P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 34


fala agora: onde está quem está no seu lugar?
num espelho? numa estrada? esperando o inesperado?

Nos bate-papos esportivos, na falta de assunto mais momentoso, frequentemente pinta a questão “é necessário ter sido jogador para ser técnico?”. Sempre tem alguém que responde “Pra ser jóquei não precisa ter sido cavalo!”. É um clássico da oratória.

Cada caso é um caso (isto vale para todos os casos), mas não me parece coincidência que grandes técnicos tenham sido jogadores medíocres (Felipão no futebol, Brad Gilbert no tênis). Faz sentido: eles tinham que superar suas limitações otimizando seus recursos (tutano!). Imagine Pelé ou Maradona dando instruções a seus atacantes: “Pega a bola, dribla cinco e mete no canto onde o goleiro não está. E faz isso 3 vezes, tá?”. Fácil, né? Não poderia dar certo.

Na produção musical rolaria algo parecido. Se Jimi Hendrix produzisse um solo, diria: “Cara, faz esta guitarra pegar fogo, toca coisas que ninguém nunca ouviu e que todo mundo precisa ouvir!”. Se Jaco Pastorius produzisse uma base: “Véio, toca como se o baixo fosse um coração bombeando sangue e suingue para o resto da banda!”. Fácil, né? Pra eles.

Os pré-requisitos necessários ao bom produtor (ou técnico ou professor) são quase opostos aos necessários ao bom artista. Ele não precisa ser autoral, pelo contrário, tem que ter um estômago bem flexível.

Meu estudo formal de música se resume a alguns meses de aulas de bandolim. O resto aprendi sozinho (isso é só um modo de falar, sozinho não se faz nada e nada se aprende - quis dizer que aprendi sem um  professor). Se eu nascesse de novo, buscaria os melhores professores. Mais por divertimento (adoro exercícios, escalas, teoria) pois não creio que melhorasse minha escrita musical.

Quem me ensinou a tocar violão, viola caipira, piano, baixo, guitarra, gaitas de boca e de fole foram minhas canções. Eu não sei tocar os instrumentos, sei tocar as canções. Se por um lado corro o risco da auto-referência estéril, por outro, sei que tudo que crio tem meu DNA impresso. E, no fim das contas,  quem tenta aprender tudo com todos e agarrar o mundo com as mãos corre o risco de ficar com as mãos esterilmente vazias.

Ensinar a si mesmo, aprender com as próprias canções... não recomendo este bootstrap a ninguém. É perigoso. Olhar pro espelho, recomendo. É necessário. A fina linha que separa o perigo da necessidade, é tarefa de cada um desenhar. Nenhum mestre pode fazer isso por nós.

(*)

Por que essa pressa? O caminho mais curto entre dois pontos pode ser uma benção ou uma maldição. Cada caso é um caso (isso continua valendo para todos os casos).

perder o rumo é bom
se perdido a gente encontra
um sentido escondido em algum lugar

(*)

Bah 1: Pode ser coincidência e azar, mas aonde quer que eu olhe, vejo gente deitando cátedra e cagando regra. É muito professor pra pouco aluno! Bastam 15 minutos de TV ou www para que todos os problemas do mundo físico e espiritual estejam solucionados. Em alguns casos, fico pensando “por que não aplicam isso na própria vida?”. Às vezes é difícil acreditar que aquelas palavras saíram daquela boca. Que aqueles dedos teclaram aquelas frases. Estes senhores que sabem tudo poderiam ter dado uma olhadinha no espelho antes de sair de casa, né? Não gosto deste ditado, acho injusto com grandes mestres, mas às vezes dá vontade de dizer: quem sabe faz, quem não sabe, ensina.


Bah 3: esta aprendi num filme do Wim Wenders: falar sozinho, mais que falar, é ouvir.

um abraço abraçado na cordeona
na gaita de fole, na sanfona
ah, o sul,
com suas imagens fortes e belas
onde mais
um abraço seria um “quebra-costelas”?
31jan2012
Bah, já foi janeiro!
Bem vindo, fevereiro!

