P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 51



cada um tem o seu ponto de vista
encare a ilusão da sua ótica
os olhos dizem sim
o olhar diz não
...
sou cego
não nego
enxergo quando puder
só vejo
obscuro objeto
desejo indireto
será que você me entende?

Quando eu era guri, gostava de ouvir um comentarista esportivo das antigas. Veterano, ele havia jogado no Grêmio na década de 30. Depois de atuar como árbitro, ele ainda treinara a dupla Gre-Nal. Muitos consideram Foguinho (era este seu nome de guerra) um dos pilares sobre os quais se ergueu a tradição gaúcha do futebol-força. 

Com sua fala marcada pela troca do R por G, ele costumava vaticinar o futuro de jogadores que eram contratados sem nunca tê-los visto jogar, usando como único recurso uma olhada na foto do jornal. Claro que cometia alguns erros (achava que Falcão era “um jogadog peladeigo” - um jogador de pelada, que não guarda posição). Quando errava, acompanhar sua relutância em dar o braço a torcer fazia parte da diversão. 

Ele costumava alfinetar os colegas comentaristas que não tinham experiência de campo (e faziam teses mirabolantes cheias de palavras com muitas sílabas) num desabafo característico : “Ah, estes intelectuais do futebol...”

(*) 

Na sua chegada ao Brasil, antes de virarem padrão, os CDs eram caros; quase todos, importados. Nas poucas e pequenas lojas o atendimento geralmente era afetado, de boutique, como em alguns restaurantes metidos à besta. Entrei em uma dessas lojas, em Ipanema, e notei que o dono estava discutindo preferências musicais com um cliente. Tentei sair de fininho, mas o cara me viu e me chamou. Querendo que eu atuasse como juiz e decidisse o impasse entre eles, perguntou: “Quem toca mais, Eric Clapton ou Andrés Segovia?”.

PQP! Se eu dissesse que a pergunta não fazia o menor sentido provavelmente iniciaria uma outra querela... e eu só queria sair dali rápido. Falei “Jacob do Bandolim” (uma resposta tão boa e tão ruim quanto outra qualquer - mas a mais sincera) e sai da loja com a desculpa de que estacionara meu carro em lugar proibido.

(*) 

Adoro teses (bem construídas). Sou capaz de ficar horas falando sobre música, esporte, frutas, religião,  livros... Acho que equações matemáticas podem ser belas, assim como discursos políticos, carros populares e perfumes. Cada um com sua beleza.

Mas quando se quer usar fita métrica para comparar alhos e bugalhos, tô fora. Por que fingir que podemos ser objetivos quando amamos ou odiamos? Por que fingir que podemos ser subjetivos quando medimos e comparamos? Ah, estes intelectuais do futebol...

(*)




bah nada a ver com o texto, tudo a ver com a gente: Segundo o parceiro @romoliv, entre divulgação do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE e shows do POUCA VOGAL, devoraremos 8550km nesta semana. A agenda tá na coluna ali ao lado. Estão todos convidados! Sempre um prazer encontrar os "@" na vida real.

E já que ele veio com números do futuro, eu vou com números do passado:

Londrina-PR; 1989, 1990, 1991, 2008, 2011.

Maringá-PR; 1989, 1990, 1991, 1994, 1997, 2002, 2005, 2006, 2008, 2010.

Fortaleza-CE; 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2010.

Recife-PE; 1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1997, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2010, 2011.

Natal-RN; 1988, 1989,1993, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2011.

Quem foi? Quem vai?
Abraços
29mai2012

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 50


a dúvida é o preço da pureza

e é inútil ter certeza

(*) Liguei a TV e dei de cara com Mister M. Vocês lembram, né? O cara que, nas "fantásticas" noites de domingo, revelava os segredos dos mágicos. Sintoma de uma era em que tudo está exposto, em que máscara e rosto trocam de lugar. Os bastidores passam a ser o show, o making of do making of do making of...

