T(*)PACA - 64



segunda feira blues
a vida no maior sufoco
e os caras de papo furado

Além do silêncio, é preciso estar com a cabeça vazia para ouvir os próprios passos. Não é comum. Seria insuportável ouvi-los sempre. Dar-se conta de cada piscada de olhos, ser consciente da escura fração de segundo cada vez que a pálpebra desce para lubrificar o globo ocular, fragmentaria tudo que vemos. Quebraria para sempre tudo que queremos unir.

É preciso ignorar algumas coisas para conhecer outras. Vale o mesmo para os sentimentos. "Sentir tudo com intensidade total" são palavras que ficam bem em livros do século XIX ou canções dos anos 60; na vida real, a tradução pode ser "não sentir nada".

Mas estados de hipersensibilidade ou sensibilidade embotada (opostos que dão na mesma) às vezes pintam. Há que lidar com eles. Para mim, eles costumam acontecer no fim dos ciclos, quando o cansaço  acumulado - que era contido pela excitação do vir a ser - cobra seu preço.

Datilografo este texto e ouço o barulho das teclas. Não é comum. Seria insuportável ouvi-lo sempre. Estou naquele (neste) estado em que tudo parece falar alto demais. Por sorte, tenho um mantra salvador que me redime. Quase uma oração. Num misto de desabafo e súplica, exclamo mentalmente: “Chato pra caralho!”. Pronto, descarrego. Alívio imediato.

Não bastam as palavras, o ritmo também é importante: ênfase nas consoantes, um "ch" longo, pausa dramtática depois do "a", desfecho percussivo como patas de cavalos velozes em tonalidade descendente. Mais ou menos assim: “Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!”.

Mensalão, futebol, mesa redonda?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Telefone, email, menu?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Gracinhas na TV, candidatos a vereador?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Hotel, aeroporto, solos de guitarra?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Gente fina, sorriso, cara mala, chororô?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Beijinho, rockinho, diminuitivinhos?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Filmão, sonzão, vamo tirar o pé do chão?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!
Perguntas, cobranças, planos, promessas,
juras de amor, camaradagem de elevador?
Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!

Nem tudo é chato pra caralho. Dizer “tudo” é morrer. O mantra ajuda a chegar às coisas que nunca são chatas pra caralho: um par de olhos, um por do sol... 
...um abraço
28ago2012.


bah 1: Nietzsche deve ser o pensador mais mal citado da história, se tal ranking houver. Os gênios causam este efeito colateral: dão a impressão de que é fácil repetir seus feitos. Por isso há um bando de bandas guinchando inspiradas no Led Zeppelin; um monte de barrigudos sentindo-se Federer no fim de semana.

Numa livraria de aeroporto me assustei com o título: “Nietzsche Para Estressados”. Estão de sacanagem!

“Quando Nietzsche Chorou” é mesmo de chorar. Ele choraria se visse, êta filme ruim! Não sei se a culpa é do livro que o originou; intuo que não seja.

Quando eu estava na faculdade, o rádio-relógio me acordava muito cedo. O sono e o silêncio eram interrompidos por um programa de notícias e variedades. No encerramento, o locutor lia um pequeno texto motivacional que sempre terminava com as palavras “sim à vida”. Segundo ele, o bordão era inspirado no velho Friederich. Às 7 da manhã?!? Nietzsche numa rádio AM de POA?!? Sei...

bah 2: Paro de escrever por um isntante. O pensamento voa. O screen saver entra em ação. Por um momento a tela fica escura. Reflete meu rosto. Eu, Chhhhhhhá - - Topaca - Ralho!

bah final: Sempre quis terminar um texto com um emoticon:

=)


F(*)RMA E FUNÇÃ(*) - 63


aerodinâmica num tanque de guerra

A relação entre forma e função era um dos assuntos preferidos no bar da Escola de Arquitetura. Em meio a conversas sobre nossas colegas, música e futebol, rolavam altos devaneios sobre forma e função em projetos arquitetônicos e design.

