CANÇÃ(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 42


(*) Estranho mundo em que "O Que Estou Vendo" virou legenda padrão para fotos postadas com imediatismo arrasador. Não estou julgando, só tentando entender. 
Resolvi postar a demo de Bora para  mergulhar, a meu modo, no espírito destes tempos. A legenda poderia ser "O Que Estou Gravando".

Ao contrário das fotos filtradas de paisagens que parecem ter passado batom, esta demo não têm corretores. Na veia, sem dourar a pílula. É crua, embrionária. Gravei em casa, tentando não derrubar a erva do chimarrão no laptop, salvando meu cachorro da morte por enforcamento no cabo do violão, com a TV sem volume parada em algum canal esportivo (como uma lareira sem calor, um docinho para os olhos). Dispersão concentrada, concentração dispersa. É assim, neste caos amigo, que gosto de trabalhar. Tenho fé no discernimento dos "de fé". Eles saberão ouvir as potencialidades e relevar as imperfeições dos primeiros passos desta criança.

Bora foi a primeira canção que a sanfona me trouxe. Parece ser do time de Olho do Furacão. Ambas misturam a percepção de um mundo onde tudo que é sólido desmancha no ar com a esperança de que novas oportunidades surgirão dos escombros, das ruínas, do farelo. Não sei que rumo ela vai tomar, se um dia haverá uma versão "oficial". Engenheiros do Hawaii? Pouca Vogal? Banda de Pífaros de Caruaru? Filarmônica de Berlim? Seria como decidir o curso superior de um bebê que ainda está na maternidade.

Nesta gravação, optei por simular o formato power duo do Pouca Vogal. Duas vozes, violão e sanfona. Bumbo, pandeiro e prato disparados com os pés. Gosto das especificidades de cada formato. As limitações mais motivam do que inibem minha escrita musical. Já era assim nos tempos de power trio dos EngHaw. 

(*) Desde sempre me perguntam sobre as mudanças que, com o tempo, acontecem no processo criativo. Sempre respondi que, apesar de ter amadurecido (menos do que gostaria) e envelhecido (mais do que gostaria) escrevia como sempre escrevi.

Talvez eu deva rever esta resposta a partir da entrada em cena dos meus livros. Eles (em especial NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE) colocam o compositor em outro patamar, livre de alguns compromissos, comprometido com outros desafios. Se isso é ou será notado pelas pessoas, o que elas acham ou acharão disso, já não me diz respeito. Foge ao meu raio de ação. Tomara que faça sentido. Ao  menos para quem interessa. Ao menos para quem se interessa. Ao menos o que interessa.

(*) Pessoas “do ramo” aconselham a não mostrar demos... faz sentido... mas ao chegar em casa depois do show do Roger Waters, The Wall, fiquei ouvindo as demos dele. Também fez sentido.

um abraço é uma ponte
que ele dure 
(que ela nos leve)
até a próxima terça
27março2012




CANÇÃ(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 41

  
ela sabe muito bem o que quer
ela sabe o que precisa fazer
e vai à luta, não escuta ninguém

ela sabe muito bem o que é
que se espera de uma mulher
mas não quer nem saber
ela manda ver

ela sabe muito bem o que quer
ela sabe o que precisa fazer
e vai à luta, não escuta…

…a maioria esmagadora voz da razão
bom senso, uníssono ensurdecedor
na lua cheia ateia fogo às próprias vestes
só pra acordar de bom humor

pra enfrentar o que der e vier
só a força de uma mulher
que sabe muito bem o que quer

e ela sabe...ela sabe…ela sabe
e não quer nem saber

Mais um texto que começa numa caminhada. Um olho no minúsculo teclado do celular, outro no campo minado por buracos e bosta de  cachorro. Deja vü. Não me incomoda a repetição, até gosto de afinar minha percepção para captar as sutis diferenças entre ciclos que se repetem, aparentemente iguais. Aparências...

