P(*)EMA C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 55



o mundo é teu, é teu umbigo
chapado e aquecido
deve ser o fogo amigo
queimando tudo, joio e trigo

corre mundo um aviso:
corre risco teu umbigo
se correr o bicho pega
se ficar corre perigo

bruxas dançam na fogueira
inimigos na trincheira
um calor infernal congela teu sorriso
e o paraíso tropical

sangue suor e óleo diesel
com limão e muito gelo
arco-íris made in china
de bobeira à beira da piscina
o mundo é teu até o final
pra sempre em tempo real

bruxas dançam na fogueira
inimigos na trincheira
um calor infernal congela o paraíso
o sorriso é glacial

bruxas dançam na fogueira
inimigos na trincheira
um calor infernal congela teu sorriso
o paraíso é virtual

corre risco teu sorriso
corre atrás do pre-juízo-final

(*) A RIO+20 teve resultados pífios. A decepção só não foi maior porque a expectativa não era grande. Com a crise na Europa, o inicio da neura eleitoral nos EUA e com a China dançando ao som da sua própria musica, restou pouco espaco para uma atitude mais generosa e ambiciosa. Para os governos, ecologia ainda é algo para se tratar só quando a economia vai bem.

Até sinais de retrocesso pintaram. Cientistas que questionam a influência do homem no aquecimento global vêm com um discurso que soa como música para uma indústria que não quer mudar seu jeito de produzir. Ouvi um deles falar que o homem atua nos climas locais, mas não no global - ali atuariam outros fatores. Não sou estudioso disto, mas me parece óbvio que a soma dos climas locais determine o clima global. Ou há uma porta que possamos fechar para estancar a sangria e a contaminação? Nah...

Aquela ecologia ingênua, necessária mas insuficiente, que prioriza mudanças pequenas e não pensa nas grandes estruturas tem que dar lugar a um questionamento dos meios de produção, do  comércio global e da propaganda... avançando mais um pouco, a bola volta pra gente e o jogo fica mais interessante: chega a hora de questionar nossa maneira infantil de querer tudo a toda hora, bem quentinho e com embalagem colorida - a ecologia dos nossos desejos! Isso poderia ser feito mesmo com a economia em crise. Afinal, o clichê é verdadeiro: crise é oportunidade.

(*) Assistindo a Eurocopa me surpreendi e me decepcionei ao ver o futebolista inglês Rooney ostentando um implante capilar. Isso faz de James Taylor o último ser humano careca. Talvez devêssemos conservá-lo, protegido, num cativeiro, ao lado de alguma mulher grisalha que por ventura viéssemos a encontrar (existe?).

Parece irrelevante, mas uma civilização que não consegue conviver com sua aparência natural é cega para sua natureza. E surda para A Natureza.

Não sou contra a beleza. Sou contra a nocão de que ela não está na flor e sim no bouquet sem cheiro nem insetos nem vida, envolto em celofane.


Fácil querer limitar os outros, a riqueza do hemisfério norte, a pobreza do hemisfério sul... mas quem se dispõe a segurar a própria onda? Disciplina, que já foi liberdade, agora é sobrevivência.

(*) RIO + 20 - 20 = ECO 92 


1992... Eu tocava num power trio e estava gravando um disco progressivo no auge da onda grunge. Hoje estou num power duo e encerro o show tocando arcordeon e fazendo percussão com os pés. Profissionalmente continuo estranho. Artisticamente continuo sonhando. Lá em casa, a parceria com a mulher que amo é cada vez mais sólida. Nossa filha, que nasceu em 92, tá cada vez mais legal. É... são vários mundos possíveis... e nem todos pioraram nestes 20 anos.

nota mental
para uma próxima vida:
voltar para 1968,
montar uma banda de rock progressivo
de terceira classe
e chamá-la de
Bergamotas Radioativas
ou...
...
Frágil Víbora Fake

(no logo, letras formadas por serpentes).

caloroso (no bom sentido) abraço
26jun2012

FRAGMENT(*)S C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 54


(*) A estrada que liga Blumenau a Joinville estava especialmente bonita. O sol, na inclinação certa, dava a cada árvore a sombra justa. Se eu olhasse o relógio, ele diria: hora certa para ver as coisas como elas realmente são.

Passei por alguns pequenos cemitérios que, numa tarde tão cheia de vida, me lembraram  estacionamentos (onde estarão os donos daqueles carros de mármore e sem rodas? Validando o ticket?). Virei a cabeça para conferir se os túmulos pareciam mesmo carros estacionados mas uma curva havia bloqueado com árvores a visão.

