CANÇÃ(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 38




Frequentemente me perguntam como escrevi esta ou aquela canção. Frequentemente fico com cara de tacho, sem saber responder. Não é que eu queira transformar o ato de compor num momento místico, só para iniciados. Às vezes até é, mas na maior parte das vezes a dificuldade de explicar é mais prosaica, vem do modo como as ideias pintam. Não é algo linear, não se sai de um ponto para chegar a outro pelo caminho mais curto. É uma caminhada em forma de estrela, ao mesmo tempo vamos do centro pras pontas e das pontas pro centro. E não há centro nem periferia. Putz, viu que merda de explicação? Não é fácil descrever.

Mas há exceções. Uma delas é a música que fiz em parceria com o Esteban Tavares. Talvez por ser a mais recente, talvez por ser uma parceria, fique mais fácil pensar no processo. Quando escrevo sozinho raramente deixo pegadas que eu mesmo possa seguir.

Lá vai: 3,2,1, aperte o REC, luz vermelha:

Obsessões são as pernas sobre as quais caminha minha arte/ofício. De obsessão em obsessão eu faço o meu caminho. Gaita é a mais recente. Mano Lima, Borghettinho, Gilberto Monteiro, Luiz Gonzaga, Astor Piazzolla, Sivuca e, sobretudo, Domiguinhos e Luiz Carlos Borges são meus heróis no momento.

Obcecado, estava assistindo ao DVD DOMINGUINHOS - ILUMINADO  e deixei escapar: “Porra, o cara é iluminado mesmo!”. Adri estava por perto e me perguntou: “E tu, o que és?”. Eu queria dizer “Um apagão!”, mas o que saiu da minha boca foi “Sou um rascunho”.

De estalo, pintaram estes versos:

sou um rascunho
a folha está cheia deles
de próprio punho
tentativas e erros

sou um rascunho
a vida está cheia deles
de peito aberto
tentativas e erros

hoje estou só
hoje estou cheio deles
de volta ao início
tentativas e erros

sou um rascunho
pelo jeito a mão tremia
pelo jeito pretendia
dar um jeito noutro dia

fica pra outro dia
ser uma obra-prima
que não fede nem cheira
não fode nem sai de cima

não fica pronto nunca
não fica pronto nunca
fica pra outro dia
...

Naqueles dias eu estava tentando domar uma sanfona que, ainda hoje, não me obedece. Não é fácil começar a tocar um instrumento quando se está muito acostumado a outros. Imagino que seja assim para pilotos de F1 que vão correr rally ou vice-versa. Não? Será que é fácil pra eles? Então esqueça eles, para mim não é! Neste estado mental, não quis musicar o poema. Música para mim, naqueles dias, se resumiria a tentar seduzir a cordeona, trazer para meu lado aquele bicho xucro.

Lembrei do convite que o Camarada Tavaristch havia me feito para participar de um show. Ele tem a manha da aranha, manda muito bem. Resolvi passar a letra pra ele. Muito rápido, ele respondeu com uma versão de violão e voz... alterei pequenos detalhes de métrica, ele sugeriu um novo refrão... depois de alguns vai-e-vem, a letra ficou assim:

só um rascunho
a folha está cheia deles
riscos e palavras
procurando um caminho

só um caminho
a vida está cheia deles
meu destino eu faço
traço passo a passo

sou um rascunho
pelo jeito a mão tremia
pelo jeito pretendia
passar a limpo noutro dia

hoje estou só
hoje estou cheio deles
sou um rascunho
procurando um caminho

 fica pra outra dia
ser uma obra-prima
que não fede nem cheira
não fode nem sai de cima

fica pra outra hora
ser alguém importante
se o que importa não me importa
não dá nada ser irrelevante

não fica pronto nunca
não há final feliz
não há razão pro desespero
ouça o que o silêncio diz

não tem tem roteiro certo
não espere um gran finale
tampouco espere, amiga
que a minha voz se cale

só um rascunho
um risco na mesa do bar
carnaval sem samba
outra praia, mesmo mar

sou um rascunho
torpedo no celular
sem sinal na área
sem chance de chegar

fica pra outra dia
ser uma obra-prima
que não fede nem cheira
não fode nem sai de cima

fica pra outra hora
ser um cara importante
se quem importa não se importa
tchau radar, vamos adiante

Na origem, eu tinha pensado em “tentativas e erros” finalizando cada quadra, como naqueles blues em que a linha musical sempre acaba com as mesmas palavras. Com o tempo, a dureza sonora da palavra “tentativa” e o fato de reverberar no inconsciente, como um ruído,  a expressão “try and error”, me fizeram repensar. Algumas vezes acontece: o detalhe que originou tudo não chega até o fim. Uma semente invisível no fruto. A gente tira a forma e o pudim não desanda, se foi bem feito.