Mas, afinal, o que eu escrevia na minha caminhada? Respondia, por email, a um convite do jornal Zero Hora. Em matéria que sairia no Dia da Mulher, 8 “personalidades” masculinas escolheriam uma mulher que admiram. Imagino que, todos, gostaríamos de citar uma alguém do nosso cotidiano: mãe, esposa, filha... Mas, para o leitor, seria um desagradável Momento Maguila (o boxeador que, nas entrevistas depois das lutas, só falava dos patrocinadores). Por isso nos foi pedido que escolhêssemos mulheres públicas e, ficou subentendido, do nosso campo de atuação.

O texto abaixo é o que mandei. Escrito numa caminhada (não fui atropelado, não tropecei em buracos nem pisei em detritos de nenhum animal; mas, devo confessar, meti a cabeça num galho de árvore que mandou meu boné para longe).

Sou fã das mulheres, em geral, e da Joni Mitchell, em particular. O talento e a lucidez desta canadense de físico frágil deixaram marcas na música popular do planeta. Mesmo que muitas vezes a paternidade (ops, a maternidade!) dessas ideias não seja reconhecida. Ela transitou com maestria da música country ao jazz. Em se tratando de cultura americana, não é um caminho curto. Nem suave.

Tudo é mais difícil para elas. A indústria cultural não é exceção. É mais um dos inúmeros campos férteis para o reducionismo sexista. São poucas que conseguem tomar as rédeas de sua própria carreira. Joni Mitchell conseguiu.

Além de incrível compositora (de letra e música) grande cantora e instrumentista muito interessante,  ela  ganha pontos comigo porque, em certo momento da sua carreira, montou uma banda que incuía o guitarrista Pat Metheny e o baixista Jaco Patorius. Dois gênios. O primeiro, obcecado por controle. O segundo, um rebelde incontrolável. O que aconteceu com a banda? Ela dominou e os dois “piaram fino”. Tá certo, tem que ser assim mesmo. O poder é delas!

Depois de enviar o texto, aind'andando por POA, comecei a imaginar qual seria a mulher escolhida por cada pessoa que eu via na rua. Um exercício engraçado, ainda que propenso à generalizações grosseiras. Difícil fugir do estereótipo quando só se conhece alguém por um olhar de segundos.

Alguns adolescentes de pele pálida e cabelo lambido (ainda há emos em POA) eu imaginava que escolheriam aquela atriz que faz filmes de vampiro e tem cara de quem recém acordou. O mestre de obras do prédio em construção, eu imaginava escolhendo a Rita Cadilac. O cara que passou por mim tocando flauta doce (ainda há hippies em POA), deixando um cheiro suspeito no ar, escolheria Janis Joplin. 


Dilma Roussef fez muito sucesso na minha pesquisa imaginária. Madre Tereza de Calcutá teve um voto. Empatou com aquela francesa grisalha do FMI. Bah, a Xuxa teria tantos votos anos atrás! Estranho: nada, também, de Ivete Sangalo! Talvez tenha havido problema na imaginária contagem dos votos imaginários.

Quer votar? Os comentários estão aí pra isso. Estou curioso...

Parodiando o apresentador de TV que termina seu programa mandando abraços para “gaúchos e gaúchas de todas as querências", mando abraços aos homens e mulheres de todos os sexos!
20mar2012
primeiro dia do outono

CANÇÃ(*) C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 40


MILONGA DO XEQUE-MATE

um peão no tabuleiro
um cavalo em disparada
na caçamba da pick up
as lembranças da estrada

um rei, uma rainha
defendendo seu reinado
cada um com sua cor
sua corte, seu quadrado

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
quem perdeu a sua chance ?
qual foi o lance vencedor ?

um movimento: xeque-mate
silêncio ensurdecedor
poeira levantando
levando o ronco do motor

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
o futuro está na mesa
certeza ninguém tem

quem se joga nesse jogo
faz da regra liberdade
faz valer o seu valor
quem se joga de verdade

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
quem escolhe o caminho
quem caminha ao sabor...

