Janela de (*)p(*)rtunidade - 73



A expressão janela de oportunidade ficou popular de uns tempos pra cá. Provavelmente foi resgatada de outros ambientes pelos livros de autoajuda empresarial que reinventam a roda a cada semestre. 

Não sei qual seria a origem do termo. Sei que, hoje, ele é usado nas mais diversas situações - de políticos procurando a hora certa para lançar candidatura a atletas querendo saber por quanto tempo, depois do exercício, devem consumir proteínas para ganhar massa muscular. 

Eu sempre associo janela de oportunidade ao mundo das viagens espaciais. Imagino uma nave com um período de tempo limitado para entrar em órbita e voltar para casa. Se perder a chance, vagará eternamente pelo cosmo infinito (trilha sonora tensa, close nos olhos do comandante, propulsores a toda força, tchaaaaaannnnn).

É interessante  que uma imagem tão física - janela: uma brecha nos tijolos, um furo no muro - seja usada para descrever algo tão impalpável: o tempo certo.


(*)

Algumas pessoas levam muito a sério esse lance de janela de oportunidade. Correm ofegantes sob a angústia de que a passagem se feche a qualquer momento; de que seja a única e nunca mais se abra. Nessa ansiedade, acabam fechando - além da janela - os olhos para caminhos alternativos.

Nada me parece ser tão radicalmente definitivo na vida. Ok, ok, tens razão: a morte é. Mas a maneira como nos relacionamos com ela, não. 

São várias as variáveis, sempre. E bastou terminar a frase anterior para que estas variáveis já sejam outras. Mesmo o jogo que termina 1x0 não é decidido por um lance só. Namoros não começam por um único beijo e não terminam por um único motivo.


(*)

Mas, tudo bem, vamos admitir que se feche a tal janela de oportunidade. Então... que tal colar um pôster ou fazer um desenho na parede? Isso não te basta? Entendo... Hey, o que tens na tua mão? Uma picareta? Vais abrir uma janela na marra? Ok, tô na torcida!


Bah: A blessing in disguise é uma expressão gringa que acho linda. A versão brasileira é mais direta e menos poética: há males que vem para bem. Seja em que idioma for, o importante é ter em mente que se alguém bateu a porta na tua cara, se concretaram a janela de oportunidade, talvez seja uma benção disfarçada – a blessing in disguise.


o que estava escrito em pedra, 
mesma merda lesma lerda dissolveu 
o farelo, as migalhas com o tempo o vento espalha 
isso não me cheira bem 

o tempo vai passando o passado vai pesando 
o futuro ninguém sabe ninguém vê 
vai abrir uma janela de oportunidade 
esteja pronto de verdade pra saltar 

bora...

braços abertos
janelas abraços
30out2012

A f(*)rça d(*) silênci(*) - 72


Se um gaúcho te disser "'qualquer coisa, prende o grito", pode chamá-lo se precisar de algo. É este o sentido da frase para nós. O contrário do grito preso na garganta que Chico Buarque canta em Cálice. Cale-se, só que não. Soltar o verbo. É este  o espirito de "prender o grito" para gaúchos.

(*)

Gritar, desabafar, é bom. Até certo ponto - como tudo na vida. Como sempre na vida, é difícil saber onde - raios! - fica este ponto de equilíbrio.

Gritar, desabafar, pode ter o efeito contrário: pode aumentar a pedra no caminho (ou no sapato) que gera a angústia que precisa desabafo. Tipo aqueles dias muito quentes ou frios demais em que todo mundo que encontramos reclama do calor do cão e do frio de rachar. E cada comentário só faz realimentar o desconforto da temperatura extrema.

Há situações em que talvez seja melhor engolir o grito. Com água quente e erva mate.

(*)

O silêncio de quem tem algo a dizer é igual ao de quem não tem? Como saber se, visto (ou melhor: ouvido - ou melhor ainda: não ouvido) de fora, todo silêncio é igual?

(*)

4'33" é uma peça (uma música? um happening?) do compositor vanguardista John Cage. Composta originalmente para qualquer instrumento, geralmente é interpretada ao piano. Não sei se cabe usar o termo "tocada" pois, na peça, o músico deve ficar exatos 4 minutos e 33 segundos ao instrumento sem tocar nenhuma nota.