(*) Não estranho cemitérios, mas um estacionamento é um espaço estranho, né? Esteja completamente cheio ou vazio, sempre parece que não deveria estar como está, tomando espaço de coisas mais interessantes. É um triste subproduto do automóvel (outro objeto estranho, híbrido de sofá e cavalo - que já significou liberdade e hoje representa uma prisão - símbolo da confusão entre público e privado, barbárie e civilização).



(*) Quando cheguei à cidade, postes e fios da rede elétrica, que sempre passam despercebidos, chamaram minha atenção. Um ruído visual:  linhas desnecessárias numa folha que se queria branca, limpa, para desenhar.



(*) Estou vendo semelhanças demais entre coisas demasiado distantes? Estarei confundindo a claridade deste dia bonito com clarividência? Pode ser... mas aqui vai uma última: me surpreendo ao constatar que algumas rádios ainda usam o duvidoso truque do trote telefônico para gerar risadas. Isso não é muito diferente do golpe das ligações simulando sequestro, né? Grana ou audiência é o mesmo fim...  uma mentira ao telefone é o mesmo meio. Qual é a hora de ver as coisas como elas realmente são?




bah 1: estas fotos não são da estrada entre Joinville e Blumenau. Fora feitas alguns dias depois, entre Rio de Janeiro e Juiz de Fora. Outra estrada, o mesmo caminho. Estou vendo semelhanças demais entre coisas demasiado distantes?


bah 2: E, se eu disser que a janela do ônibus é um espelho e que olhar pra fora é olhar pra dentro,  também estarei vendo semelhanças demais entre coisas demasiado diferentes? 

bah 3: O dia (em que estrada que liga Blumenau a Joinville estava tão bonita) era 14 de junho. Completava um ano exato da primeira destas postagem nas travessias da segunda para terça.
 Eu estava na estrada justamente para o lançamento do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE, livro que nasceu aqui, no blog. Vocês fazem parte desta travessia, valeu! Se quiserem compartilhar experiências relacionadas ao blog nos comentários vai ser muito legal ler.

bah 4: Falando em travessia... a letra abaixo fiz para uma música do Bebeto Alves... quem já leu o NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE vai reconhecer algumas linhas. 

um travesseiro com teu cheiro
seria a ponte para o dia
seria noite a vida inteira 
se não houvesse travessia

preciso atravessar
a nuvem de metal
que pesa na minha cabeça
    
uma palavra incompreensível
seria a ponte para o dia
seria noite a vida inteira
não fosse a tua caligrafia

preciso atravessar
o caos que há no ar  
e pesa na minha cabeça

o GPS enlouquece
a gente esquece aonde ia
a mil por um milhão de ruas
cadê o portal pra travessia?

partir, romper, cruzar
preciso atravessar
24 léguas
de um dia que não vem
60 toneladas
de um minuto em suspensão

atravessar - a travessia
atravessar - a travessia

partir, romper, cruzar
preciso atravessar
a ponte para o dia

abraços
19jun2012

N(*)TA DE R(*)DAPÉ C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 53



(*) Trabalho nos fins de semana e este foi um fim de semana longo. Começou na terça-feira: lançamento do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE em Londrina com bate-papo e sessão de autógrafos. Quarta foi a vez de Maringá e quinta, Fortaleza. Sexta fiz show em Fortaleza; sábado, em Recife. Domingo, um show em Natal fechou meu longo fim de semana de trabalho. Sempre recebido com mais carinho do que mereço. Sempre com menos horas de sono do que preciso.


O show de domingo acabou cedo, 22h. O voo de retorno ao sul sairia às 2 da madrugada. Fiquei matando tempo no hotel, pensando bobagens, fazendo besteiras, entre TV, computador e sanfona. 
Alguém da  equipe sempre vai ao aeroporto antes para fazer o check in; só preciso sair do hotel em cima da hora do embarque. 

Chegada a hora do check out, enquanto esperava o elevador, dei um tapa no bolso da mochila onde deveria estar minha carteira e... nada. Caraca! Vasculhei a mochila e... nada. Voltei ao quarto, desfiz a mala, revirei os móveis e... nada. Enquanto isso, repassava mentalmente a correria do dia, tentando deduzir onde teria ficado minha carteira. Lembrei que, saindo do avião em um dos voos, alguém me avisou que uma caneta caíra da minha mochila. Teria caído a carteira também? Neste caso teria ficado no avião... e o avião estaria sabe lá onde numa hora destas.