Ao ser alcançado pelo Mister M via TV a cabo numa insônia de quarto de hotel, me dei conta de que eu nunca o havia  visto. Claro, respingaram em mim várias imitações do Cid Moreira fazendo a locução do quadro e a própria personagem, que todos comentavam. Assim como, mesmo sem assistir às novelas, a gente acaba conhecendo, por via indireta, nomes e sotaques de personagens que invadem o dia a dia.

Dias antes, ao dar uma entrevista, eu me dera conta de que nunca havia ouvido a tal música do Michel Teló. Nem a Dança do Kuduro. Nunca vi. Não entendo por que, hoje, tanta gente tanto reclama dos modismos. Eles são bem menos avassaladores do que eram quando nossas opções de (des)informação eram menores.


(*) Numa outra entrevista, me pediram para falar de uma banda que fizera uma música sobre minha banda. Expliquei que não sabia do que se tratava. O jornalista me mandou um link com o video. Estava ali, na ponta dos meus dedos, a um toque de distância, a informação que daria seguimento à matéria. Simples, só clicar. Simples... se eu não fosse eu.

Será que eu queria me ver como me vê quem me vê como um ícone (seja lá do que for)? Se eu fosse um profissional de mim mesmo, certamente deveria ver. Mas... será que sou? Quero ser?

(*) Em tempos idos, valia para a informação a equação "quanto mais, melhor". Será que ainda vale? Agora que ela é abundante e redundante, surge outra questão: o que NÃO saber. Não creio que aquela equação valha hoje em dia. Como não creio que valha, nesse caso, a equação "menos é mais". Quem aí está disposto a viver sem a verdade tranquilizadora das equações? Eu.

(*) Questão delicada, esta da (des)informação: uma vez que sabemos algo, é inútil fingir que ignoramos. Numa das mágicas reveladas pelo Mister M, quando aberta uma caixa, flores saltavam. Um efeito de mola encolhida que é libertada. Depois, o mágico podia forçar as flores de volta para a caixa e repetir o truque... Mas quando a caixa de Pandora da informação é aberta, não há volta. Colocar a pasta de dentes de volta ao tubo? Nah, não tem volta.

Ciclicamente, no mundo da música pop, pintam momentos em que a proficiência técnica é mal vista. Foi assim no punk e no grunge. É engraçado ver, nesses momentos, músicos estudados querendo acompanhar a onda, simulando uma inocência pra sempre perdida e escondendo sob o tapete habilidades que poderiam levar a novos caminhos. Por achar, equivocadamente, que técnica e espontaneidade são incompatíveis, ficam sem nenhuma das duas. O "pior dos mundo". Nem barro nem tijolo.

(*) Uma criança escrevendo poemas num quarto, um jovem projetando prédios na escola de arquitetura, um músico tocando para multidões.
 Já percorri estas 3 estradas. O que sei delas? Que todas têm a mesma curva. Um ponto onde a gente começa a tirar em vez de colocar. Aí é que começa a ficar interessante: quando começamos a selecionar! Enquanto corremos na velocidade máxima que o carro permite, somos meros prisioneiros de suas limitações.

cansei de alimentar os motores
 
agora quero freios e airbag

bah: enquanto escrevia este texto fiquei sabendo que o botafoguense Herrera declinou convite para escolher uma canção que servisse de trilha a uma “fantástica” gracinha da TV. Legal e surpreendente! Não escolher foi sua escolha!

um abraço entre antenas
...
o que captar?
do que escapar?
22mai2012


P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 49


(*) Dei uma rápida olhada na minha agenda e vi que o bicho vai pegar. O couro vai comer, a cobra vai fumar. Semanas cheias de viagens pela frente. Para tocar com o Pouca Vogal e para falar  sobre o NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE. É agora que o livro nasce, gerado pelos olhos de quem lê. O prazer de encontrar leitores e ouvintes na estrada compensa a correria. Então, que venham as entrelinhas amarelas no asfalto negro!

Antes de mergulhar de corpo e alma na arte/ofício de músico, eu havia viajado pouquíssimo. Nunca de avião. A maior distância percorrida era a que separa POA de alguma praia em Santa Catarina. Turismo nunca fez minha cabeça. Viajar nas asas da minha arte/ofício, eu curto. Já passam de 500 as cidades que conheci nesta caminhada.

