Tramando Mantras - 77




era claro espelho d’água
perfeição que a pedra destruiu
uma onda ... mais  uma onda
outras ondas e já não tem fim
agora é centro do movimento
a qualquer momento pode transbordar

quando a pedra caiu na água
quando o espelho foi ao chão
quem estava ao teu lado
quem estava com a razão

Talvez você lembre de uma postagem feita há semanas em que eu transformava “chato pra caralho” em um mantra verbal...

... pois eu também tenho um mantra especulativo. É o seguinte: fecho os olhos e fico julgando qual seria a pior piada de todos os tempos. Busco na memória anedotas de qualidade decrescente até empacar numa zona nebulosa em que é difícil saber se, de tão sem graça, ainda se trata de uma piada. É neste pântano da graça sem graça que passo um tempo especulando. É nessa coxilha que solto meu pensamento xucro pra pastar: na impossibilidade de saber qual é a pior piada do mundo...

... e me divirto.

(*)

A pior pergunta do mundo, eu sei qual é. Esta: "o que tú tá pensando?". Quando é feita no sentido mais direto, não com a intenção indignada de "quem tu pensa que é?!?" ou "que porra é essa?!?". Que pergunta cruel disfarçada de um simples pedido para que revelemos o que estamos pensando! Geralmente é feita para quebrar um silêncio insuportavelmente cheio de mistérios. 

Todo cara dado a silêncios já deve ter ouvido esta pergunta. Todos que convivem com alguém assim já devem tê-la feito (ainda que sem o vicío de linguagem gaúcho que assassina a concordância misturando ” e “você”).

Tiro pela culatra, a pergunta nos resgata de um silêncio para jogar-nos em outro. Para respondê-la temos que pensar no que estávamos pensando. Somos obrigados a traçar um mapa do acaso que levou nosso pensamento e...  foi-se toda a espontaneidade. Como uma luz acesa de repente que nos cega. Como uma pedra que atinge um plácido espelho d’água que, agitado, já não devolve imagem alguma.

(*)

Uma pedra num lago, uma gota de adoçante no café. Algo que cai numa superfície líquida até então inerte gerando círculos concêntricos que partem em direção às margens.

Tai um mantra visual. 
Um protetor de tela pra minha cabeça, papel de parede mental. Uma imagem distraindo a porção mais excitável do cérebro pra que a parte mais profunda e arredia venha à tona.

Um mantra visual. Para esquecer que as cores têm nome. Esquecer os pontos e as linhas que ligam os pontos para que o quadro se apresente na sua totalidade.
 Sem pergunta nem resposta. Sem "por que?" nem "porque!". Sem sentido, com significado.

(*)

Há tantos assuntos palpitantes sobre os quais palpitar e eu só consigo pensar numa pedra caindo na água.

- Eleições, crimes, julgamentos, lançamentos...

... e só me interessa o espelho d’água, de repente tomado por círculos concêntricos. Quando o último chegar à margem, neste micro tsunâmi numa banheira ou xícara de café, a pedra ou seja lá qual tenha sido a causa, já estará no fundo, terá desaparecido, só restarão consequências. Irradiação fóssil.

- Campeonatos na reta final, celebridades, mais uma crise mundial...

... sigo focado num mantra que cega e faz enxergar.


Diz-se que amigo é aquele cara que ficamos anos sem ver e, quando reencontramos, a conversa flui  como se só tivessem passado alguns dias, misturando bobagens e coisas fundamentais. 
Pois cá estou, me referindo a postagens antigas, profundas e superficiais, com a naturalidade de amigo. Somos? Espero que sim.
um abraço amigo
27nov2012

V(*)(*) D(*) BES(*)UR(*) - 76


Desde 1985, aviões fazem parte da minha vida. Gosto de ver as nuvens de cima e as cidades lá embaixo, mas não sou daqueles que acham voar uma experiência transcendental (se eu tivesse asas, acharia - ou talvez, assim como os pássaros,  nem me desse conta).

