DISC(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 47



as vozes oficiais dizem "quem sabe"
dizem "talvez"
enquanto os videos e as revistas
mostram imagens sem nitidez

No dia 06mai, via twitcam, tocarei, na íntegra, A REVOLTA DOS DÂNDIS. Difícil falar sobre este disco. Talvez eu saiba pouco sobre o que ele é, o que ele se tornou. Mas encontro com frequência o alemãozinho que escreveu as músicas. Continua o mesmo; alguns quilos mais velho, alguns anos mais gordo, algumas canções mais sonhador, mas basicamente o mesmo. Quando falei que tocaria três músicas do disco na sanfona, ele veio com essa: “o sanfoneiro, o baixista e o goleiro tem algo em comum: não podem ter mãos de alface. Se tiver mão de manteiga, o fole engole”.  O fole engole... fiquei com a impressão de que, ao falar isso, ele já compunha outra canção.

{ Nós que vivemos intensamente nossas buscas, prisioneiros de nossa liberdade, entendemos o que ele quis dizer. Nós que ouvimos vozes e seguimos visões temos que negociar o dia a dia com pessoas que vivem sem intensidade uma felicidade burocrática (ou um ranço automático) e repetem com boca frouxa: pega leve, nada é tão sério, relax... Como se fosse uma opção ter as mãos cheias de calos ou tê-las de alface, de manteiga. }

E lá se foi o alemãozinho, apressado, carregando nas costas algumas raquetes (ou um bandolim) antes que eu pudesse compartilhar um paralelo que me ocorreu: ele gravou os baixos d'A REVOLTA DOS DÂNDIS sabendo tanto do instrumento quanto eu sei, hoje, da sanfona. Quase nada.

(*) 


Numa roda de chimarrão, ouvi uma conversa interessante entre o alemãozinho que cantou A REVOLTA DOS DÂNDIS e o moicano que tocou bandolim na tour ACÚSTICO MTV. Este dizia àquele que as plateias estavam ficando com preguiça de ouvir material novo. Aquele retrucou que sempre fora assim, que havia tocado várias vezes Terra de Gigantes, Refrão de Bolero e Infinita Highway para plateias que não se ligavam muito, antes das músicas estourarem. Disse que sempre haverá um pessoal que precisa de legendas,  de um desenho explicando, de um segundo toque do despertador, de um empurrão para sair do burocrático modo automático.

(*) 


Eu sou moscão (palavra que, na minha juventude portoalegrense, designava os trouxas, os devagar, os... moscões), não sei de nada, mas aprendo muito ouvindo os papos destes meus amigos. O alemãozinho, o moicano, o cara de trancinhas da capa do !TCHAU RADAR!, o bigodudo que toca viola caipira no NOVOS HORIZONTES, o maluco que toca com os pés num power-duo usando terno azul... aprendo e me divirto muito com eles.

Entre um cafezinho e outro, conversamos sobre os passados pré-fabricados que a gente vê por aí. E morremos de rir da maneira como algumas histórias são recontadas glorificando trajetórias que (quem viveu a época sabe) sempre foram oportunistas; esquecendo coisas importantes, criando soluções para problemas que nunca existiram. Eu e meus amigos achamos graça destas mentiras repetidas até virarem verdades. Morremos de rir pra não viver chorando.

(*) 


Prevendo que escreveria este texto, perguntei ao alemãozinho que criou as letras d'A REVOLTA DOS DÂNDIS qual é, afinal, a deste disco. Ele disse que não tinha nada a acrescentar (já tá tudo no disco), mas que talvez a frieza dos números pudesse revelar algo poético: foi um dos poucos álbuns dos EngHaw que não ganharam disco de ouro, apesar de ter ultrapassado em muito as 100.000 unidades vendidas. Para ganhar esta medalha da indústria fonográfica, o número mágico tinha que ser atingido em um ano. A REVOLTA DOS DÂNDIS não respeitou o limite de tempo. Este disco torto fez sua estrada. Torta. E longa.




Quando me deu os originais acima, o alemãozinho (fã do Homem Revoltado, de Camus) falou confusamente do Farenheit 451...


{ ... livro de Ray Bradbury, transformado em filme por François Truffaut. Na história, os livros eram proibidos. Todos que fossem encontrados eram queimados por uma polícia especializada nisso (sem livros é mais fácil pré-fabricar passados). Alguns rebeldes dedicavam sua vida a decorar um livro inteiro para que o conteúdo não se perdesse quando o último exemplar fosse destruído. }

... e disse: “Pode ficar com estes papéis, eu tenho A REVOLTA DOS DÂNDIS na mente. E no coração.”

