Ao sul de Liverpool - 68



Mesmo nós, acostumados com sua habitual agitação, estranhamos a inquietação do colega naquele recreio.

{ Ah, o recreio... Doce paraíso iniciado e terminado pelo mesmo som: uma sineta que soava como música no início e como alarme de ataque nuclear no fim. Quanta diferença num mesmo som! 

Eram os 15 minutos que tínhamos para resenhar as novidades do colégio, conversar sobre nossas bandas favoritas e resolver todos os problemas do universo. Tudo isso enquanto jogávamos futebol com uma bolinha de tênis. 2 contra 2. Bancos servindo de goleiras. }

Ele estava com a cara tensa. Parecia tentar engolir um pensamento muito amargo. Desatento para o real motivo de estarmos matriculados naquela escola: os 15 minutos diários de bola. Depois de acalmado o primeiro entrevero do jogo (foi gol, não foi / foi falta, não foi), numa pausa para água, ele desabafou: "Cara, descobri que John Lennon nasceu no mesmo dia do meu velho! Porra, que merda! Tchê, que injustiça!" 

Quando a bola foi recolocada em jogo, o assunto - na verdade, um desabafo que não teve resposta, nem concordância nem contestação - morreu. Não sei quais caminhos tortuosos seu raciocínio percorreu para chegar à conclusão de que ele poderia (no seu entender, deveria) ser filho do John Lennon e de que seria mais feliz caso fosse. 

Eu tinha dificuldade de entender esse rito de passagem: a superação do pai, conquista do espaço próprio, a planta que cresce fugindo da sombra das árvores à sua volta, buscando seu naco de sol... Já sem um pai contra o qual me insurgir, naquele tempo, eu até gostaria de um pouco de sombra.

Tenho me lembrado com frequência daquele adolescente ao sul da América do Sul, nos anos setenta, transformando os normais entreveros entre pai e filho (posso, não pode / vou, não vai) num duelo com o destino. As desigualdades culturais entre Brasil e Inglaterra como pano de fundo para uma angústia provinciana.

Sabendo o que se sabe agora, eu poderia ter retrucado ao meu amigo: “Qual John Lennon?". O beatle foi um pai muito diferente para Julian e para Sean. Sequer foi um marido remotamente parecido para Cynthia e Yoko. Quanta diferença num mesmo ser!

Sabendo o que sei agora, eu poderia ter retrucado: "guarda tuas angústias pras coisas que podes escolher". Mas, naquela manhã, eu só sabia que, se fizesse um gol, voltaria suado mas feliz para a sala de aula.


(*)


bah: enquanto isso... John sempre será um dos meus 4 beatles favoritos.
1 abraço
25set2012

The sun is the same (in a relative way) - 67



Perguntada sobre quais teriam sido os melhores anos de sua vida, uma grande dama do Ballet Bolshoi respondeu “De 1935 a 1940”. Confrontada com o fato de que estes foram justamente os anos mais violentos dos expurgos stalinistas, a veterana bailarina suspirou: “Ah, mas eu era jovem e bonita!”.

Descompasso entre a vida pessoal e o ambiente social é mais do que frequente. Sincronizar os relógios externo e interno é a finalidade de 98,7654321% dos livros de autoajuda, das dicas de gurus esotéricos, e dos aforismos kibados no twitter.

(*)

Entrei nos anos 90 viajando muito, movido por minha arte/ofício. Nos rádios das vans e táxis que me levavam de hotéis a aeroportos, era onipresente uma canção que me irritava pela melodia melosa e pela letra medíocre (e por ser trilha sonora de um blockbuster meloso e medíocre estrelado por Tom Cruise). A azeitona no pastel da minha irritação era o fato de a música ser carregada por uma linha de baixo fretless sintetizado. Dóóin do dóóin do dóóin...

Hoje, minha agenda é um pouco mais tranquila. Nem tanto pela diminuição do número de viagens, que se mantém alto, mais pelas facilidades que foram pintando com o tempo. Há mais opções de voo, há um monte de canais na TV do hotel, um monte de traquitanas digitais para desviar meus olhos e coração do imóvel painel eletrônico que avisa quão atrasado meu voo está.