Tampouco sou dos que sentem medo. No voo da semana passada, só me dei conta de que estava assistindo uma matéria sobre desastre aéreo na TV a bordo quando o cara da poltrona ao lado deu sinais de que não era o programa certo para assistir a 11.000 metros do chão.

Faço minha prece e tento, pelo tempo que dura o voo, não pensar nas coisas que não estão sob meu controle. Para mim, é só um meio de transporte. Sem o qual minha carreira não teria decolado (com o perdão do trocadilho)...

... e, pelo que lembro de mim antes de decolar, eu não gostava de viajar! Por isso creio num Deus com senso de humor. Quer contar uma piada para ele? Faça um plano.



Uma questão estética me tranquiliza em relação aos aviões: poucos objetos tiveram seu design tão pouco alterado quanto eles através dos anos. Afinal, não há frescura fashion week que resista a 800 km/h numa altitude de 36.000 pés.


Minha companhia aérea favorita é a menor entre as maiores. Seus jatos são um pouco menores por fora e um pouco maiores por dentro. Seu pecado, a meu ver, é macaquear uma informalidade marqueteira. Tipo: já ouvi pilotos fazendo discursos engraçadinhos sobre a cidade onde pousaríamos, até indicando onde se tomava a melhor caipirinha. Confesso que prefiro os tradicionais “horário e temperatura locais” ditos com voz impessoal.


Nos vídeos, essa companhia se orgulha de algumas “ações de marketing”, tipo: rave em pleno voo! Sim, aeromoças e aeromoços com óculos coloridos, plumas e colares luminosos. Espero que não façam em voos regulares; eu seria obrigado a abrir a saída de emergência e saltar.


São frequentes os vídeos sobre surfe e praias paradisíacas nos voos. Para desestressar executivos, imagino. Desconfio que sejam só uma desculpa para filmarem meninas bonitas de costas, da cintura para baixo.

Quando rola algum comunicado da cabine, a exibição dos vídeos para - a imagem congela -  para que todos prestem atenção. Numa ponte aérea, na hora do rush, num voo cheio de ternos e gravatas e laptops com planilhas descritivas  (um clima frenético de negócios no ar) congelou a imagem do vídeo numa linda menina, de biquíni, de costas, da cintura para baixo. Isso mesmo, uma bunda nos mais de 100 monitores de vídeo. E todos mantivemos aquela cara blasé...

Dos males, o menor.


Creditam muitas frases ao poeta Mário Quintana. Não sei se ele falou mesmo que “o problema de voar não é o avião, é o buraco que fica embaixo o tempo inteiro”.



Sempre achei que pessoas em férias e a trabalho não deveriam compartilhar o mesmo voo. Um desses grupos é muito mais estressado do que o outro. Me refiro às pessoas em férias, é claro. Na ânsia de aproveitar tudo do primeiro minuto à última gota, são capazes de enfartar se não sentarem na janela, se o refrigerante não estiver na temperatura exata, se a aeromoça não for a Scarlet Johansson e se o avião não parar no finger.


Barcos são mais usados nas metáforas do que aviões, né? São mais familiares. Nossa melancólica raça  cruza os mares há mais tempo do que os ares. Do bote salva-vidas ao Titanic, passando pela Arca de Noé, imagens marítimas são frequentemente utilizadas para simbolizar a trajetória ou o estado de um ser humano ou de toda uma civilização. Estamos no mesmo barco... remem na galés... nau à deriva... foi a pique...

Mas há algo que a experiência aeronáutica deixa mais claro do que a náutica: a convivência, dentro de cada um de nós, das ideias mais modernas e do primitivismo das cavernas. Nós, que inventamos a maravilha que pesa toneladas mas voa, somos os mesmos que mesquinhamente furamos a fila do check in, colamos o chiclete mascado sob o acento (que em caso de pouso na água será usado como uma boia fedendo a tutti-fruti) e reclamamos grosseiramente das aeromoças porque achamos que, ao comprar uma passagem, também compramos um time de escravos.

