar uma onda e surfá-la. O ideal é ter sabedoria para reconhecer qual destes momentos estamos vivendo. Nem sempre é possível. E a vida não é nossa babá, não fica esperando que a ficha caia. Mas prescindir das circunstâncias ideais é um sinal de sanidade mental, né?

Assim, de volta em volta, voltamos ao início deste texto. 


Bah 1: Podem crer nas metáforas marítmas acima: ninguém respeita tanto o mar quanto um cara que não sabe nadar.

Bah 2: O melhor aluno de filosofia da minha turma de colégio começou a apresentar um trabalho assim: "O existencialismo é, em essência, ..." e foi abruptamente interrompido pelo professor, que retrucou: "Pode sentar. Essencialismo não é existencialismo!". Acho que foi só um jogo de palavras entre as duas doutrinas filosóficas, mas a turma achou muito engraçado.

Bah 3: Fascinante nosso idioma. Não sei se a expressão "se acha" é coisa de gaúcho ou se  é usada em outros estados (tipo: quando o cara é muito convencido, diz-se "Fulano se acha"). Outro dia ouvi um cara levando ao extremo esta expressão, dizia: "Bah, Fulano não se acha, ele se tem certeza".

Bah nada a ver com o texto, tudo a ver com os dias 11: Hoje, 22h, twitcam d'O PAPA É POP. São todos bem-vindos!

11dez2012

Zen zap - 78



Meus defeitos são muitos e, a essa altura do campeonato, vocês já devem conhecer todos. Os reais e os inventados por terceiros. Então, peço licença para papaguear meu real (talvez único) talento: quando se trata do controle remoto da TV, sou o cara. O gatilho mais rápido do oeste!

Sou capaz de acompanhar, ao mesmo tempo, filmes, jogos e noticiários. Vários deles. Ok, talvez não seja tão difícil: os filmes, com variações superficiais, contam quase sempre a mesma história. O mesmo vale para noticiários e jogos.

Zapear é minha forma favorita de não pensar em nada. Com o tempo descobri que esta experiência, para mim tão tranquilizadora, pode levar à loucura quem queira assistir TV ao meu lado. Que meu casamento tenha resistido a tantos anos disso é só uma das provas que colho todo dia da força do amor.

(*)

Minha performance zapeando foi dificultada pela chegada da NET digital. Nela, rola um gap entre a saída de um canal e a sintonia do próximo. Fração de segundos que parece uma eternidade para meus dedos aflitos. No equipamento analógico não era assim. Engana-se quem pensa que as coisas só melhoram com novos sistemas operacionais.

Duas são as consequência mais imediatas desse apertar frenético de botões: (1) sou obrigado a trocar as pilhas do controle remoto com muita frequência e (2) fragmentos de imagens e frases sem aparente conexão ficam reverberando na minha cabeça muito depois que desligo a TV. Irradiação Fóssil.

(*)

Numa dessas, fiquei sabendo que dá pra comprar cheiro de grama recém cortada. Num programa sobre automóveis luxuosos, um designer italiano borrifava o aroma no seu escritório enquanto alardeava como o cheiro lhe trazia inspiração.

A TV já estava em outro canal e eu ainda especulava se o tal cheiro de grama cortada tem valor em si  mesmo ou se sua força reside em trazer à lembrança a grama outrora cortada. O tal perfume causa o mesmo efeito para quem nunca sentiu o cheiro que o corte da grama libera na vida real? Tem valor absoluto ou só como disparador de lembranças? Prazer inato ou gosto adquirido? 

Quando dei por mim, já havia flanado por outros canais. Saí do design de carros esportivos para entrar no Reino Unido da FIFA, corporação cujos tentáculos fazem a ONU parecer coisa de criança: 

Zico ganhou 9 Bolas de Ouro/Prata, Renato Gaúcho e Falcão, 6. O genial Neymar, depois de ganhar 3, já foi considerado hors concour. Muito cedo? Talvez nos tempos velozes e binários em que vivemos  (1 0 1 0 1 0 1 0 1)  não dê pra contar até 3.

(*)

Da matemática futebolística ao amor-I-love-you dos filmes, novelas e canções num clicar de botão: 

Ah, o amor! Acredito nele. Na sua forma mais pessoal e direta (eu e tu, olho no olho - que, por incrível que pareça, até pode nos amesquinhar) ou na forma mais abstrata (com todas as letras douradas e maiúsculas: amar a vida, nossos semelhantes, os animais... amar os raio de sol da manhã e do anoitecer... e a lua... e as nuvens que porventura esconderem os dois - o sentimento que afinaria todos os instrumentos e colocaria o mundo em harmonia, com trilha sonora de anjos tocando harpa).

Mas, quer saber? Às vezes acho que o amor atrapalha. Ops, vou refazer a frase pra clarear: acho que, às vezes, falar muito nele e esperar muito dele atrapalha. Há situações em que bastaria um pouco de respeito e gentileza. Utopias podem se transformar em desculpas para a inação, tipo: já que não rola tudo, não quero nada. Uma inversão cruel de perspectiva. Quase uma cegueira.

Se falo isso do amor, dá pra imaginar o que eu falaria a respeito do ódio... mas raramente passo por esse canal.


antes de clicar 
ON/OFF
um abraço
04dez2012