Recentemente, num táxi para algum aeroporto, depois de muito tempo fui alvejado novamente pela melodia do baixo synth: dóóóin do dóóóin do dóóóin... take my breath awaaaaaaaay. Surpreendentemente, a música causou em mim efeitos geralmente reservados aos meus artistas favoritos. Eu sabia que não gostava dela, mas estava adorando ouvi-la.

Quem teria mudado, eu ou a música? Ou aquilo já não era mais uma música, transformara-se em um portal para outro tempo? É provável. A sensação era parecida com a vertigem de uma decolagem muito rápida em que estímulos físicos (súbita mudança de altitude) se misturam com estímulos psicológicos (partir, chegar - súbita mudança de atitude). 

(*)

Quando alguém fala comigo sobre minha arte/ofício, o que ouço são informações sobre meu interlocutor...

{ putz, que merda de frase pra começar um parágrafo – dificuldade de me concentrar no texto nesta manhã insone no aeroporto de Guarulhos – a mistura do som de um monte de gente falando e anúncios de embarque não ajuda – vou colocar os fones – música! sobe um muro de silêncio à minha volta – agora vai – refazendo a frase: } ...

... quando falamos de arte, estamos falando de nós mesmos. Você acha Bach muito metódico e a voz do Neil Young muito chorosa? Isso revela muito de você, pouco do alemão e do canadense. Quando alguém me diz que este ou aquele é meu melhor disco/livro/música/banda está dizendo tanta coisa...

(*)

Alexandre Master é o melhor técnico de som do mundo e um dos 15 melhores do Rio Grande. Talvez por conta disso, sua mãe colecionava seus cartões de embarque (quando eram feitos de um papel digno de ser guardado). Nah... Pensando bem, acho que Dona Cecy guardaria os cartões mesmo que ele fosse apenas um profissional razoável. Mãe é mãe.

Guardar fatias da vida de outras pessoas (do pai, da filha, Dylan, Justin Bieber...) é mais fácil do que guardar porções da própria que, ao serem vividas, somem para sempre.

(*)

Malandragem porca: descobri que alguns sites têm mau funcionamento proposital (são projetados com links lentos e caminhos mais longos do que poderiam ser) para que as pessoas passem mais tempo ali. Por que? Porque eles faturam vendendo aos anunciantes momentos da nossa atenção, segundos da nossa vida. Se criam uma areia movediça, uma teia de aranha gosmenta, faturam mais. É o que, hoje, chamamos de "gratuito", falando a língua mundial: free (palavra que, originalmente, significava "livre"). 

(*)

Pela dificuldade de classificação, o ornitorrinco (animal considerado a prova de que Deus tem senso de humor) é uma metáfora tão gasta quanto eficiente para misturas mal-ajambradas; mix de alhos com bugalhos.

Na idealização do passado, os saudosistas criam desengonçados ornitorrincos: o cara é a favor de um mundo sem fronteiras mas sente saudade do tempo em que as nações eram mais fechadas; é a favor de um mundo menos desigual mas sente saudade de um tempo com menor mobilidade social; é fã do vinil desde que a bolachona preta possa se materializar em sua casa vindo pelo cabo da www.


(*)

Belchior cantou que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Pode ser. Também pode ser um tecido cortado, costurado, recortado, recosturado, infinitamente... Em permanente construção. Tão incerto quanto o futuro.

Ops, chamou meu voo. Fui.
abraço
18set2012

TUD(*) ESTÁ PARAD(*)? RECARREGAR! - 66



Não sou insensível às ondas. Até tenho bom ouvido para elas. Noto rápido quando muda o design das abas dos bonés e quando elas são usadas para proteger - do sol ? - a testa ou a nuca. Quando a moçada adota chapéus Fedora (...tipo Chicago nos anos 40...) meu radar dispara. Apesar de não ser da minha conta o que se passa dentro ou fora da cabeça dos outros.

Capto rapidamente o espírito da coisa quando, do nada, começo a ver um monte de gente tocando ukelele e escaleta ou fazendo de conta que precisa das últimas traquitanas high tech para saber, em tempo real, com um leve toque na touch screen, qual a umidade relativa do ar no sul do Gabão.

O que eu não sei fazer é surfar essas ondas. Respeitar o tempo delas, às vezes, se confunde com ignorar o meu. E isso ninguém deve fazer. Quem eu seria se não fosse o cara que gravou discos de roque progressivo no auge do grunge?