...dos ventos e tempestades
do movimento das marés
da força da gravidade
que nos prende pelos pés

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
na força da natureza
com a fraqueza natural

quatro torres no castelo
uma canção em cada canto
quatro rodas tracionadas
para sempre por enquanto

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
o que fica para sempre ?
no caminho, o que ficou ?

sem poeira nas lembranças
da caçamba da pick up
pra seguir outros caminhos
pra que a vida não escape

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
de quem é o coração
conservado em isopor ?

longa milonga, lenga-lenga

narração do bom combate
estrada esteira aeroporto
no check in, um xeque-mate...

...amargo choque traz a bomba
com toda pompa e circunstância
até que a vida nos separe
da nossa humilde arrogância

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
a mão que está no bolso
oferece um chimarrão

no filme O Sétimo Selo

morte versus cavaleiro
está selado o destino
mais um tabú no tabuleiro

afinal quem é a peça e quem é o jogador ?
afinal quem é a peça e quem é o jogador ?

Hora dessas disponibilizo esta canção por aqui... é uma mistura da tradicional milonga, Pampa no Walkman, Longe Demais das Capitais, Infinita Highway, Faroeste Caboclo, Desolation Row, Only a Pawn in Their Game... Pretensioso? Pode ser. Pretensioso como imaginar canções. Ou descrevê-las.

(*) Na impossibilidade de dar resposta precisa a todos que me perguntam sobre meus planos para o futuro, deixo um aBAHraço emBAHraçado. Talvez seja só curiosidade superficial, mas tomo esta ansiedade como uma manifestação de carinho e interesse por minha música. Valeu!

(*) A quem acompanha meu andar trôpego e vacilante sem nada perguntar por intuir as fases da lua e o movimento das marés, vai, além do meu aBAHraço, um agradecimento silencioso. Como um filme do Chaplin. Valeu! Muito!

este veterano músico de rua virtual
tem gostado de sua esquina
como um cego que toca na praça
o que não vê, ele imagina

quando chega em casa
este veterano adicto musical
escreve milongas de 18 estrófes
nas paredes da caverna digital

 13mar2012

DISC(*) SEM N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 39


ano 2000 era futuro
há pouco tempo atrás
!tchau radar, eu vou saltar!

(*) Se estiveres andando pela rua e o vento jogar a teus pés páginas amareladas de uma revista de 1999, é provável que o texto fale do fim do século e faça sombrias previsões sobre o bug do milênio. À meia noite do último dia de dezembro, 1999 viraria 2000 e a mudança destes 4 algarismos levaria à loucura os computadores; contagem regressiva para o caos. Nada aconteceu. Uma variação do assunto sobreviveu alguns dias, ocupando folhas que talvez algum dia encontres, amareladas, num armário há muito não aberto: o novo século começaria em 2000 ou 2001?

Em 2999 estarei com 1036 anos e terei que ouvir todo este papo de novo. A única coisa que me  aborrece no passar dos anos é isso: a gente começa a adivinhar os versos de algumas canções vários compassos antes. O mesmo acontece com jornais e TV. No carnaval, Oscar, final de campeonato, entrega do imposto de renda, olimpíadas, eleições, os grandes festivais de música... não fossem os penteados e roupas dos repórteres, as matérias poderiam ter sido feitas há décadas.

É preciso uma lupa para saber o que há de novo. E há! Muito! Na verdade quase tudo é novo, sempre. Só falta a gente se dar conta. Eu sei, é sempre um risco, ao menos um desconforto, sair do padrão.  Mas a repetição é apenas ilusória: seguimos, cegos, um padrão que não há!

(*) Sobre aquelas folhas amarelada a teus pés (ou no armário): olhaste com atenção e viste alguma coisa relacionada ao disco !Tchau Radar! nelas? Que coincidência! É dele a twitcam deste mês (segunda, dia 12, 22h)!

Meu 12o disco. Gravamos as bases durante o carnaval. Não foi fácil convencer o pessoal do estúdio a embarcar nesta viagem, mas eu queria muito: em pleno reinado de Momo, na sua capital (o Rio de Janeiro), criar um mundo paralelo. O simples fato de estarmos fazendo algo tão fora do espírito da época criou uma grande sintonia entre nós. Sem esforço e sem notar, ficamos extremamente focados naquelas canções.