Também mudei os primeiros “sou” por “só”, para que o cara se revelavasse um rascunho mais adiante na canção.

Algumas coisas que estavam acontecendo naqueles dias entraram na letra em tempo real: o carnaval longe da folia, a conexão precária do celular, os desenhos que eu havia feito de próprio punho sugerindo ideias para o livro de um amigo, um filme sem final feliz que havia visto, o próprio !Tchau Radar! (a Stereophonica havia mandado opções de camiseta para a twitcam... eu estava decidindo quais músicas faria com quais instrumento... Tavaristch falou de Eu Que Não Amo Você quando se referiu ao refrão da canção nova...  achei que ela tinha o espírito "foda-se, sou o que sou, danem-se suas expectativas" que está na origem do !Tchau Radar!).

Mandei gravações muito despretensiosas de voz e baixo. Tavaristch gravou um vocal e todos os outros instrumentos. Pra finalizar, quando ele me perguntou qual seria o título, dei cinco opções em ordem de pretensão: RASCUNHO, ESBOÇO, OUTRA PRAIA MESMO MAR, ADELANTE e... TCHAU RADAR - A CANÇÃO. Escolhemos esta. Continuidade e mudança andando lado a lado.

Taqui o resultado:

Fizemos a música sem nenhum motivo a não ser ela mesma. Tavaristch colocou à disposição na www. Rolou um zunzunzum, e #TchauRadar chegou ao topo dos TT’s mundiais. Caramba, muito louco: eu tinha tirado uns dias pra ficar na minha, faxinando o estúdio e tentando me entender com a danada da gaita e tudo isso aconteceu!

Aprendi muito dando uma olhada nos comentários que entraram madrugada adentro, quase todos numa vibe muito boa. Alguns poucos me fizeram pensar o que diriam no twitter quando passei da guitarra pro baixo e um guitarrista de outra praia entrou nos EngHaw, quando gravei Gaúcho da Fronteira (outra praia), quando gravei Jovem Guarda (outra praia), quando fiz o Gessinger Trio... só curiosidade. 


Com o tempo, a ficha cai. Tem caido. Outra praia, mesmo mar. As portas permanecem abertas, tome o tempo que precisar. Ninguém aqui tem pressa, ninguém aqui esta preso.

Foram 10 dias entre o início da composição e a primeira vez que tocamos a música ao vivo, em POA. Parecíamos velhos conhecidos, nós, o público e a canção. Às vezes o tempo não se mede com números nem dias nem metrônomos nem relógios.

(*)

Bah: O baixo merece uma história breve dentro desta breve história. Eu tentei gravar com o fretless Tobias, mas ele estava com ruído. A ansiedade em registrar a ideia me fez, em vez de consertar o problema, pegar o Warwick. Tava com a bateria morta. Fui trocar, ela havia colado nos contatos. Ao tentar tirá-la, danifiquei os contatos. O Rickenbacker estava com cordas podres. Do Zeta, não achei o tripé. Acabei gravando com um Steinberger. Foi bom. 


Às vezes esqueço porque adotei os Steinberger, com aquele design funcional e moderno (pra época), logo eu que me amarro tanto na história dos instrumentos mais antigos. Em momentos como esse me lembro que eles são companheiros que nunca nos deixam na mão!


no deserto de Mojave, em 93
não encontrei Jim Morrison
nem John Fante
nem personagens do Pergunte ao Pó
seria surreal encontrá-los?
mais surreal do que encontrar
(tão longe demais)
 um porto-alegrense tocando sanfona? 
Um abraço a todos! De forma especial a quem participou de algum momento (mesmo que breve) desta breve história.
28fev2012

VIDE(*) C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 37



Sou um prisioneiro. Escrevo arranhando uma lasca de carvão nas paredes da masmorra onde fui jogado pelos malvados guardas do diabólico Rei Momo... 

Nah! Tá muito dramático. Vamos de novo:


Sou o que sempre quis ser, Bobo da Corte do benevolente Rei Momo...