Para os modernistas, a forma deveria refletir a função. Nada de decoração ou enfeite nas colunas ou fachadas. Tudo exposto, a racionalidade da estrutura fazia a beleza do prédio. Para os pós-modernistas, simular colunas gregas não era um pecado - na busca da beleza (ou do impacto) a função poderia ser um fardo a ser escondido. 

Confesso que eu balançava entre os conceitos, ora preferindo um, ora outro. Gostava muito do bule de café desenhado pelos alemães da Bauhaus, puramente funcional, sem frescura. Mas também gostava da minha chaleira pintada como se fosse uma galinha.

Um baixo Steinberger, com seu design espartano, ou o baixo em forma de garrafa de Jack Daniels do cara do Van Halen e o baixo em forma de machado do cara do Kiss me fascinavam da mesma forma. Ops, acho que exagerei. Baixo em forma de garrafa ou machado é demais pra mim.


Não sei como vocês se mantém informados sobre as novidades musicais. Eu não ouço rádio para este fim há décadas. Procuro as coisas que me interessam na www. Sobre o que está bombando no momento, eu me informo pelos vídeos que tocam na academia onde me exercito - o que me deixa sempre um ano atrasado em relação ao que é sucesso.

Semana passada, estava na esteira correndo e assistindo ao amistoso do Brasil contra a Suécia quando acabou a bateria do meu tocador de MP3. Tirei os fones e notei que, no outro monitor e nos autofalantes da sala, rolava um DVD com uns sambas muito agradáveis. Regravações da década de 70.

O pessoal da academia sempre coloca vídeos de artistas que desagradem ao menor número possível de clientes.  Mesmo que não agradem muito a ninguém.  É a lógica do musak e do papel de parede: passar batido; estar não estando. Mas aquele samba soava realmente agradável. Segui de olho no jogo e ouvindo o laialá-laiá.

Lá pelas tantas me surpreendi com os caras cantando Sunday Bloody Sunday do U2. E cantavam o domingo sangrento com uma radiante cara de felicidade! Sorrisos, dança e firulas no pandeiro e cavaquinho. Genuína alegria enquanto cantavam “and today the millions cry / we eat and drink while tomorrow they die”. Forma e conteúdo, cada um num planeta.

Fique claro que não vai na minha observação nenhum sentido de crítica. Eu sei: não sermos literais às vezes faz nossa beleza. Para mim, por exemplo, Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles E Os Rolling Stones algumas vezes é uma música sobre um sonhador atropelado pela realidade da guerra. Mas quase sempre é uma canção que eu ouvia quando criança e que me fez pedir um violão para meus pais. Algumas vezes o refrão é uma rajada de metralhadora, outras vezes são sílabas boas de ritmar. Duas formas expressando o mesmo conteúdo. Acontece.

(*)

Em planetas muito distantes estão forma e conteúdo quando os times de futebol gritam o Pai Nosso antes dos jogos ou depois das vitórias, né? Num tom de voz guerreiro, em ritmo marcial, eles não parecem estar pedindo que sejam perdoadas suas ofensas e que venha a eles o reino dos céus: parecem estar ordenando isso! Deus deve morrer de rir quando ouve (sim, acredito em um Deus com senso de humor).

(*)

Teólogos designados pelo Vaticano para estudar o caso estabeleceram que tablets não podem substituir a Bíblia e o Missal na liturgia. Argumentaram que é preciso preservar o ritual, que não faz sentido passar incenso ou carregar em procissões um objeto que pode servir para acessar coisas impuras, que a bateria do troço pode acabar no meio da cerimônia ...

Eu mesmo acho estranho gravar discos no mesmo equipamento que se usa para escrever livros, ler fofocas, pagar contas, ver videos, brincar de soldado e de piloto de F1.

(*)

Talvez eu devesse escrever sobre forma e função noutra hora, com mais calma. Assunto tão vasto e interessante... mas eu vi uma betoneira petit pois pela janela! Não resisti.