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 33


da janela do avião eu vejo Porto Alegre
vejo o futuro em flashback

Embarcando num voo BH-POA, recebi email do jornal Zero Hora perguntando se eu poderia escrever um texto sobre "férias no litoral gaúcho". Por estar revisando meu novo livro, compondo, preparando uma twitcam e por não me ocorrer nada interessante para contar, respondi que precisaria de uns dez dias.

Ao desligar o celular para a decolagem, as ideias começaram a pintar. Na metade do voo (qual será o meio do caminho entre BH e POA?) eu já havia escrito o texto. Depois de publicado, várias pessoas mandaram elogios, entre elas dois escritores que respeito muito. Fiquei naturalmente envaidecido. Ao mesmo tempo, me parecia muito fácil  escrever sobre o que pensamos e sentimos. Doce ilusāo...

Alguns dias depois, o mesmo jornal me pediu um curto depoimento sobre o que curto em POA. Expliquei que não sou turista da minha cidade: o melhor restaurante, a melhor vista, o mais isso e o maior aquilo não fazem minha cabeça. O cara do jornal me tranquilizou dizendo que podia ser algo pessoal, não precisava ser um papo turístico (meu depoimento estaria ao lado de outros vários que certamente citariam praças, parques, por do sol, rio... estas coisas que povoam o imaginário porto-alegrense). "Já te mando", repliquei. Doce ilusão...

Se fosse palavra falada, eu estaria gaguejando até agora. Na tela branca do computador, eu só via o cursor piscando, esperando palavras que não vinham. E, quando vinham, não diziam a que vinham.

Numa das tentativas, escrevi que me encantava em POA o sotaque do qual não gosto. Que porra de frase é essa?!?  Um elogio às avessas?!? Apertei a tecla delete com força suficiente pra apagar todas as pixações do muro da Mauá!

Todas as tentativas de explicar minha paixão por POA pareciam me pedir para ficar quieto, sair pruma caminhada, assobiar uma melodia... Pensei em outras paixões e me acalmei ao notar que sobre nenhuma delas era fácil falar de forma linear e em tons pastéis. Melhor ficar quieto do que encher o saco de algum leitor dominical sonolento com minhas teses sem defesa sobre a cidade em que nasci e escolhi viver.

Putz, que merda, acho que escrevi este texto para dizer que não sei escrever! Mas vocês, que são uns anjos, dirão que não é nada disso, que a paixão (bichinho fortifrágil) é mesmo difícil de capturar. Pô, valeu a força!

atrás do muro existe um rio
que na verdade nunca existiu

Bah 1: O Muro da Mauá, em Porto Alegre, foi construído depois que uma enchente, em 1941, castigou a cidade. O acesso ao porto ficou limitado por alguns portões que, apesar de nunca terem sido fechados (ironicamente nenhuma enchente, depois de 1941, justificou o muro), gradualmente foram distanciando cidade e rio.

Outro golpe sofrido pelo Guaíba: lá pelas tantas descobriram que não se tratava "tecnicamente" de um rio. Se não me engano, seria um lago... mas frequentemente me engano. E não sou técnico, sou só um porto-alegrense.



um abraço desde o paralelo 30!
24jan2012

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 32


façamos um trato:
você desliga o telefone
se eu ficar muito abstrato

(*) Se alguém acha o papo no BloGessinger muito abstrato, já deixo aqui meu grande e sincero abraço!


(*) Se alguém, por sua conta e risco, seguiu lendo, proponho mais uma dessas perguntas sem resposta (pois caminhar vale tanto quanto chegar): qual a experiência mais rica de significados, ver um jogo de futebol ao vivo ou o videotape, já sabendo o que aconteceu? Ler um livro pela primeira vez ou relê-lo?

Sabendo de antemão o resultado do jogo (o fim do livro), podemos analisar os detalhes de forma mais objetiva e racional,  ligar causas e consequências de cada lance sem precisar vagar por tudo que poderia ter sido e não foi.

Sem saber o que aconteceu, compartilhamos com os jogadores a incerteza de cada jogada, os possíveis futuros que cada segundo traz. Ao ver o jogador correndo para bater o pênalti, não estaremos só esperando que a bola entre onde já sabemos que entrou. Estaremos especulando uma defesa do goleiro, uma bola fora ou na trave, um gol no outro canto. Talvez seja um daqueles casos em que sabendo menos sabemos mais.