(*)


Bah 1:  No dia **, via twitcam, tocarei, na íntegra *************** . Difícil falar sobre este disco. 
Eu poderia usar este início de texto em todas as postagens referentes às twitcams temáticas. Automaticamente. Como as lojas programam tweets com ofertas para serem disparados durante o dia. Uma forma de estar presente estando ausente. Burocraticamente. Mas, hey, não devemos mentir só porque a verdade é repetitiva, né? Dá pra dizer muito com palavras gastas e frases feitas, se atrás de palavras e frases fracas estiver a força da sinceridade. Novidade não pode ser desculpa para falta de talento. Prefiro uma banda cover de verdade do que uma banda autoral de mentira.


Bah 2: outra que repito sempre nestes posts e sempre é verdadeira: mais detalhes (e detalhes mais objetivos) sobre A REVOLTA DOS DÂNDIS são encontrados nos livros PRA SER SINCERO, MAPAS DO ACASO e no  www.engenheirosdohawaii.com.br

Special Bah: Esta twitcam terá a participação muito especial de Carlos Maltz nos tambores. É sempre bom reencontrá-lo. Já não é como antigamente, pois assim é que deve que ser: diferente de antigamente. Sem botox emocional, sem Grecin 2000 afetivo. Sem burocrático piloto automático. Sempre bacana. Jamais encontrarei um parceiro tão intenso e desprendido. A cada dia que passa sinto mais orgulho do que fizemos sem nos render à sedução do caminho mais facil. Sob a luz do pragmatismo e do babaovismo que imperam nos dias de hoje, até é difícil acreditar que tenhamos construído o nosso caminho.



Bah da Parceria: A REVOLTA DOS DÂNDIS gira há 25 anos. Vocês devem (saber)sentir muito (d)este disco. Por favor, compartilhem estas (sabedorias)sensações nos comentários. Aprendo e me divirto muito lendo o que vocês escrevem. Como aprendo e me divirto tomando chá com o rasta que tocava Números no Leblon, com o bombachudo que tocava Causa Mortis na Faculdade de Arquitetura, com o cara que empunhava guitarras Gibson semi-acústicas de cabelo espetado em canções de guerra e filmes de amor.


como sempre, um abraço como nunca
01mai2012
Feliz Dia do Trabalho!
(do Trabalhador, né?)

OS PINGOS NOS ii - 46


Se existisse o Evangelho Segundo Meu Comentarista Esportivo Favorito, lá estaria escrito que técnico bom é aquele que sabe por que ganha e sabe por que perde. Parece simples... mas não é.

Obter os dados é só o início. Nos nossos dias, é mais difícil ler corretamente as informações do que obtê-las. O melhor exemplo disso é aquela piada sobre pesquisa médica: “segundo as estatísticas, doenças do pulmão aumentam o consumo de cigarro”. Uma caricata confusão entre causa e consequência. Mais comum do que se possa imaginar.

{ Às pessoas que me pedem letras pensando que fiz sucesso por causa delas, eu gostaria de dizer que talvez eu tenha feito sucesso apesar delas. Aos que me pedem melodias achando que fiz sucesso por causa delas, gostaria de dizer que talvez eu tenha feito sucesso apesar delas. Aos que me pedem para tocar/cantar/escrever... mesma coisa. Se, impacientes, me perguntassem, afinal, por que fiz sucesso, eu diria que talvez eu não tenha feito. }

Talvez causa e consequência estejam, permanentemente, dançando como um casal apaixonado, girando, girando, rodopiando pelo saloon. Se um pistoleiro entrasse chutando a porta e desse um tiro numa, mataria as duas.  

Ok, vamos adiante. Já tens os dados e tens certeza de que não confundirás causas e consequências? Sinto dizer que isto pode não significar nada. A mão trêmula do acaso pode erguer a peça que dará xeque-mate nas nossas pretensões de entender os porquês. Como um elástico esticado mais do que aguenta, a linha que liga causa e consequência pode se romper. É o que acontece, às vezes: ficamos órfãos de explicação para muita coisa que, simplesmente... acontece. 


Talvez causa e consequência não dancem a mesma música, nem caibam no mesmo saloon.