Bah: que os designers modernistas não me leiam: a função da minha chaleira não é só apitar avisando que a água ferveu. Ela é uma ótima ouvinte. Aquela galinha é muito paciente com meus devaneios verbais enquanto faço chá ou chimarrão.


abraços
21agosto2012

UMA (*)FERTA, UMA (*)FERENDA - 62



Dançando no Campo Minado é o programa da twitcam de agosto. Hoje, 22h.

Escolhi o disco quando o shuffle do meu iPod ofereceu a canção Rota de Colisão. Justo no momento em que eu lia a respeito de um filme do Lars Von Trier em que um planeta chamado Melancholia está prestes a se chocar com a terra. Coincidência? Os sinais estão no ar.

Eu estava na estrada, depois de um show, o resto do pessoal dormindo no ônibus escuro, os faróis iluminando uma fatia de asfalto. Uma situação que, quem me acompanha, vai reconhecer. Sempre um momento bom pra pensar na vida.

A audição da música me levou a ouvir o disco inteiro. A audição do disco inteiro me trouxe felicidade depois surpresa depois tristeza. Felicidade porque achei o disco sensacional. Surpresa porque eu tinha esquecido algumas preciosidades da arquitetura interna do mesmo. Tristeza por tê-las esquecido.

Quando retomei o modo shuffle do iPod, ele me ofereceu Roda Viva do Chico Buarque:

 a gente vai contra a corrente até não poder resistir
na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir
faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há
mas eis que chega roda viva e carrega a roseira pra lá

Os versos me ofereceram uma explicação para o esquecimento: às vezes nossas tentativas de elevação ficam presas num lodo rasteiro como se a inércia do ambiente puxasse nossos pés com as bobagens e pequenesas da época, da circunstância... qual é a moda da hora, quem está no contrabaixo,  que música toca ou deixa de tocar em que rádio, quem tirou a roupa no clipe, quem falou mal, quem falou bem, por que isso, por que não aquilo, por que assim, por que não assado... a vida no maior sufco e os caras de papo furado! Ruídos que nos deixam surdos para a canção que está rolando, para o coração que está batendo.

Inimigos na trincheira, guardas da fronteira, especialistas em cois'alguma se revesam cagando goma sobre caminhos a seguir. Empáfia e desdém deformam suas bocas. Monomania, sempre o mesmo papo.  Ar que não circula, refém de seu vício. Estes senhores sabem tudo que há no mundo. Só desconhecem que o mundo deles não é tudo que há. Há vidas e caminhos para todos os lados, não apenas nos poucos metros à frente que os faróis do ônibus alcançam. Às vezes, há que caminhar no escuro, lentamente, tateando incertezas com a humildade que só quem faz sabe ter. A sabedoria dos calos na mão e das rugas no rosto, coisas que nenhum manual pode oferecer.

Foi a noção mesma de dançar num campo minado que me salvou do choque com a melancolia (que pode devastar mesmo não sendo um planeta em rota de colisão). Ainda com os fones no ouvido, refiz  o caminho felicidade-surpresa-tristeza-surpresa-felicidade!

Me orgulho de todas as letras do disco, adoro o som, a força e a forma como as canções se relacionam nos seus segundos finais e iniciais. Até a gaita vacilante de Segunda Feira Blues II me agrada, à luz de tudo que as harmônicas e a viola caipira me ofereceram na fase acústica e no Pouca Vogal. A semente estava lá.