Nah, desisto! Não há ficção que pareça crível ao lado da incrível ficção do carnaval. Melhor bater um papo com os amigos que me leem, reais ou ficcionais.

em doses homeopáticas
em escala industrial
tudo acaba em samba
é sempre carnaval
...
dançamos no silêncio
choramos no carnaval
não vemos graça nas gracinhas da TV
morremos de rir no horário eleitoral
...
louco pra ficar legal
longe da euforia carnaval
...
neste deserto freezer 
carnaval e solidão
andam lado a lado
em perfeito estado de conservação

(*) Quem conhece estas músicas pode achar que não gosto do carnaval. Não se trata disso, acho que o Brasil pode mesmo se orgulhar desta festa. Só não é pra mim.

Aproveito o feriado para seguir em sentido oposto ao fluxo. Adoro baixas temporadas. “Litoral no inverno, serra no verão” é meu moto. Acho “gente” uma coisa tão especial que deve ser administrada em doses homeopáticas. E o silêncio, ah... este é o verdadeiro luxo! Não me venha com incríveis carros do ano, restaurantes badalados, quinquilharias digitais e passaportes cheios de carimbos exóticos. Luxo é ter o tempo e o silêncio que se quer e precisa.

(*) Pra ser sincero, a música que levaria  meu corpo da inércia à dança é nordestina. Não estou muito certo quanto à nomenclatura: baião, xote, xaxado... Me explico melhor dizendo que é o som de Luis Gonzaga, com sanfona, zabumba, pandeiro, triângulo. Isso exerce forte poder sobre mim. “Baião”, a música, me deixa ao mesmo tempo alegre e triste. Acontece isso quando ouço “Help”. Seja a voz do John ou a sanfona do Luiz, são poucas canções que me causam isso. E isso é bom.

Do samba, gosto mais lento. Este que as escolas tocam, seja pelo astral de competição ou por substâncias aceleradoras na corrente sanguínea do pessoal, me parece uma marcha. Muito ligadinho, sem malemolência.


(*) Apesar de não ser um carnaval muito prestigiado, as escolas de samba portoalegrenses têm os nomes mais divertidos:  Bambas da Orgia, Fidalgos e Aristocratas, Estado Maior da Restinga,  Protegidos da Princesa Isabel, Embaixadores do Ritmo, Sultans of Swing. Ops, me enganei: esta útlima é uma música do Dire Straits.

(*) Tem sido legal meu Carnaval 2012:
No sábado, esperei a barra do dia pra gravar  o video acima (eu sei, na canção o amanhecer é metafórico mas quis ser literal justo no carnaval, onde nada parece ser o que é).
Vi alguns filmes bacanas como Segredos De Um Funeral e li contos do Isaac Bahevis Singer (de tão boa, estou intercalando esta leitura com outras para que o livro dure mais).
Escrevi uma letra que mandei para um novo parceiro (idas e vindas de frases e acordes deixaram um rastro de novas possíveis canções).
Ouvi muitos babacas passarem com carros vomitando som absurdamente ruim absurdamente alto (deixei DVDs do Yamandu, Borghettinho e Dominguinhos rolando, trilhas sonoras do feriado: absurdamente bom).
Assisti, pela TV, meu time perder (derrotas não são nada perto da encheção de saco da futepolítica, futebusiness e outras futebabaquices).
Corri e caminhei intensamente morro acima e abaixo (ah, a endorfina é um trago que a gente mesmo destila, um vinho do qual somos a uva).
Revisei a revisão do livro novo, NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE (nele, falo do carnaval em que conheci Iron Maiden. No PRA SER SINCERO havia falado do carnaval em que gravei o !tchau radar!) .
Passei as noites sonhando e os dias dormindo (como canta Joaquin Sabina).
E ainda não acabou... 


Teu carnaval, como tem sido? Como foi? Dizaí!

Depois daquelas últimas montanhas, é o litoral gaúcho.
Um pouco além, a África. Origem de tudo.
Pela janela, em algumas noites o vento trouxe sons do ensaio
de uma Escola de Samba composta pelos Oriundi Alles Blau
que moram lá embaixo, no vale.
Quesito swing: zero. Quesito esforço: nota dez!


Quesito abraço sincero: DÉISHHH, nota DÉISHHH!!!

21fev2012

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 36



eu vivia esperando a vida aparecer no Jornal Nacional
com o olhar preso no vídeo
eu esperava o suicídio de algum boçal
você apareceu e disse:
"cara, eu prefiro outros canais!" 