E não adianta forçarmos a barra para adaptar a realidade às nossas teses, como quem quer encher uma mala com mais roupa do que cabe. Algumas malas ainda são generosas, se deformam, vão aceitando, até explodir o zíper. Uma hora explode (os copos são mais diretos: só aceitam uma quantidade exata de líquido, nenhuma gota a mais).

A elegância de uma explicação não garante sua eficácia.


A necessidade de uma explicação não garante sua existência.

{ Na saída das aulas do curso pré-vestibular, eu passava por uma calçada onde caía uma lenta chuva de ar condicionado. Pingos esparsos que, vez por outra,  caiam na cabeça dos pedestres. Eram tempos anteriores à legislação que, agora, exige uma mangueira no aparelho. 

Na ânsia de saber se meu futuro estaria na Escola de Arquitetura ou se levaria bomba no vestibular, um dia eu bolei um mix de pesquisa e passe de mágica (uma mistura de bola de cristal e simpatia): se eu fosse atingido por um único pingo no trajeto, eu passaria no vestibular. 

Apesar do tráfego intenso de pedestres, não era difícil seguir em linha reta e velocidade constante (na pesquisa/simpatia era proibido olhar pra cima para não quebrar a aleatoriedade). Andei os primeiros passos e... nada. Passei da metade e... parecia estar em meio à seca do nordeste, deixando o Cariri no último pau de arara: nenhuma gota! Eu já me imaginava rodando no vestibular, decidindo o que fazer da vida. Meu corpo ainda esperava uma gota, mas minha mente já estava sofrendo meses à frente. 


Melancólico, eu andava olhando para o chão. Pela mudança do tipo de piso à frente senti que estava andando os últimos metros. As probabilidades estavam contra mim. Vinda do que talvez fosse o último aparelho de ar condicionado do prédio, uma gota atingiu minha cabeça. Eu fora batizado! Alguns meses depois, passei no vestibular.

Parece um final feliz, mas preciso fazer uma confissão para os que ainda não sabem que sou canalha: naqueles últimos passos, aproveitando que uma senhora  atravessou o meu caminho, dei uma imperceptível pedalada e retardei o fim do percurso em uma fração de segundos. É bem provável que só por isso o pingo do ar condicionado me atingiu, passei no vestibular para Arquitetura, onde montei uma banda, casei com uma colega, tive uma filha que tem um cachorro, escrevo neste blog. Pronto, agora vocês sabem: sou uma farsa. }

Bah 1: pra quem quer saber porque ganha e porque perde, esqueci de mencionar mais uma dificuldade: ao contrário dos esportes, na vida nem sempre é fácil distinguir as vitória das derrotas.

Bah 2: saber por que, porque e porquê é difícil também na escrita. Vivo separando erroneamente, juntando quando não deveria. Também costumo acentuar mesmo sabendo que acento não há, como quem diz : no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


Bah 3: Muitos de vocês devem conhecer alguém que se acha muito azarado, que sempre está a um passo de estourar, arrasar, chegar lá, mas... nunca consegue. É um tipo comum, eu mesmo conheço alguns. Olhando de perto se descobre que, na real, são pessoas com muita sorte que, incrivelmente, chegaram tão longe! 


Castilhos, goleiro do Fluminense nos anos 50, era considerado muito sortudo. Perguntado a respeito das inúmeras bolas que batiam na trave, ele respondia que, na verdade, era muito azarado, pois a bola podia ir em infinitas direções e batia justo nos poucos centímetros da trave! 


Bah do bah anterior: Nao me tome por obscurantista, nao creio em sorte ou azar, pero...

Bah final: tenho escrito sobre shows, discos e livros. Já estava com saudade de um post assim, com devaneios inúteis.