Veja você, quem diria, que ironia, no fim de tudo estou feliz. É isso aí! Sem pressa e pra sempre dançar no ritmo do coração (apesar das bombas que ameaçam nosso próximo passo). Confiar que o destino respirará em sincronia. Não há muito mais que possamos fazer. Como diz o ditado muito bem musicado por George Harrison: você pode levar um cavalo até a água, mas não pode forçá-lo a beber. Alternativa a gente não impõe, oferece.


bah: O livro PRA SER SINCERO e o site www.engenheirosdohawaii.com.br oferecem mais informações e informações mais objetivas sobre o Dançando No Campo Minado

Este video oferece algumas imagens da gravação do disco: http://www.youtube.com/watch?v=yrK7OrgdReU&feature=plcp

fotos: Derenise Yamassake
1 abraço
como oferta
como oferenda
e como agradecimento 
14ago2012

P(*)EMA C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 61


hoje eu sei
só a mudança é permantente
de repente
tudo está no seu lugar

Se, hoje, sou um cara despreparado para a vida pública, imaginem no início da minha jornada! Não precisam abafar o riso pois eu mesmo me divirto com esta falta de preparo.

Eram tempos anteriores à www. A cada lançamento, este morador da província passava um ou dois dias num escritório, na corte, dando entrevistas para veículos de todo o país. Constrangido de repetir sempre as mesmas respostas, ingenuamente eu tentava dar um tratamento personalizado a cada entrevista. Não se tratava de mentir, é claro; eu só tentava jogar luz em novos detalhes. E são inúmeros os detalhes quando se fala de criação. Tudo ali é detalhe.

Agora, façam as contas: num país com 27 unidades federativas, digamos que (fazendo uma média por baixo) eu falasse com 3 revistas/jornais de cada estado: são 71 entrevistas. Se a primeira delas fosse linear e objetiva e, a cada uma, eu viajasse um pouco, na septuagésima primeira eu teria viajado um bocado! Na geografia e nas ideias.

(*)

Quando a MTV estava preparando sua entrada no Brasil, testando formatos, fui convidado a participar de um programa piloto. Um teste que nunca foi ao ar. Era um ping pong com o convidado encostado num muro, o paredón.

Eles ainda estavam tateando o ambiente. O clima na emissora ainda era mais pra anos 70 do que 80. E estávamos em 1990! A maioria das perguntas tinha um tom de transgressão que já me soava passado na época. Chavões sobre sexo, drogas, roquenrrou, etc... o de sempre: prato feito para jovens por cozinheiros de meia idade.

Uma das perguntas nunca saiu da minha cabeça: “você começa a fazer a barba sempre do mesmo lado?”. Acho que eles julgavam ser um bom atalho pra saber se um cara é metódico ou inquieto, burocrata ou criativo... Como se fossem atitudes excludentes. 

(*)

No seu melhor, a canção popular vive do balanço entre repetição e novidade. Balança nessa corda bamba. Anda no fio dessa navalha, tentando não cair no precipício do caos nem no abismo da previsibilidade.

Isto se dá na escala micro (nos poucos segundos de um compasso) e macro (nas décadas de uma carreira); na escolha das notas do solo e das canções do setlist. Está sempre presente a busca do mix certo, na esperança de que as duas asas batam em sincronia. 

(algo que evite qualquer relação com o passado faz tão pouco sentido quanto algo que só queira repetir o passado)

Se respirarmos fundo e nos distanciarmos um pouco pra sacar a perspectiva, vamos ver que é limitadíssimo o universo harmônico e rítmico da música popular. A magia está em descobrir novas formas de cozinhar estes ingredientes.

Há que se partir de um terreno comum para chegar a terrenos inexplorados. Como diz o ditado: não é possível disparar um canhão de uma canoa (a canoa iria pra traz tanto quanto a bala iria pra frente). É necessário uma base firme. Loucura e caretice podem ser bons temperos uma para a outra.

não ficaremos parados 
com a cabeça nas nuvens e os pés no cão

Bah 1: O técnico do meu time, acuado por uma pergunta numa entrevista coletiva, se saiu com esta: ”Você não vai me pegar, eu fiz midia trainning.”

Bah 2: O que se quer (numa coisa boba como o texto da semana ou numa coisa fundamental como o amor da nossa vida) é certeza e surpresa.
abraço
7ago2012