Impor ao passado o ponto de vista do presente é uma armadilha, o tal determinismo retrospectivo. Deixamos de lado vários possíveis desfechos de um lance ao favorecer aquele que realmente aconteceu. Começamos pensando que ele era possível, passamos a achá-lo lógico e acabamos acreditando que ele era inevitável. E inevitável é uma palavra com raríssimas aplicações.

(*) A música é um caso à parte. Ela cria sua própria hora, silencia o tic-tac do relógio, destrói os diques do tempo, as represas do passado, o muro do futuro. Quanto mais ouço uma boa canção, mais nova ela me parece.

(*) Meus emails quase sempre têm post-scriptum. Me sinto um canalha cada vez que coloco um p.s. num texto digital. Eles só fazem sentido no mundo físico, quando o cara esquece algo, não quer borrar a folha e, lá embaixo, faz o reparo. No mundo digital (cut, paste, undo) tudo está a um clique de ser refeito. A edição não deixa rastro.

Dura pouco a sensação de que sou um canalha: há espaço, sim, para o p.s. num texto digital! Ele cria uma nova camada de leitura, enriquece o texto. Deixa claro que aquela informação pintou depois. Mais que isso: deixa claro que a gente não quis esconder que aquela informação pintou depois. Honestidade. Fidelidade. Espero que nossa urgência de viver não apague as palavras com muitas sílabas. Espero que nossa pressa de chegar não nos deixe cegos para a paisagem, surdos para o silêncio, cansados para abstrações.

(*) Parece óbvio dizer que passado e futuro são duas coisas completamente diferentes. Mas nós os tratamos como se fossem a mesma coisa: uma quantidade de tempo. Há uma assimetria intransponível entre passado e futuro. São alhos e bugalhos. Incomparáveis. O passado não é o futuro que já aconteceu. O passado É. O futuro SÃO.

Talvez o tempo não corra linear como água saindo de uma torneira... talvez se pareça mais com catchup saindo aos trancos das antigas embalagens de vidro. Talvez o tempo esteja se lixando pro que eu penso dele. Talvez? Certamente.

(*) Putz,  acho que um monte de gente desligou o telefone...


Bah 1: não se usam mais fitas, mas a palavra ainda é videotape, né?  Replay acho que não se usa mais... Olho no lancêêê! Peeeeelas barbas do profeta! Feitooo! Aaaaaaaconteceu, torcida portiguar! Aaaaadivinhem! A batiiiiiiiida! Que beleeeeza! Tá lá o corpo estendido no chão! Gol-gol-gol!

Bah 2: Dia desses, visitei um blog que usava palavras riscadas com um traço, como se o cara tivesse se arrependido do que disse. Ainda legíveis, estas palavras eram usadas de forma irônica. Uma ferramenta interessante, ainda que de leitura cansativa.

Bah 3: Sobre assimetrias e coisas que viram outra: me lembrei da frase do Mário Quintana, "a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer". 

17jan2012

OS HIPPIES DA CASA AO LADO


Tenho amigos que gostariam de viver num futuro em que viagens interplanetárias fossem coisa corriqueira. 
Conheço pessoas que gostariam de ter passado a adolescência na época dos Beatles. Eu, se pudesse me reposicionar na linha do tempo, seria mais modesto: só queria ter sido criança depois da chegada do protetor solar.

Eu passava 60 dias de verão na praia. O primeiro, jogando bola; os outros 59, tratando das queimaduras do sol. Pimentão, pantera cor de rosa, camarão... a lista de possíveis apelidos é longa. Não se constranja em aumentá-la. Mas não precisa me falar, ok?
            
Na impossibilidade de dormir pendurado pela língua num cabide, o jeito era se lambuzar com uma pomada amarela que manchava tudo que eu tocava (ah, pobre Midas!). Outra medicação, de cor rosa, era gelada demais para a pele febril e criava uma casquinha irritante. Num verão de triste lembrança, inventaram que a solução seria passar vinagre. Como efeito colateral, ele foi banido das minhas saladas pelo resto da vida.
            