A todos, um abraço inútil. Inútil, pero...
24abr2012 

1(*).(*)(*)(*) HORIZONTES - 45


Parece que foi ontem (à tardinha) que a editora Belas Letras me convidou para escrever meu primeiro livro. Fiquei cheio de dedos, mas era pra falar do meu time, para uma coleção... aceitei.
Parece que foi hoje (de manhã) que a editora Belas Letras me convidou para escrever o PRA SER SINCERO. Fiquei cheio de dedos, tenho respeito e paixão pela palavra escrita em geral e pelo livro em particular.   Não queria entrar “de bicão” nesta, tenho os dois pés atrás com caras polivalentes... pensei... aceitei.
Parece que lanço livros há 10.000 anos. 10.000 felizes anos repletos de sessões de autógrafo onde observo o carinho com que as pessoas carregam um livro. Mais cuidadosas do que são com discos, apesar destes serem mais frágeis do que aqueles.
Nos bate-papos literários, nas feiras de livro, é comum me pedirem pra falar sobre diferenças e semelhanças entre música e literatura, discos e livros. Música é uma forma de arte mais ambiciosa, na minha opinião, a que mais se aproxima do sublime. Mas a literatura é deliciosamente humana. Talvez por juntar a solidão de quem escreve com a solidão de quem lê, dá sensação de intimidade. “Parceria” talvez seja a palavra certa pois o leitor tem que reconstruir todos os sentimentos e pensamentos do autor, codificados em símbolos gráficos extremamente abstratos. Pequenas manchas no papel, ordenadas de forma específica, ganham vida. Pura magia. O leitor é menos passivo do que o ouvinte. E infinitamente menos passivo do que um espectador de cinema. 
Estou lançando meu quarto livro, NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE. Na primeira parte (que se chama O Dia Em Que Deixei De Ser Criança) falo de inúmeros ritos de passagem que, irônicamente, às vezes passam despercebidos. Detalhes cotidianos, entrelinhas de um texto que só saltam aos olhos num olhar mais abrangente, contra o pano de fundo do horizonte. A magia de um momento fugaz na perspectiva que só o tempo dá.  Viagens entre micro e macro, do pessoal ao geracional ao universal e de volta ao pessoal.
A segunda parte é composta por textos que tiveram sua primeira versão publicada aqui, no BloGessinger, mas foram reescritos. Há uma frase corrente no meio editorial que sempre achei engraçada: “Blogueiro é um pichador que usa ponto final”.  Sob o chiste preconceituoso, há uma lição: nem sempre o imediatismo e a fragmentação naturais de um blog se justificam em um livro. Percorrer o caminho entre as duas linguagens (quase uma tradução de blog pra livro) me trouxe à mente a relação entre discos de estúdio e discos ao vivo. Nos primeiros, a novidade. Nos segundos, novas versões de músicas conhecidas com a participação do público. 
Ops, melhor parar de falar do conteúdo para não estragar a experiência da primeira leitura, né? Da capa, posso falar. E tentar descobrir possíveis influências no seu desenho.
Minha ideia original era voltar ao local onde foi feita a foto da capa do Longe Demais Das Capitais com Eurico Salis, o mesmo fotógrafo do disco. Achar o mesmo ponto da câmera, mesmo horizonte, 26 anos depois. Logo descobrimos que o local está irreconhecível, só iriam sacar que era o mesmo se a capa viesse com uma bula explicando. Optei, então, por um horizonte na serra gaúcha, muito significativo para mim.
A nova locação trouxe a possibilidade de incluir outro elemento: a dualidade fora/dentro. O horizonte, por contradição, sempre me parece mais intenso visto através de uma janela de carro, de quarto, de trem, de avião... e veio a ideia de fazer um recorte na capa, realizar a janela. É um lance lúdico, quase uma brincadeira infantil, que valoriza o livro como objeto físico. Legal sublinhar isso pois, pelo andar da carruagem, não sei até quando os livros de papel sobreviverão.
Uma foto no mesmo local vários anos depois causa em mim o mesmo efeito de uma foto onde apareço várias vezes. Uma brincadeira com o espaço/tempo. Talvez por isso, na impossibilidade de voltar ao local longe demais da capital, inconscientemente, repetimos o truque da capa do Pouca Vogal.
Ops, melhor parar de falar da capa... e ver alguma coisa, né?
outdoor/indoor: o início
pintou a ideia do corte
e foi registrada numa toalha de papel
no café da manhã de um hotel no interior de Minas
será que a ideia veio de um destes?
os elementos foram se definindo
outdoor/indoor... quadro/janela...
 talvez a ideia do amarelo/preto tenha vindo do verde/preto...
nah, acho que tô viajando!
fotoxópi? não sei do que se trata

Zero Berto, Um Berto, All Bertos
(by Melissa Mattos)
parece que foi ontem... taí!
nunca tinha notado este tipo de placa.
agora salta aos olhos
Todos nós, envolvidos na feitura livro, estamos muito satisfeitos com o resultado. E ansiosos para saber   o que pensarão/sentirão todos os envolvidos na leitura do livro! 