Radicalizando a noção de que o silêncio faz parte da música, em 4'33" Cage colocou o silêncio no comando para que os ruídos, sempre existentes, sejam a música. Longe de ser um solo de nada, é um mix de tudo, de qualquer coisa....

... um achado! Dizem que ser genial é ver o óbvio antes dos outros. Se não fosse Cage, alguém, em algum momento, certamente teria esta ideia. Como toda peça "de vanguarda", "experimental" (termos sempre inexatos), ela se presta a muita especulação e picaretagem.

Frequentemente, este tipo de manifestação artística conceitual faz mais sentido em páginas de livros e trabalhos acadêmicos do que em salas de concerto, museus e no dia a dia. Mas sempre que penso no silêncio, 4'33" me vem à mente...

... será que qualquer um pode "executá-la" tão bem quanto um grande pianista? Todo silêncio é igual?

O GRITO
Edvard Munch
um abraço barulhento e silencioso
23out2012

Tweet c(*)m n(*)ta de r(*)dapé - 71



Pela contabilidade subjetiva dos comentários que recebo, O DIA EM QUE DEIXEI DE SER CRIANÇA é o texto que mais cria empatia com o leitor do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE. Enquanto o escrevia, eu descobria (ou queria acreditar) que era um texto infinito: até o último suspiro espero ter motivos para deixar de - e voltar a - ser criança.


Deixei de ser criança quando ouvi pela primeira vez minha música numa rádio mainstream. Eu já tinha ouvido algumas delas várias vezes na rádio alternativa que, valorosamente, tocava fitas demo das bandas locais (Sim, fitas! Sim, demos!! Sim, das bandas porto-alegrenses!!!).

Mas ouvir minha voz, minha banda, minha composição numa daquelas rádios que só tocavam as mais tocadas foi algo estranho. Diferente do que vejo nas biografias de outros artistas, não foi um êxtase transcendental. Nenhuma epifania. Foi uma sensação dúbia: felicidade e temor, drama e comédia (ok, ok, talvez eu seja um Garoto Enxaqueca Veterano: nunca satisfeito, sempre querendo olhar atrás da porta).

Quis o destino que eu estivesse experimentando calças quando ouvi minha música pela primeira vez numa dessas rádios que tocam em lojas de departamentos. Não há espaço mais desprovido de heroísmo e “clima” do que um provador de roupas - um exíguo espaço para se usar calças e camisas que ainda não são nossas.

Eu estava ali - prisioneiro na gaiola formada por duas paredes, um espelho e uma cortininha - quando uma frase de guitarra anunciou que Fidel e Pinochet estariam para sempre juntos no início duma canção duma banda estranha duns gaúchos esquisitos.

Parecia que uma enorme lente de aumento havia sido colocada sobre o sentimento de inadequação que sempre me acompanhou; ou que uma daquelas lâmpadas de sala de interrogatório onipresentes em filmes de detetive do cinema noir cegava meus olhos. O que eu deveria absorver daquela experiência? Que eu alcançaria, via música, pessoas que não tinham e nunca teriam nada a ver comigo? Que  alcançaria companheiros de jornada que nunca teria encontrado não fosse minha música? Que ruim, que bom.

Tive vontade de sair correndo, mas a calça que eu estava usando não era minha e nem me servia bem e eu estava descalço e minha meia provavelmente estava furada e o provador ficava a milhas e milhas e milhas da porta de saída da loja.

Eu me orgulhava da canção e da trajetória da banda, é claro. Mas era estranho ouvi-la entre cabides, consumidores e atendentes; na escada rolante, em meio ao burburinho da praça de alimentação. Era frustrante constatar que a canção não fazia o mundo parar. Nenhum anjo apareceu cavalgando um cavalo marinho azul. No máximo alguém cantarolou e bateu o pé na fila do caixa. Deixei de ser criança.

Felizmente, voltei à infância no último acorde, quando renasceu a certeza de que, se a canção tocasse outra vez, o mundo pararia, tudo ficaria suspenso e um enorme coro de anjos montados em alazões azuis alados flutuaria fazendo backing vocals entre as roupas e eletrodomésticos de todas as lojas de departamentos da Via Láctea. E todos os probemas estariam resolvidos (ou - ao menos - revelados).