Fazendo um trabalho de filosofia, no colégio, descobri que o genial filósofo Imannuel Kant nunca saiu de sua cidade natal. Estamos falando do século XVIII, época em que a informação não circulava como hoje. Dá o que pensar... Se ele tivesse conhecido mais do mundo, seu pensamento ganharia abrangência? Impossível saber. Talvez perdesse profundidade. Ônus e bônus, irmãos siameses, inseparáveis.

se eu fosse um cara diferente
sabe lá como eu seria

(*) Há algum tempo, ouvi um médico num programa de rádio. Ele enfatizava a importância de uma quantidade mínima de sono por dia (7 ou 8 horas, já não lembro). O apresentador do programa, orgulhoso de dormir pouco, contra-argumentou que Napoleão fez tudo que fez dormindo só 4 ou 5 horas (também não lembro). Sem se abalar, o especialista respondeu que, se dormisse mais, Bonaparte faria ainda mais. Será? Impossível saber. Talvez fizesse poemas em vez de guerras. Ônus e bônus, mais uma vez esta duplinha vem nos lembrar que a moeda tem dois lados.



(*) Houve uma forma de se pensar a história em que os dados biográficos das grandes figuras acrescentavam um sutil tempero a seus feitos (a vida regrada e monótona de Kant, o sono de Napoleão). Hoje, a sutileza dançou. Parece que a vida pessoal vem na frente e acima da obra, né? 


Mudando de saco pra mala (pra ficar no mesmo tema): só conheço dois refrões da Madona, mas sei dos seus namoros, das suas manias, da sua família, até onde mora... já vi muito mais vezes o umbigo da Shakira do que o meu próprio. A vida pessoal acima e na frente da obra.

Sheryl Crow reclamou, numa entrevista, que, no mundo pop americano, estão em extinção as canções de personagens (como as mulheres criadas por Chico Buarque). Ela dizia que só na música country a tradição seguia. Imagino que seja porque o mundo pop, por contraditório que pareça, quer sangue-suor-e-lágrimas de verdade. Na primeira pessoa. E quer ao vivo.

A música, no mundo pop, é só um detalhe de uma experiência que se quer total e avassaladora e que inclui filme, livro, roupas, perfume, carros, telefones, games e.... refrigerantes. É claro que este sangue-suor-e-lágrimas "de verdade" quase sempre é "de mentira". Mas isso é só um detalhe. Mais um de infinitos detalhes num mundo onde não há o principal.

Interessa ao mundo pop que se confunda realidade e ficção, ator e personagem. Não são poupados esforços pra fazer de conta que Beckham jogava alguma coisa e que Paris Hilton era alguma coisa.

(*) Vida + obra; pé no chão + cabeça nas nuvens... Entre ser prisioneiro da realidade e ficar  ficar alheio a ela, há um amplo terreno no qual podemos nos mover. Mas, afinal, o que é a realidade? Porra, que perguntinha danada para um fim de post, né?


(*)

Bah 1: sobre participação em eventos literários, escrevi este texto no ano passado: http://blogessinger.blogspot.com.br/2011/10/feiras-do-livro.html

Bah 2:  se dei a entender que as coisas estão piores hoje do que já foram, me expressei mal. No embaralhamento entre ficção e realidade (especificamente neste ponto) não vejo diferença entre Beatles e Lady Gaga.

Bah do bah: não percam tempo nos comentários discutindo se Beatles é igual a Lady Gaga, ok? Minha proposição é um pouco mais profunda do que isso. Apesar de ainda ser rala, pop.

Bah 3: raciocínio lógico não é meu forte. Tenho dificuldade de ler os grandes filósofos, físicos e matemáticos. Mas gosto de ler sobre suas vidas e obras. Descobri que a forma como estes caras fazem suas grandes descobertas é muito parecida com a criação artística. E pode incluir nesta lista as grandes donas de casa e os grandes amigos. Artistas da vida real.

um abraço 
entre vida e obra
entre a realidade
e a representação da realidade
15mai2012

P(*)EMA C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 48

só um rascunho
pelo jeito a mão tremia
pelo jeito pretendia
dar um jeito num outro dia

(*) Então, compañeros, como foi a semana?