A Stereophonica vai continuar fazendo o que fez com Meu Pequeno Gremista, Pra Ser Sincero, Mapas do Acaso e HGenda: servir um café delicioso às segundas-feiras para que eu autografe os livros. É sempre mágico imaginar onde cada exemplar vai parar. Taqui o link (só para o livro com autógrafo personalizado, o café não está incluído, é um pequeno grande privilégio do autor):  http://str.ph/entrelinhasdohorizonte 

Um abraço para todos!
Nos encontramos na estrada que o livro traçar, ok?
Um superagradecimento à parceirinha de sites, discos, livros, delírios visuais e seu bloquinho de anotações:


Valeu, Messy.
17abr2012

bah: se quiserem compartilhar alguma experiência de leitura dos livros anteriores, das feiras de livro ou das sessões de autógrafo, soltem o verbo nos comentários! Tem sido um show à parte. Pena que não dá pra  colocar foto ali... ia sugerir que pousassem em frente a janelas... seria legal ver 10.000 Horizontes. Novos Destinos.

DISC(*) C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 44


(*) Gravei a demo do disco OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM num Portastudio Tascam que eu havia comprado do Augusto Licks antes de sua entrada na banda. O aparelho gravava em 4 canais, usando os dois lados de uma fita K7. Usei uma bateria eletrônica Roland 808, que anos depois viraria o xodó vintage de quem faz música eletrônica. Com a cabeça cheia de ideias e o coração ansioso para ouvi-las, não quis perder tempo lendo o manual do equipamento. Esta negligência transformou os dias de gravação num misto de paraíso criativo e inferno de luzes vermelhas piscando.

(*) Olhando a capa do disco, agora, tento me lembrar porque decidimos usar fotos em pretibranco. Não consigo. As camisas que eu e Carlos estávamos usando tinham cores lisérgicas, teriam ficado legais em cores. Já eram retrô na época. Salvei-as do lixo: eram setentices que o pai da Adriane não queria mais no guarda-roupas. Se fôssemos camisas, eu diria: "a vida é assim, num dia estamos no lixo; no outro, em capas de disco". Talvez a frase também valha para seres humanos...

A capa do LP seguia a divisão do quadrado em 9 quadrados menores já usada n’A REVOLTA DOS DÂNDIS. VÁRIAS VARIÁVEIS, o terceiro da trilogia com as cores da bandeira gaúcha, deveria ter a mesma grade mas não resisti à enxurrada de engrenagens que pintaram no disco verde. Outro motivo para o abandono: se avizinhava a dominância do CD cujo tamanho equivalia a um dos quadrados menores. 

Nas primeiras tiragens do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM havia cortes na capa através dos quais apareciam as fotos do encarte. O pessoal da fábrica reclamou muito pois muitas capas eram danificadas na pressa da linha de montagem. Uma lição que a vida real deu a este estudante de arquitetura. Reforçou algo que eu já sentia: admiração pelo design simples, funcional; e um certo desencanto com firulas. Me interessa muito mais conversar sobre o design de carros populares, por exemplo, do que sobre carros de boutique, feitos a mão, que custam milhões. Se me oferecessem escolher entre desenhar o novo Ford Ka ou a nova versão para as ruas da McLaren F1, eu acharia mais interessante o desafio do carrinho 1.0. Desenhar um coffee table book com capa dourada ou um fanzine mimeografado? Mimeógrafo já!

Bach acabou a sua vida escrevendo música em estado puro, quase uma abstração: deixou de anotar na partitura para que instrumento estava destinada, qual era o andamento. Tudo que ele fez é genial, mas eu, modestamente, prefiro seus trabalhos pragmáticos, destinados a coisas específicas: as Missas e Paixões, os estudos para teclado, as variações Goldberg (encomendadas por um conde que sofria de insônia).

Gosto dos comprometimentos da vida real, da relação custo/benefício no design, da influência do travesseiro no sonho. Compor pensando nas limitações de determinados músicos ou formatos (duo, trio, quarteto) mais me estimula do que inibe. O mundo ideal, eu deixo para a outra vida. Gosto dos ruídos desta.

(*) OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM foi gravado no estúdio mais aconchegante que conheci: a sala menor da RCA, em São Paulo. Havia vários instrumentos bacanas à disposição; entre eles, duas raridades: um baixo Rickenbacker azul e uma guitarra Fender de XII cordas. Xodós vintage...