No meu mundinho, vejo canções rodopiando como fossem dados lançados por uma mão misteriosa. Eles nunca param de rolar. Como pedras que rolam, não criam limo. Que número vai dar? Ninguém saberá o fim desta história. 

(*)

Quando conversei com o Rogério Flausino sobre a participação num show do Jota Quest em POA, ele disse que estavam preparando um novo disco e perguntou se eu tinha alguma letra para "parceriar". Infelizmente eu não tinha nada... nada muito pronto... só uma nuvem de meios caminhos, frases inacabadas, becos sem saída, sílabas esperançosas e confusos embriões. Ideias paradas esperando outras palavras.

Talvez catalisados pelo encontro, no caminho de volta pra casa pintaram uns versos. Confesso ter ficado um pouco constrangido ao mandar para o novo amigo mineiro uma letra poucas horas depois de afirmar que estava passando por um período de seca (digamos encubação, para não ficar tão dramático).

tudo está parado
esperando uma palavra
os carros e o metrô
tudo está parado

o vento que ventava
a janela que batia
tudo está parado
esperando uma palavra

o braço do pintor
o martelo do juiz
o disco voador
todos os satélites

a onda e o surfista
o protetor de tela
tudo está parado
esperando uma palavra

a pancadaria
no filme de ação
o solo da guitarra
antes do refrão

a noite que caia
o ciclo das marés
a fumaça que subia
pela chaminé

tudo está parado
esperando uma palavra
tudo está parado
esperando uma palavra

fiz uma pergunta
no escuro deste quarto
e agora o mundo inteiro
espera uma palavra

diz aí
o que eu quero ouvir
diz aí
o que eu preciso ouvir

(*)

Muito afim que sou de misturar elementos da música regional gaúcha no meu som, mandei pro Duca músicas do Luiz Carlos Borges e do Gaúcho da Fronteira (todas em compasso ternário, o bom e velho 3/4) e pedi que ele compusesse algo desse tipo para eu colocar letra. Pintou Recarga!:

recarregar - reiniciar
reinventar - reabastecer

arriou a bateria
e o dia mal começou
virado num bagaço
o cansaço me pegou

combustível na reserva
troco a erva do chimarrão
não tá morto quem peleia
game over ainda não

alimento pra usina
em cada esquina:
imaginação
o dia só tá começando
começando a reação

recarregar - reiniciar
reinventar - reabastecer

trânsito parado
um trem sem humildade
cada um no seu vagão
queimando o  carvão da vaidade

super slow motion
low battery adeus wi fi
essa fila tá parada
a outra fila vai que vai

a gente vai peleando
não dá pra se entregar
o dia só tá começando
começando a melhorar

recarregar - reiniciar
reinventar - reabastecer

(*)

Por coincidência, toquei - com o Trio Grande do Sul - esta música no Galpão Crioulo (tradicional programa do tradicionalismo gaudério - com o perdão da tradicionalíssima redundância) no mesmo dia em que o Jota Quest gravava o clip de Tudo Está Parado em Sampa. Durante os preparativos e a gravação com o TGS, eu trocava DMs com Flausino sobre palavras a serem "desenhadas no ar" pelas personagens do clipe. Foi só então que me dei conta de que as músicas eram irmãs. Duas manifestaçãos do mesmo estado de espírito: a constatação da paralisisa e a necessidade do movimento. 

Bacana reconhecer que os dados lançados pela mão generosa seguiram rolando. Encontraram seus caminhos e encontraram-se no caminho; apesar da distância entre Porto Alegre e São Paulo. Sons urbanos e pampeanos, noturnos e solares, do bandolim e do pro tools, da pista lotada e do solitário fone. Lado a lado. Ao menos na minha cabeça. Este é meu mundinho: o mundão destes encontros.

(*) 

bah 1: junto com a letra, mandei pro Flausino um video beeeeeeeeem caseiro; só pra ele ter noção da divisão que eu imaginava (às vezes, numa composição, pinta a escolha de Sofia: privilegiar a divisão da frase musical ou do texto?). 