Bah: Falando em textos potencialmente infinitos, o NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE tem outro, chamado PARA ONDE, POR QUE E ATÉ QUANDO?. Nele, conto histórias de voos e aeroportos. Mais uma:

Havia poucos passageiros no voo que nos levou de Copenhague à Moscou (misterioso avião que rasgou a cortina de ferro – rota muito pouco usada na época, ainda Guerra Fria). Só estavam a bordo os Engenheiros do Hawaii e a seleção feminina de futebol da Dinamarca. Nós e duas dúzias de loiras que pareciam ter saído de um tutorial do Photoshop. Com uma cerveja numa mão e um cigarro na outra (sim, ainda era permitido fumar nos voos), Alexandre Master repetia “Tô nas nuvens!”.  E ria mais do que pareceria razoável para quem não estivesse nas nuvens.
um abraço 
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16out2012

Convivência - 70



No tempo em que se falava de política com receio e olhando pros lados, uma piada de humor negro dizia que “a esquerda brasileira só se une na prisão”. E era verdade. Quanto mais aparentemente próximos nas ideias, maior a dificuldade de união na vida real. A regra era subdivisão em correntes, facções e subgrupos. Pra ficar num exemplo folclórico: era quase impossível ver o Partido Comunista Brasileiro e o Partido Comunista do Brasil juntos. 

(*)

Já vi religiosos de crenças bem parecidas (originadas no mesmo cristianismo) discutindo com uma veemência que não usariam em discussões com agnósticos ou seguidores de outras tradições.

Água e azeite, tão próximos e tão distantes.

Tenho mais dificuldade em acompanhar programas da TV de Portugal e da Espanha do que os falados em inglês. Talvez porque a proximidade daquelas línguas com o idioma que falo me faça baixar a guarda... e, com a guarda baixa, levo uns socos gramaticais.

(*)

Muita gente me pergunta sobre a dificuldade de tocar tantos instrumentos no show (teclado e percussão com os pés, violão, viola, piano, gaita de boca e de fole). Minha resposta parece deixar o pessoal confuso: na real, o que mais me atrapalha é que nos 3 teclados que uso (piano, synth e gaita) as teclas tem tamanhos diferentes. Sim, alguns milímetros de diferença nas teclas embaralham minha memória muscular e  incomodam mais do que saltar de instrumento de corda para instrumento de sopro para percussão para teclado.

(*)

Às vezes é mesmo mais difícil mudar pequenos detalhes e vencer pequenas distâncias do que fazer gestos grandiloquentes e dar grandes saltos, né? Mais fácil mudar de profissão do que mudar o modo de encarar a profissão. Mais fácil ir morar em outro continente do que ir dormir no quarto ao lado.

(*)

Bah 1: Narcisismo das pequenas diferenças é um conceito usado por Freud. Se entendi bem, se refere a situações em que o pouco que há de diferente (entre duas pessoas, duas cidades, países) se sobrepõe ao muito que há em comum. 

Ouvi a expressão em dois momentos bem distintos: numa palestra sobre a II Guerra Mundial (que abordava a rivalidade entre nações vizinhas, culturalmente próximas) e num papo com um amigo que achava seus primos chatos e suas primas pouco atraentes (ah, a distância entre parentes próximos...).

Freud, como todo grande poeta, sempre dá pano pra manga. Seja na sala de aula ou na mesa do bar.


Bah 2: Narciso é aquele que (segundo Caetano Veloso na letra de Sampa) acha feio o que não é espelho.