Foram anos bem paulistas. O Rio de Janeiro havia sido o primeiro estado a nos adotar. São Paulo começava a nos entender. OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM e VÁRIAS VARIÁVEIS, na minha cabeça, têm sotaque paulista.

(*) Gosto de entrar em campo com um plano de jogo traçado. A vida, às vezes (quase sempre), nos leva a rever ou até ignorar esses planos. Mas isto nunca me pareceu justificativa para não fazê-los. Nunca pensei em planos como uma prisão, sempre os vi como sonhos. Desconfio de pessoas que valorizam muito a espontaneidade. Coloco no mesmo time das pessoas que falam muito de amor, fé... São coisas que não se busca: elas, simplesmente, são. São desde sempre. São antes de se pensar nelas.

Por entrar em estúdio com um plano de disco traçado, raramente gravei material que não fosse aproveitado. Na verdade, a única vez foi neste disco. Como as músicas são mais de quem ouve do que de quem fez, não vou falar das que já foram ouvidas. Só falarei da canção que ficou de fora do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM. E se perdeu. Para sempre. Nem Maltz e Licks ouviram.

Se chamava Palitos de Fósforo. Usava este objeto, que sempre me fascinou, como metáfora para coisas efêmeras, belas e fugazes. Muitas vezes andam de mãos dadas o sublime e a impermanência.

Nós gravávamos sem clique. Baixo e bateria, na mesma sala, olho no olho, concentração total no pulsar. A voz eu colocava depois que Augustinho gravasse a guitarra. Quando fui gravar a voz de Palitos de Fósforo me dei conta de que havíamos nos emocionado demais e perdido o controle do andamento. A base estava muito rápida. A letra soava estranha, a música perdia o sentido naquela velocidade. Desisti. Nem cheguei gravar toda a letra. Em alguma caixa de um depósito deve haver uma música incompleta, cantada pela metade.

Às vezes sonho com esta música. Já sonhei que a capa do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM era a cabeça de um palito de fósforo no momento do início da chama, quando ela parece mais rebelde e incontrolável, antes de virar aquele foguinho domesticado. Gosto da pequena explosão, do som de fogo e fricção entre palito e caixa. Frações de segundo.  Acontece milhares de vezes em milhares de cozinhas todos o dias. Nem por isso deixa de me fascinar. Quantos mil iPads precisamos para sentir o que sentiam nossos ancestrais vendo o fogo numa caverna?

Gosto da palavra “fósforo”. Sei falá-la emitindo o mesmo som que um fósforo faz ao queimar. “ffffFFÓSSSSSSFOROoooo”. Gosto de palavras. Do som e do desenho. A palavra “anxiety” falada num bom inglês é música para mim, mesmo que seu significado seja desagradável.

(*) OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM é um disco que ficou espremido entre A REVOLTA DOS DÂNDIS e ALÍVIO IMEDIATO (o primeiro teve um estouro tardio - a música que a gravadora mandou para as rádios foi A REVOLTA DOS DÂNDIS I, mas espontaneamente começaram a tocar INFINITA HIGHWAY, TERRA DE GIGANTES, REFRÃO DE BOLERO... quando OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM começava a abrir suas asas, lançamos ALÍVIO IMEDIATO - mas eu acho ótimo que a ansiedade criativa tenha falado mais alto do que o bom senso). 


Se alguém quiser contar um pouco de sua relação com este disco e seus mistérios, os comentários estão aí para isso.

(*) Comecei o texto falando no Augusto, falarei dele para encerrar. Neste disco apareceram nossas primeiras parcerias. 3 canções. Ao todo fizemos 11. Espero que esta conta não esteja fechada. Ele foi o músico mais caprichoso com quem já tive o prazer de tocar. Não sei (nunca soube ou não me lembro) se ele pensava com inteligência e sentia com emoção; mas na sua música estes dois ingredientes, sem dúvida, estão presentes.


(*) Na twitcam de abril tocarei o álbum OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM na íntegra. Dia 11, quarta feira, 22 horas. Há mais detalhes sobre o disco nos livros PRA SER SINCERO e MAPAS DO ACASO e no site www.engenheirosdohawaii.com.br

abraços 
mais calorosos e iluminados
(mas menos fugazes) 
do que a chama de um 
ffffFFÓSSSSSSFOROoooooo
10abr2012

C(*)NT(*) SEM N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 43


O cara quase desistiu no engarrafamento da chegada. Ele já não tem muita paciência para aguentar o estado selvagem que o ser humano assume quando está em multidão. E era uma multidão que se encaminhava ao estádio.