Backing vocals d'Olho do Furacão

Ao contrário do que fiz na twitcam do Alívio Imediato (http://blogessinger.blogspot.com/2012/02/vide-cm-ntas-de-rdape-35.html), não vou propor aqui um voo panorâmico sobre o que aconteceu em 99. Naqueles dias, eu começava a desconfiar que quase ninguém ouvia os discos, lia os livros ou via os filmes. Parecia haver mais interesse nas questões periféricas, no que é acessório. Um pesadelo em que narrador, repórter e comentarista estavam de costas para o jogo. Fazer clipes, posar para capas de discos e revistas, chocar (só um pouco, pra não assustar) em entrevistas pareciam ser a arte/ofício do músico popular. Estranho.

Senti necessidade de deixar que as canções se virassem sozinhas. Queria entregá-las sem bula. Minha participação no projeto gráfico do CD se limitou às exclamações envolvendo o nome. Tentei não criar os conceitos que sempre costuram meus discos. Quase consegui. Restou a ideia de libertação, um tchau ao olhar frio dos radares.

É meu trabalho mais maduro. Não falo isso como elogio. Nem como crítica. Sempre que faço uma visita, ele me recebe com a mesma serenidade. Não é daqueles discos que, vez por outra, me surpreendem. Não são descobertas que fazem a beleza do !Tchau Radar!, é a solidez. Um companheiro.

Tá feito o convite para que assistam à twitcam e deixem seus comentários, sempre enriquecedores. Abraços!

As guitarras Cherutti de VI e XII
já foram escaladas pra TwitCam.
A twitCAMISETA,
pra quem quiser assitir fardado, está aqui:
http://www.stereophonica.com.br/camiseta-twitcam-marco.html

Bah:  Imagino que, para muita gente, !Tchau Radar! tenha sido o primeiro contato “em tempo real” com minha música. Lembro de ver muitas caras novas nos shows. Uma terceira geração "de fé". Em que geração estamos? Ah, hoje é tudo tão diferente... talvez todos façamos parte, agora, de uma mesma geração. Ou geração nenhuma - o que dá no mesmo. Se não há ondas, todo o mar é uma onda.


Animals foi meu primeiro Pink Floyd "em tempo real". 


Minha irmã me levou a uma loja do centro da cidade para que eu escolhesse entre o Dark Side of The Moon e o Atom Heart Mother. Escolhi o primeiro, depois comprei o segundo. Economizei dinheiro do ônibus em caminhadas (dinheiro literalmente suado) para que o pai de um colega, piloto da Varig, trouxesse um Wish You Were Here americano. Era absurda a diferença de qualidade dos discos importados. Mais importante: o LP gringo vinha com um adesivo. Era o desenho de um aperto de mãos (na capa nacional estava impresso) que decorou muitos dos meus instrumentos. Violões, guitarra, bandolim... os instrumentos se acabavam e eu, cuidadosamente, tirava o adesivo para colar no próximo.


Dark Side Of The Moon, Atom Heart Mother, More e Wish You Were Here eram discos que já haviam sido lançados fazia algum tempo. Animals foi o primeiro que comprei assim que saiu, ainda quente. Que discão! Tive em LP, K7, camiseta, pôster, livro de partituras, CD, iPod... agora tá no meu celular. Companheiraço!


Mega Bah com louvor: O ano é 77. A música é PIGS, o display marca 6:10. A guitarra do Gilmour (ligada a um Voice Box) está guinchando como um porco. O homem do baixo Fender Precision preto aproveita um momento de indecisão e toca as 3 notas que mudaram minha vida. O Santo Graal dos tocadores de baixo que não querem ser baixistas! Nosso manifesto definitivo! Loosers, inúteis - não temos o que dizer mas não podemos ficar quietos, por isso tocamos air bass: um Fender preto invisível nas mãos, o quarto fechado, a luz apagada apesar do sol já ter se posto. Obrigado, Roger Waters.
05mar2012