Gosto de ver como o grande pássaro de metal humaniza os seres mesquinhos e arrogantes que somos, sentados em seu interior, entediados, com um copo de suco numa mão e um relógio que parece parado na outra. É só balançar um pouco, passando por uma zona de turbulência, para nos vermos frágeis como realmente somos, colocarmos o rabo entre as pernas e suavizarmos o olhar. 

O efeito às vezes é duradouro: até somos capazes de ajudar alguma pessoa idosa a retirar as bagagens da esteira. Num mundo ideal, esta humanização seria permanente. Até resistiria à batalha pelo táxi do aeroporto. 




um abraço fróide-flinstoniano
20nov2012

Intuiçã(*) - 75



Reza a lenda corrente nos estúdios porto-alegrenses que um grande músico nativista de tempos idos teria dito “depois que inventaram este tal de arranjo, acabaram com as minhas músicas”.

(*)

Meu tio Antoninho - com a sabedoria de quem observou a vida por décadas através do balcão de uma banca no abrigo de bondes da Praça XV onde vendia, entre outras coisas, fumo de rolo e pedras para isqueiro - um dia me disse: “o que está estragando o mundo é este tal de evento”.

(*)

Dá pra sacar que nem o compositor gaudério nem meu tio estavam familiarizados com aquelas palavras que, de repente, começaram a ouvir com frequência. Toda canção tem um arranjo, elaborado ou não (da nona de Beethoven executada nas salas de concerto ao Parabéns a Você dos aniversários). Quanto aos eventos, eles acontecem desde que o mundo é mundo, a criação do universo foi o primeiro. O que as palavras “arranjo” e “evento” significavam para os dois? Talvez a pergunta correta seja: o que a popularização destas palavras significava?

Mesmo sem a compreensão literal dos termos, por linhas tortas, ambos fizeram um diagnóstico certeiro - atiraram na igreja e acertaram no padre. Nas suas reclamações vislumbraram um mundo onde o acessório estava se tornando o principal. Arranjos na frente das composições, produtores na frente dos músicos, fama precedendo feitos, igrejas na frente da religião, a carroça na frente dos bois. A espetacularização do que é banal, a banalização do que deveria ser especial.

Baita intuição!


É impressão minha ou está, de fato, rareando o uso da intuição? Será esta impressão uma intuição equivocada? Começo a desconfiar que a abundância de dados que temos à disposição nos acostumou mal. Ficamos mimados. Atrofiamos o sexto sentido. Fico pensando como os médicos diagnosticavam e curavam quando não dispunham dos modernos exames de imagem. Como sabíamos do que gostávamos antes das listas de 10+? Como sabíamos o que odiávamos antes das redes sociais?

Se a necessidade é a mãe da invenção, talvez a escassez de informação ordenada, racional, seja a mãe da intuição. O faro se aguça. Do pouco, tiramos o máximo. Altos teores de concentração, mas uma atenção  inconsciente, se tal é possível. A tensão relaxada de um ninja. Sentir com inteligência, pensar com emoção.

(*)

Alguns cientistas políticos dizem que o espectro político (da esquerda à direita) tem a forma de uma ferradura: um objeto em que os extremos estão mais próximos entre si do que do centro. Interessante... talvez a imagem da ferradura também se aplique ao nosso assunto: o excesso e a escassez de informação,  talvez, se assemelhem, e, nos obriguem a, mais do que saber, intuir. Ler nas entrelinhas.

(*)

Sinto que um número crescente de pessoas me vê como um estrategista metódico. Consultam-me sobre rumos a tomar e elogiam minha disciplina. Talvez tenham razão, mas eu, sinceramente não me vejo assim. Dois fatores causam esta impressão: (1) de fato, me dou bem com os ciclos, sejam eles de semanas, meses, anos ou mesmo instantes. Gosto destes ritmos, entendo essa música. (2) tenho facilidade para alinhavar palavras e explicar trajetórias percorridas, o que dá a falsa impressão de que as planejei. Mas... podem crer que, na hora do mergulho, na escuridão de águas densas, é uma mão que desconheço que me leva.
abraços
13nov2012

Networking, que p(*)rra é essa?- 74


Nas asas do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE, tenho participado de bate-papos muito bacanas. Os mais recentes foram nas feiras do livro de Natal e Porto Alegre. Num deles, me perguntaram qual era a revolução quente, a política ou a poética?