O cara já não é guri. Assistiria ao show ao lado da mulher e da filha. Dois bons motivos para não desistir. Pensava nisso já acomodado no seu lugar. Admirou as lonas pretas que cobriam todas as incontáveis propagandas do estádio. Até quando algo assim seria possível? O cara intuiu que seria a última vez que veria, ou melhor, “não veria” propagandas num show.

Quando começaram as olas na arquibancada, o cara ativou o modo “invisível”. A ola passava por ele sem se perturbar com sua imobilidade. Dizem que o mar é o local mais seguro para se estar durante um tsunami. O cara estava assim; concentrado, submerso, invisível.

Começou o show e, com ele, os soluços de choro. E, com eles, o medo de dar bandeira. Uma piada da filha o fez voltar à normalidade antes que alguém notasse as lágrimas. {Logo no primeiro efeito especial, ela detonou, irônica: “Bah, estamos na Disney!”.  Reagindo à projeção de algumas imagens anti-capitalistas, ela não poupou: “Bah, capaz que ele anda de carro popular!”}.

O humor ácido e esperto fazia com que o cara relativizasse a intensidade das emoções sugeridas por  canções que ele ouvia desde sempre. Desde muito antes de ser o que agora é. Junto com as canções vinham imagens incríveis que, graças a Deus, tiraram da sua boca o gosto amargo que, anos atrás, o filme deixara. O LP duplo sugeria muito mais do que o filme mostrou. O show fazia justiça.

Vamos dar um FastForward de duas horas, ok? O que o cara sentiu durante o show, só ele sabe. Se é que sabe...

Na tumultuada saída do estádio, ao ser perguntado sobre o que havia achado, o cara copiou a persona da filha e metralhou algumas gracinhas: “foi o power point mais caro que eu já vi”, “banda cover de luxo”, “Cirque du Soleil amador”... Obviamente não era o que ele pensava, mas o cara não queria falar sério nem ser sincero. Não agora. Para ele, o show ainda não havia terminado. Ainda estava concentrado, submerso. As gracinhas eram uma forma de manter o modo invisível ligado. Ele reconhece seus defeitos e o efeito dominó: quando a coisa fica séria, apela para o humor. Dera à sua banda um nome jocoso, apesar da seriedade com que a encara; é a coisa mais importante do "mundo lá fora". As duas coisas mais importantes do "mundo aqui dentro" estavam ao seu lado no show. Uma de cada lado. Mundo lá fora, mundo aqui dentro. O cara é um especialista em muros e grades. Mas é um grande amante das pontes e das travessias.

Ao fim de duas horas, sua cabeça estava cheia de “caracas”. Como se ela fosse um viveiro e os caracas  fossem pássaros excitados batendo asas num espaço bem menor do que o céu. Não queria que fugissem, mas queria vê-los voar. O que teria perdido se houvesse desistido no início, no engarrafamento da chegada? Lembrou do título de uma canção: I Forgot More Than You’ll Ever Know . Teria perdido mais do que muita gente jamais terá.

O cara ouviu um bater de asas, eram caracas voando:

Caraca! Os dois momentos mais intensos do show foram instrumentais: uma musica paranoica e um solo épico!

Caraca! O show não teve concessões: seguiu o programa e não deu bis!

Caraca! Nunca mais tanta gente se reunirá para ouvir canções de temas tão intensos nesta cidade tão longe demais!

Caraca! Ele desafina bem pra caralho!

Caraca! Ele é o melhor pior baixista do mundo de todos os tempos!

Caraca! O que será que aqueles olhos fundos enxergaram de lá pra cá, na contramão, do palco pra plateia? O que aqueles olhos viram dos anos 60 até este inicio de século? Estes olhos que estão no olho do furacão da música popular planetária há tanto tempo, o que viram? 


Incontáveis caracas seguem dando asas à admiração de tantos anos. O cara viu o cara. Duas vezes. Dez anos entre elas. Em dois estádios onde o cara também viu vários grenais. Estádios de dois clubes campeões mundiais numa cidade longe demais das capitais. Espelhos, espelhos, espelhos... o que o ser humano via antes deles?


03abr2012
Caraca, cara! Viajei e quase esqueci: abraços!