Por aqui, as bergamotas voltaram a aparecer na janela da cozinha, a lua (cheia de si)  esteve no seu ponto mais próximo da terra, fiz a twitcam de 25 anos d’A REVOLTA DOS DÂNDIS. Foi um bom ciclo de sete dias.


Para fechar a semana, hoje ganhei um presente do amigo @poetapoeteiro: um exemplar de   Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro, encontrado num sebo, pertenceu a meu pai, tem sua assinatura e anotações nas margens. Até veio com a nota fiscal: 17set1951. Memórias póstumas. Irradiação fóssil.

(*) Ciclos... há para todos os gostos: do frenético ponteiro dos segundos ao cauteloso ponteiro das horas. O sangue dando uma volta pelo nosso corpo, um tanto a cada batida do coração. A terra dando uma volta em torno do sol (ou o sol girando e a terra parada, para quem prefere). Ciclos... há para todos os gostos.

Palavra<frase<parágrafo<capítulo<livro. Para baixo ainda temos a letra. Para cima,  a biblioteca. Para frente, para trás, para cima e para baixo. Ciclos... macro, micro, infinito para todos os lados.

Nota<compasso<refrão<canção<disco<carreira. Ok, chega de exemplos. Vocês são espertos, já deu pra sacar, né?






(*) Posso estar enganado, vendo coisas distorcidas pelo cansaço dos olhos, mas me parece que há um desequilíbrio entre quantidade e qualidade de informação nos dias que correm. Vejo pessoas se apropriando de ideias sem citar a origem (nada mais chato do que conversar com gente que pensa ter composto as músicas que escrevi). Por outro lado, já li, atribuídos a mim, aforismos que não criei. Um deles diz “só há dois dias em que não podemos fazer nada por nossas vidas: ontem e amanhã”. Ok, até pode ser... mas não tem muito a ver com minha maneira de sentir e viver os ciclos.

Na minha última ida a um cemitério (não se preocupem, no momento em que escrevo, estou vivo... eu acho) vi alguns cartazes com aforismos colados nas paredes. Imagino que estejam ali para acalentar e distrair as pessoas. Um deles dizia que, em vez de caçarmos borboletas, devemos cuidar do jardim para atraí-las. Tenho lido esta frase por aí, repetidamente, às vezes atribuída a Mário Quintana (não sei se é dele e não vou ao google me certificar pois não é esta a questão aqui). Se é tão repetida, a frase, deve revelar alguma coisa dos tempos que correm.

A primeira leitura é óbvia: não force a barra... deixe que coisas boas aconteçam como consequência de   boas ações... faz o teu bem feito e não esquenta a cabeça...  Mas sempre que ouço ou leio a frase, ao contrário de uma cena bucólica vivida por alguém centrado e bem resolvido, me vem à mente uma imagem oposta: alguém cuidando do jardim freneticamente,  sem prestar muita atenção no que faz, a mão nervosa segurando um punhado de terra, a cabeça virada, o olhar tenso lá longe como se os olhos fossem redes de caçar borboleta. 

Normal... as palavras (e os aforismos), em vez de descrições e certezas, quase sempre revelam desejos e sonhos.



bah 1: a banana é considerada a fruta com melhor design, mas, para mim, bergamota tem a melhor embalagem já concebida.

bah do bah: tangerina, mexerica, bergamota, vergamota, mimosa... várias palavras, o mesmo sabor. Se a embalagem tava pronta, agora temos um slogan! Dá até pra fazer um jingle.

bah 2: isto tudo é um rascunho. Não tive tempo para elaborar. Quando tive, achei melhor não. Vez por outra, em vez de tentar harmonizar os ciclos, é bom aceitar o caos.

bah 3: Então, compañeros, como estão os ciclos (grandes e pequenos) para vocês?

um abraço passado a limpo
08mai2012