Telefonei para  o pessoal da produção que já estava no aeroporto, eles me disseram que eu não conseguiria embarcar se não fizesse um boletim de ocorrência registrando a perda dos documentos. E o avião partiria em 45 minutos. Eu tinha um monte de compromissos na segunda-feira em POA - não pegar o voo (além de ficar sem a grana e os documentos que estavam na carteira) seria a cereja azeda de um bolo indigesto.

Saí feito louco para a delegacia mais próxima (bah e pensar que ficara matando tempo!). Em vão: o BO só poderia ser feito em outra delegacia, mais distante. Chegando lá, entre bêbados brigando e ladrões algemados, de olho no relógio, consegui o BO que me permitiria embarcar e voei para o aeroporto.

Embarquei, decolei, Natal-Campinas-Porto Alegre, táxi, casa, beijos, abraços e um café pra botar as novidades em dia. Antes de dormir (sim , ir dormir às 9 da manhã de segunda-feira faz parte dos meus longos fins de semana de trabalho), desfiz a mala. Na mala vazia, notei um volume sob o forro. Tava lá, rindo da minha cara, a carteira.

(*) Os especialistas dizem que um acidente aéreo nunca acontece por um único motivo. É sempre uma cadeia de fatos que causa o desastre (Syd Barret não saiu do Pink Floyd só porque filava cigarros, Lemmy Kilmister não saiu do Hawkwind só porque se atrasou para uma gig, os Beatles não acabaram só porque John trocou Paul por Yoko, o Brasil não perdeu pra Itália em 82 só porque Júnior não fez a linha de impedimento nem perdeu pra França em 86 só porque Zico errou um pênalti).

Como um Sherlock Holmes de mim mesmo tentei desenhar o mapa do acaso, a cadeia de fatos que, separados, não teriam consequência mas, na sequência, esconderam minha carteira: o cronograma dos shows fora atípico, corrido, com muitos voos e sem passagem de som (ocasião em que sempre levo minha carteira para pegar palhetas)... era a primeira viagem com uma mala nova, com compartimentos que eu desconhecia (sempre deixo a carteira trancada na mala na hora dos show)... a mochila com seus trocentos bolsos já havia me pregado peças (o que talvez tenha feito com que eu vasculhasse a mala sem convicção, achando que a carteira caíra mesmo da mochila no avião)... a primeira gripe do ano me deixava mais burro do que o usual... a falta de sono me deixava mais desatento do que o usual...

Ok, são desculpas que não me convencem. O que eu realmente acho é que a carteira desintegrou-se e materializou-se de novo. Como acontece com tampas de caneta e tartarugas: somem. Algumas vezes, reaparecem.

(*) Hey, só agora me dou conta: Rio Grande do Norte / Rio Grande do Sul! Claro, só pode ser isso! Se o universo é curvo como estão dizendo alguns físicos, pela força de nomes tão parecidos deve haver um túnel que liga estes estados de forma reta, sem respeitar a curvatura do cosmo. Por lá passou minha carteira, enquanto eu fazia o caminho mais longo, prisioneiro das 3 dimensões! 


Ok, ok, esquece: vacilo ao procurar na mala parece ser uma tese mais elegante (simplicidade é elegância no mundo da ciência - entre duas hipóteses, a mais simples prevalece).

(*) Quando criticava um zagueiro, meu comentarista esportivo favorito dizia que, se deixassem duas tartarugas aos cuidados deste jogador, uma fugiria e a outra engravidaria. Se houvesse uma terceira tartaruga, acrescento, ela se esconderia no forro de uma mala.


aos de fé que nunca desaparecem
um abraço que se materializa
sempre que a segunda vira terça
12jun2012

DISC(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 52



(*) A gravação do VÁRIAS VARIÁVEIS tinha tudo para ser um saco. Estávamos num estúdio de ponta, no Rio de Janeiro, mas os técnicos ainda não dominavam bem o equipamento, que havia recém chegado. Eram os primórdios da digitalização das mesas de som. Tudo demorava alguns minutos a mais... e quando se está com os dedos a milímetros das cordas do baixo, prontos pra atacar, um instante é uma eternidade.

Reconheço que falo sem muito conhecimento de causa. Me interesso pelos equipamentos, mas arbitrei uma linha que separa o músico do técnico e faço questão de não ultrapassá-la. Minha atitude vai contra o espírito dos tempos, eu sei. Bons pilotos sacam de mecânica, também sei. Mas já vi alguns músicos se perderem no curto trajeto entre um clique de mouse e uma nota musical. Fisicamente a distancia é ínfima. Espiritualmente pode ser intransponível.