Bah 3: Tentando descobrir mais sobre o tal narcisismo das pequenas diferenças no amansa-burro digital, tropecei numa parábola de Schopenhauer:
Em um gelado dia de inverno, os membros da sociedade de porcos-espinhos se juntaram para obter calor e não morrer de frio. Mas logo sentiram os espinhos dos outros e tiveram de tomar distância. Quando a necessidade de aquecerem-se os fez voltarem a juntar-se, se repetiu aquele segundo mal, e assim se viram levados e trazidos entre ambas as desgraças, até que encontraram um distanciamento moderado que lhes permitia passar o melhor possível.
um abraço e um convite:
quinta, 22h
twitcam MINUANO
seja bem-vindo
seja bem-vinda
09out2012

Anticlímax - 69



Este será um texto violento. E triste. Já aviso de saída para que os leitores com coração fraco busquem outras leituras: sites de notícias, por exemplo. Eu sei, eu sei, a vida está cheia de coisas violentas e tristes... mas fiquem tranquilos, os sites de notícias tratam de escondê-las sob grossas camadas de irrelevâncias, nonsense e exageros caricaturais. Celebesteiras e celebobagens no ar.

Ok, vamos (voltemos) ao triste texto. Que começa alegre:

É dito corrente que avós são pais com açúcar. Tios são quase isso: irmãos mais velhos com açúcar. É sempre divertida a relação com crianças, ainda mais sem a responsabilidade da paternidade. Bônus sem ônus.

Tive dois sobrinhos antes de ser pai. A chegada do primeiro foi uma boa desculpa para voltar a comprar brinquedos e comer algodão doce – ah, guloseimas no parque e brinquedos de plástico! Coisas que a gente só lembra que não acha tão boas depois de comprar.

Houve um natal em que resolvi presentear meu sobrinho com um aquário. Contato com a natureza, senso de responsabilidade no cuidado dos peixes e prazer estético ao vê-los, coloridos, flutuar: tudo isso cabe naquela caixa de vidro cheia de água. Para um tio neo-hippie, parecia um presente bem mais interessante do que os carrinhos, arminhas e super-heróis de sempre.

Confesso que, na loja, me surpreendi com a complexidade do presente. Parecia tão simples... Alimentar os peixes e manter a água limpa, na temperatura certa, talvez fosse algo complexo demais para a criança. Era provável que os pais me amaldiçoassem cada vez que tivessem que executar as tarefas que, certamente, sobrariam para eles.

Mas os peixes eram lindos e as ruas estavam cheias de papais-noéis. Espírito natalino no ar, noite feliz, tudo vai dar certo. Lá fui eu pra casa com aquário, pedrinhas, termostato, comida, não sei mais o quê e um saquinho com peixes de nome estranho que escolhi pela cor.  

Um aquário não é coisa que se embrulhe em papel e coloque embaixo da árvore de natal. Depois de fazer meu pequeno oceano funcionar num canto discreto da sala, escondi-o sob um lençol e esperei (ansioso como criança) a meia noite.

Após a entrega dos outros presentes (que não chegavam nem aos pés do meu pequeno mar enjaulado), levei meu sobrinho ao canto onde o lençol cobria a forma geométrica daquele pequeno lago. No trajeto, usei truques retóricos para aumentar a curiosidade do piá (que, a bem da verdade, tinha mais sono do que expectativa).

Com a criança parada em frente ao mistério, puxei o lençol com um gesto teatral - pompa e circunstância - parecendo um mágico de quinta categoria num circo fuleiro, e...

... PQP!!!! Rápido como um super-herói joguei o lençol de volta sobre o aquário, peguei meu sobrinho no colo, desviei sua atenção para outras coisas e levei-o para o canto oposto da sala dizendo: “vamos brincar com aqueles brinquedos lá, são bem mais legais, aqui não tinha nada não, era só uma maluquice do tio”.

Ainda muito pequeno para se ligar na incoerência dos meus gestos, ele sorriu e ficou entretido com os outros presentes enquanto eu voltava desolado para o aquário. Ao puxar o lençol senti novamente o calor que estragou minha noite por algumas noites: um defeito no termostato fez a água aquecer demais. Os peixes estavam mortos.

Meu sobrinho parecia não ter se dado conta de nada - mas nunca se sabe, crianças são esponjinhas, absorvem tudo...  Nah, acho que não rolou trauma, não. Hoje ele já é adulto,  médico. Que eu saiba, nunca teve chiliques em frente a vitrines de petshop, pratos de salmão grelhado ou quando a chaleira chia. Menos mal.

Eu... confesso que nunca mais senti o mesmo prazer olhando aquários.


(*)

- Qual a moral da história? 
- Quem disse que toda história tem moral?
abraços
02out2012