Uma dessas perguntas que, de tão vastas e vagas, nos seduzem e aprisionam numa areia movediça em que cada palavra leva a outra sem que cheguemos ao centro da questão. Desde o início eu sabia tratar-se de uma deliciosa armadilha (qual não é?) mas como o objetivo destes encontros não é vomitar certezas, é pensar alto (êta objetivo subjetivo!), me aventurei em cotejar as tais revoluções política e poética.

No meu devaneio, não cheguei a nenhum lugar que mereça ser mencionado, mas passei por paisagens interessantes. Lá pelas tantas o assunto passou ser “o sucesso”. Perguntas que frequentemente ouço: como se chega ao, como se convive com, o que é o... sucesso.

Entendo tanto disso quanto de física quântica: nada. Mas se sou sincero, dizendo não ter o que dizer,  parece que estou me fazendo de morto pra ganhar sapato novo. Então falo algumas precárias frases e defino sucesso a partir de uma experiência que vivi em dezembro de 87, no início de uma tarde de calor escaldante no Rio de Janeiro, sob um sol que parecia me chicotear, em plena Siqueira Campos, em Copacabana...


... andava pela rua tentando captar no mormaço a quantidade de oxigênio que meus pulmões pediam no deslocamento entre o ar condicionado do estudio e o ar condicionado do hotel quando um som ao mesmo tempo estranho e familiar me atraiu...

... a porta de metal, dessas que se abrem enrolando pra cima (uma mistura de cortina com tampa de lata de sardina), estava aberta pela metade. Tive que me abaixar um pouco para descobrir a origem do som que me atraíra. Assim que meus olhos se acostumaram à diminuição brusca de claridade, vi um pedreiro retirando o piso à porrada. Uma névoa de caliça e suor sobre sua pele fazia-o parecer um fantasma de peça de teatro estudantil...  

... marcando o tempo com o esporro da picareta na cerâmica e misturando canto e assobio, ele fazia uma versão incrível de Terra de Gigantes. Ali estava minha música respirando a vida real sem nada condicionando o ar ao seu redor...

... tratei de seguir caminhando com medo de que ele me reconhecesse. Sem me dar conta de que, na época, só me conhecia quem se ligava nas bandas iniciantes: pouquíssima gente. Nem em sonhos  passava pela minha cabeça que meu público cresceria e eu viraria um rosto reconhecível. 

Aquela cena me bastava para resumir o sucesso: minha música chegando onde eu, a paisano, pessoa física, não chegaria. Asas generosas.


As palestras de autoajuda empresarial são, ao lado das coberturas dos fashion weeks, meus programas humorísticos favoritos. Dia desses, ouvi um "gurú da administraçao" ressaltando "o poder do networking". Networking? Que porra é essa? Aos poucos fui entendendo que ele se referia às relações pessoais, o bom e velho círculo de amizades. O "mago empresarial" via estes elos como conexões frias para chegar a objetivos calculados. Tudo isso coberto, claro, por um fino verniz de sorrisos e abraços.

Networking, veja só! Vivendo e aprendendo.

Tudo bem, nao tenho nada que me meter no oficio dos outros. Cadum cadum. Mas fiquei com a pulga atrás da orelha e comecei a notar vestígios deste tipo de atitude em vários segmentos, entre pessoas físicas - a paisano. Três toques na madeira, knock knock knock, sai pra lá.

(*)

Para que nossos gestos cheguem onde nós não chegaríamos, é preciso mais do que networking. Há um salto misterioso aí que foge da compreensão matemática. Quem pula não é, literalmente, uma pessoa física.

(*)

Entre o amor puro e desinteressado e o convívio interesseiro em que só interessa o que se ganha - dois extremos - se situam todas as nossas relações. Cada um faça o mix que lhe aprouver. Mas fique sabendo que...


um abraço
político ou poético
ou melhor:
um abraço sem definições 
nem adjetivos
...
puro abraço
6nov2012