Como se a vida tirasse férias na entressafra do verão, um reality show da rede de televisão hegemônica toma conta do país. A grosso modo, tudo que vale a pena ser dito a respeito do programa já foi dito há várias edições. As muitas críticas geralmente são mais interessantes do que os poucos elogios. Pelo sabor do exercício, vou tentar fazer um elogio: “talvez seja melhor ver aquilo do que estar morto”. Preste atenção, eu disse TALVEZ! Vai depender da sua crença a respeito do que acontece depois da morte.

A rede de TV hegemônica sempre foi suficientemente escrota para babar ovo dos governos mais escrotos e suficientemente esperta para comprar os equipamentos e a mão de obra mais espertos. Não me surpreende a força que ela tem. Também não me encanta. Ao menos  podemos trocar de canal sem sair do sofá. Se as pilhas do controle remoto não estiverem gastas e se ele não tiver sumido (dica: deve estar entre as almofadas!).

Condenar a TV pelos programas ruins que a dominam é como jogar a criança fora junto com a água suja do banho. Dou um exemplo que aconteceu comigo na semana passada: zapeando, em menos de 40 minutos, tive duas aulas...

(1) ...aprendi um monte numa entrevista com Heraldo do Monte. Ele tocava guitarra e viola caipira no Quarteto Novo, grupo formado para acompanhar Geraldo Vandré. Seus companheiros eram Airto Moreira (bateria e percussão), Théo de Barros (violão e contrabaixo) e Hermeto Pascoal (flauta). Todos músicos extraordinários.

Eles resolveram, ao formar o grupo, buscar novos caminhos: uma sonoridade brasileira, diferente do jazz que os havia influenciado muito. Nesta busca, resolveram ficar um ano sem ouvir música. Só ouviam o que tocavam. Não iam a shows. Não ouviam discos. Quando entravam num táxi, pediam para o motorista desligar o rádio. Que maravilha! Sensacional!

Não me refiro à decisão em si, eles poderiam decidir o contrário: passar um ano ouvindo tudo a toda hora. O que acho incrível é a disciplina, a dedicação. Quem, hoje em dia, faz isso por sua arte-ofício? Quem se joga no escuro, na tentativa de materializar uma visão sem pensar em recompensa imediata? Quem?

(2) ...aprendi outro tanto vendo uma entrevista com o documentarista Sílvio Tendler, diretor de filmes sobre JK, Jango e Os Trapalhões  (os três documentários mais vistos do cinema brasileiro). Muito legal o que ele, um cara de esquerda, fala sobre a experiência de trabalhar com Didi e sua turma.

A grande aula desta entrevista aconteceu quando Sílvio Tendler falou da conversa com o geógrafo Milton Santos, que acabou virando outro documentário. Na época (anos 90) estavam todos embriagados pelas novidades do mercado global. O neo-liberalismo era o pensamento hegemônico. Mais que uma onda, era um tsunami. Mas o velho intelectual baiano não caia neste canto de sereia. Questionado sobre a razão de seu pessimismo quando tudo parecia estar melhorando, professor Milton Santos disse; “Não vai ter pra todos.”

Mestre! Enxergou longe e antes. E nem precisou de câmeras escondidas para dar uma “espiadinha”.

Fica meu abraço e agradecimento
pelos comentários no post passado, 
a respeito do Alívio Imediato.
Preparem suas lembrancas do !tcahu radar!
Valeu!
14fevereiro2012

VIDE(*) C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 35




Qual era tua idade em 1989?
Como? 
O que significa aquele tracinho antes do algarismo?
Ah, entendi, é um número negativo; 
ainda não tinhas nascido!

Contar os anos antes de nascer é um bom uso da liberdade poética. Antes de Cristo, contamos ao contrário: algo que aconteceu em 10 AC é posterior a algo que aconteceu em 100 AC. Não sabemos até quanto contar em AC nem em DC. Infinito (espero) nas duas direções.

Seguindo a poesia cartesiana: confesso achar estranha a matemática que me diz haver passado mais tempo entre a gravação do Alívio Imediato e hoje (23 anos) do que entre a gravação do Wish You Were Here e a do Alívio Imediato (14 anos). Não vou tomar o  tempo de vocês tentando explicar a estranheza desta equação matemá(poé)tica. Mas, creiam-me, é estranho.