(*) Quem já leu o PRA SER SINCERO sabe que havia um vaso no canto do estúdio no qual, num fim de sessão, joguei a erva do chimarrão (na melhor das intenções de adubar). O assistente do estúdio ficou maluco: a tal planta fazia parte de um ritual (não sei de que religião) de uma diva da MPB que estava gravando durante o dia.

Havia um piano muito bacana no estúdio. Deixei para gravar Piano Bar numa das últimas sessões. Quando cheguei, me surpreendi com um monte de fita crepe envolvendo o instrumento e vários cartazes com letras berrando: NÃO TOQUE! 
O piano estava afinado para Tom Jobim gravar no dia seguinte (uma participação no disco da diva, eu acho). O assistente (aquele mesmo), mais realista do que o rei, era o guardião das teclas sagradas. Não tínhamos outra data (pra variar, cronograma apertado). O caso foi resolvido com um telefonema. Piano liberado, pois quem realmente importava não se importava que eu tocasse nele.



(*) Nós, 3 gaúchos estranhos, entrávamos no estúdio às 21h e saíamos Deus sabe quando. Íamos e voltávamos juntos. Sim, é meio nerd isso... mas pô, nada mais nerd do que viver intensamente sua arte, né? No fim da ultima sessão, comemoramos: às 7 da matina, tomando uma média com pão com manteiga, de pé, no balcão da padaria ao lado do estúdio. Nada muito glamoroso, eu sei... mas nossa força estava em outro lugar, por vezes distante do glamour. Vai aqui meu abraço ao Carlos e ao Augusto com a esperança de que tomemos outro café sem glamour numa hora dessas.


(*) A exemplo do FILMES DE GUERRA CANÇÕES DE AMOR, gravei a demo do VÁRIAS VARIÁVEIS em Gramado, deixando a vista se perder na mesma janela que aparece na capa do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE. Gravei tudo com a doubleneck Steinberger preta (exceto as parceiras com Augusto - ele mandava as bases, eu colocava a voz). Usei um mesmo gravador (TASCAM - gravava 4 canais numa fita K7) para gravar as demos do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM (1988) até o GLM (1992). Parceiro que teve uma bela jornada, aquele portastudio. Ainda mais se considerarmos que já era velho e antiquado no início dela.


(*) O que me vem à mente quanto penso em VÁRIAS VARIÁVEIS: cobras, bombacha, São Paulo e o arrependimento de, na logomarca, não ter alongado a linha superior do “s” para que ele ficasse simétrico ao “v”.

Na verdade, mais do que o disco, me vem à mente a tour. Foi a melhor daquela formação. Se eu quisesse fazer bandeira dos meus trapos, papaguearia que a tour culminou num show no Maracanazinho lotado. E não era show coletivo: no palco, só aqueles 3 gaúchos estranhos. Coincidentemente, num dia 11. Em Julho de 1992.

Foi por esta época que entendi um padrão que se repetia: quanto mais sucesso fazíamos, mais um seguimento do jornalismo cultural nos criticava. Entendi que, no fundo,  as críticas não eram à nossa música. Eram verbalização do medo de que nos tornássemos a banda hegemônica. E nisso tinham razão. Hegemonia não era a vocação daqueles 3 gaúchos estranhos. Se chegamos perto ou chegamos lá, peço desculpas. Podem ficar tranquilos, senhores donos da verdade, não voltará a acontecer.

Depois de viver mais e trabalhar com outras pessoas, fui aprendendo do que falam quando falam em inteligência social, networking, RP, brodagem, compadrio, jabáfetivo... é uma escada que vai da santidade ao baba-ovismo. Me divirto analisando em que degrau cada um está.


bah-cana: Hey, eu falei que tinha tudo para ser um saco a gravação do VÁRIAS VARIÁVEIS? Ah, pode crer que não foi! Foi um prazer. Assim como, certamente, será um prazer tocar o disco na twitcam desta quarta, 22h. Como acontece mensalmente, este texto é só uma introdução e um convite para que vocês compartilhem suas experiências relacionadas ao VÁRIAS VARIÁVEIS nos comentários. O que eu tenho a dizer já tá lá, embrulhado em papel verde...

... sim, vai ter regalo da @brstereophonica. Desta vez faremos diferente: mostrarei a próxima twitcamiseta e os 3 primeiros a adivinhar qual será a twitcam ganharão.


abraços
05jun2012