Depois de mandar o video, me dei conta de que era uma péssima ideia. Eu deveria ter mandado a letra  falada. Não queria que a melodia influenciasse ele. Mas obviamente ela ficaria como um fantasma atrapalhando suas ideias. Por sorte, problemas tecnológicos (formatos, plataformas, vivo, oi, claro, tim...) impediram que o vídeo chegasse em Minas antes das ideias para melodia, harmonia e arranjo. Na real, Rogério só vai ver o vídeo agora:
http://www.youtube.com/watch?v=-KY-I2vrQu8&feature=youtu.be


  
bah 2: quase ia me esquecendo: hoje, 22h, twitcam do GLM. Queria escrever algo sobre o disco, mas... o que não foi escrito nos meus livros, em jornais e revistas, nos diários de fãs, em linhas tortas, nas portas da percepção, em paredes de banheiro, nas folhas que o outono leva ao chão, em livros de stória, sem muita pressa, com muita precisão, sem ser impresso, à mão, à luz de velas, quase na escuridão, longe da multidão?

Só me resta mandar um abraço aos queridoidosdeatar Maltz e Licks. E avisar que minhas twitcams partem do repertório mas não querem reproduzir o disco. E te convidar a pintar lá!

bah 11: 11 anos depois do ataque de 11 de setembro eu queria dizer algo, mas... o quê?


abraços
11set2012

N(*) JARDIM DAS IR(*)NIAS - 65



tent'entender a minha ironia
se eu disser que já sabia

Num intervalo de poucos dias recebi dois convites para escrever orelhas de livros. Fiz com gosto pois eram projetos originais e interessantes.

Um dado irônico: o número de leitores da orelha tende a ser maior do que o número de leitores do livro. Pela lógica, haverá mais pessoas que lerão a orelha mas não lerão o livro do que o contrário. Pra aumentar a ironia: se a orelha for mal escrita, desestimulando a leitura do livro, maior será (a seu favor) a desproporção entre o número de leitores deste e daquela.

Esse devaneio abriu a porta e meu espírito escapou... foi vagar no jardim das ironias.

(*)

“Ironias do destino” é uma expressão que parece humanizar o imponderável. Pessoalizando, tira um pouco da truculência que as reviravoltas podem ter. Imagino o Sr Destino (hey, não é um nome absurdo, parece Justino, Severino, Firmino, Celestino...) com um senso de humor afetado, escondendo com a mão o sorriso de uma boca sem lábios sob um bigode atemporal e bem aparado - um bigode mais francês do que gaúcho.

 (*) 

Enquanto ouvia um executivo de gravadora chorar as pitangas pelo fim da indústria fonográfica (segundo ele, causado pela pirataria), eu observava, na parede atrás dele, os pôsteres dos mais festejados artistas do cast : um grupo cujo principal instrumento era o shortinho da dançarina e um padre. Nada contra sexo ou religião, só que... ah, vocês sacaram a ironia do destino, né?

Imperadores nunca se dão conta de que impérios caem por uma conjunção de causas externas e internas.

(*) 

Ironicamente, alguns veículos de comunicação que, com muita frequência, me convidam para falar de futebol raramente noticiam minhas atividades como músico ou escritor. A lei ali é imutável: cachorro mordendo pessoa não é notícia; pessoa mordendo cachorro, é. O inusitado é que vale. Sempre. Mesmo que a exceção se transforrme em regra.

(*) 

Ver gente nos aeroportos carregando seus travesseiros é cada vez mais raro e cada vez mais me espanta. Não quero me meter nos hábitos noturnos de ninguém, cada um com sua dependência (até sou fã do Linus, eternamente agarrado ao seu cobertor). Mas carregar travesseiros sem proteção, com a fronha exposta, por aeroportos, aviões, táxis e lobbies de hotel, além de anti-higiênico, me parece uma exposição muito grande de fragilidade. Pouca coisa é tão íntima quanto o suporte da nossa cabeça enquanto dormimos.

Por ironia, na última vez que presenciei tal exposição de delicadeza, quem protagonizava a cena era um adolescente com boné de aba reta, tênis de esqueitista desamarrado e calça com cintura baixa expondo a cueca. A meiga dependência do travesseirinho não combinava com a linguagem corporal um tanto insensível do menino. Lembrei do título de um filme: os brutos também amam.

é muito engraçado
que estejam do mesmo lado
os que querem iluminar
e os que querem iludir

bah : querem saber qual eram os livros para os quais escrevi as introduções? Vou deixar que os autores lancem. Seria a ironia das ironias se um escritor de orelhas não reconhecesse seu lugar na história.
abraços
04set2012