Ah, se eu fosse um cara bem educado, não teria começado o texto com esta sopa de numerozinhos. Começaria agradecendo pela companhia nas twitcams. Especialmente nesta série em que tenho tocado discos na íntegra. Sábado, dia 11, é a vez do Alívio Imediato. Estou na boa expectativa. As twitcams têm deixado uma confusão agradável na minha mente (ou espírito: como se trata de uma confusão, ainda que agradável, é difícil precisar onde ela pulsa. E, se pulsa, será no coração?).

Às vezes, me sinto viajando ao centro da terra (como Julio Verne, Rick Wakeman). Às vezes, me sinto no espaço sideral, vendo, de muito longe, o planetinha azul (como Neil Armgstron). E os dois pontos de vista se misturam numa mesma visão. Será que a twit-câmera capta?

Farei esta twitcam tocando guitarra, sanfona e o set de pés que uso no Pouca Vogal. Quer ouvir uma versão bacana, de power-trio? Sugiro a original. Na próxima vida quero ser um desses músicos, maduros e profissionais, que tocam exatamente igual do primeiro ensaio ao último show e tratam de curtir a vida. Espero que venha com outra cabeça da próxima vez, senão não vou curtir “curtir a vida”. 


Ah, mas arte é vida (arte é viva ou não é arte)! Agora e em 1989. Nesta vida, sigo sendo gauche (com licença do mestre Drummond:  Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida). 


(*)

Gravamos o Alívio Imediato nos shows dos dias 7, 8 e 9 de julho, no Canecão-RJ. Na época, a casa ainda tinha, forte, a mística de ter sediado a gravação de vários discos clássicos dos grandes nomes da MPB. Duas músicas, inéditas, foram gravadas em estúdio pois nos interessava o contraste entre os dois ambientes.  

No dia anterior à estreia, me mudei de Copacabana para a Fonte da Saudade. Um apartamentinho muito simpático que Adriane transformou num lar. Nossa primeira casa própria, fruto do trabalho. Com o pó da mudança, fiquei com a garganta estranha. Lembro de ter passado a noite preocupado com isso pois os discos ao vivo eram gravados ao vivo(!!!). Ainda é assim?

Alívio Imediato marcou muitos inícios. Vou citar alguns insignificantes, pois Deus está nos detalhes: a troca dos baixos Rickenbacker pelos Steinberger, a troca dos estúdios paulistas pelos cariocas, o acréscimo dos teclados... Estávamos mudando de patamar. Nossa grande sabedoria foi transformar isso em liberdade. É nesse estágio (de transição) que muitos artistas caem na rede dos comprometimentos.

Enfim... esse trololó desconexo e fragmentado tem o objetivo de (além de convidá-los a assistir à twitcam) sugerir que deixem comentários falando sobre como se relacionam/relacionaram com o disco. É tão bacana transformar percepções individuais num abraço coletivo!

 (*)

Bah 0: Me enganei no video: a data da twitcam é 11fev, sábado! 22h.


Bah 1: Como sempre, vai o toque: mais detalhes (e detalhes mais objetivos) sobre o disco estão no livro PRA SER SINCERO e no site www.engenheirosdohawaii.com.br


Bah 2: "Gauche" não é "gaúcho" com erro de datilografia! É "esquerdo" em francês... à margem.


Bah 3: no 89 esportivo, Ivan Lendl e Steffi Graf dominaram o circuito do tênis. Alain Prost ganhou o título da Fórmula 1. Émerson Fittipaldi ganhou o campeonato de Fórmula Indy, incluindo as 500 milhas de Indianápolis. Grêmio foi campeão da primeira Copa do Brasil, Vasco foi campeão brasileiro e Milan ganhou a Liga dos Campeões.

Bah 4: morreram Salvador Dali, Raul Seixas e Paulo Leminski, o Dalai Lama ganhou o Nobel da Paz, caiu o Muro de Berlim, Collor foi eleito presidente e o Bush Pai toma posse pela primeira vez... em 89.


Bah 5: em 5 anos eu havia deixado de ser um estudante de arquitetura e era um músico com 4 discos lançados: LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS, A REVOLTA DOS DÂNDIS, OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM e ALÍVIO IMEDIATO. 3 discos de ouro. Uma coisa impensável, à época, para um músico gaúcho. Se me dissessem que era só o início, eu ficaria chocado. E feliz.

pra quem me faz companhia
sobre o chão que se move
desde sempre
desde hoje ou desde 89

pra quem tá na parceria
sob sol e sob chuva
que o abrigo deste abraço
caia como luva 
 07fev2012