Espero que o leitor não esteja tomando o café da manhã pois tenho que falar das bolhas que cresciam nos ombros. Duas enormes gemas de ovo frito. Era necessário furá-las com uma agulha e deixar uma linha de costura pendurada por um tempo. Não sei se era uma simpatia ou se aquilo realmente ajudava na drenagem. Livros de Vampiro? Frankenstein? Coisa pra iniciante!
            
Havia o lado bom, é claro. A praia era o nosso Discovery Channel: sapos do tamanho de paralelepípedos, cobras traiçoeiras, cavalos selvagens, vagalumes cuja luz podia ser vista por satélites, besouros do tamanho de um fusca. Para um guri de cidade, era selva!
            
Nos fins de semana, rolava o Campeonato Praiano. Bah, que espetáculo! Era uma  mistura de futebol e luta livre. O beach soccer que passa na TV hoje parece jogo de amarelinha comparado aos Praianos.
            
Meu verão favorito? Aquele em que um bando de hippies alugou a casa ao lado. Montaram amplificadores e bateria no jardim e inundaram o silêncio atlântico de rock'n'roll. Muito tímido, eu ficava o dia inteiro inventando desculpas pra passar em frente à casa deles. Ia e voltava, ia e voltava, sem coragem de parar, fascinado pelo som. Se andasse em linha reta, teria chegado em Porto Alegre. Os cabeludos pareciam ser muito distraídos na cozinha: rolava um cheiro constante de coisa queimada. Anos 70. Foi o mesmo verão em que Picasso, goleiro do Grêmio, alugou uma casa na vizinhança. Morram de inveja!            

Esqueci de falar do mar, né? Foi proposital: até hoje não sei nadar! Mas isso é papo pra outro verão.

08jan2012

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 31


daqui não tem mais volta
pra frente é sem saber
pequenos paraísos
e riscos a correr

(*) Madrugada entre shows. Escrevo na escuridão de uma estrada em Minas. Soa familiar para vocês? Para mim é tão natural quanto eu gostaria que fosse. Um monte de fantasmas de outras viagens divide espaço com o ronco da equipe neste ônibus. Outras viagens guardam algo da mesma viagem.
           
Greg Ladanyi produziu o nono disco dos Engenheiros do Hawaii, Simples de Coração. Eu estava passando por uma destas trocas de pele pela qual todos passam e costumo ficar mais fechado, na minha, nestes períodos. Produtor de sucesso, com um Grammy no armário, ele também estava num momento de transição, começando a exportar seu trabalho. Demorou um pouco para nos entendermos.
           
Foi um mal entendido bobo que ajudou a quebrar o gelo. Num jantar, ele reclamou que eu chamava ele, preconceituosamente, de "gringo". Não entendi a queixa. Já ia dizer que ele estava delirando quando me dei conta do que havia acontecido. No sul, costumamos chamar os imigrantes italianos de gringos. Por isso, às vezes, chamo Adriane de gringa, geralmente em meio à alguma brincadeira. Sem entender português, Greg ouvia a palavra seguida de risos e pensava que estávamos tirando onda com ele.
           
Sem entender uma palavra de português, para Greg tudo era som. Uma vez me pediu para tirar a última palavra de um verso, tive que explicar que aquilo não era uma palavra, eram as duas últimas sílabas da palavra anterior. Este foi o aspecto mais interessante daquele trabalho. Me sentia mostrando quadros  para um daltônico. Greg não era músico, o que deixava o papo mais abstrato ainda. Eram necessárias duas traduções: uma de idioma, outra de conceitos.
           
Como traduzir  anos e anos de significados que as palavras acumulam? São intraduzíveis. Como explicar as rimas que já passaram por tantas canções, sempre as mesmas, nunca iguais? Isso não quer dizer que um daltônico enxerga menos. Sem as cores, ele acaba se fixando nos formatos. Outros olhares sempre enriquecem a paisagem.
           
Figuraça, o Greg. Alto pra caramba e com voz tonitroante. Grandiloquente como toda a cultura do entretenimento estadunidense, ele ficava indignado que meu carro fosse compacto, só com duas portas. Não sei porque, ele me chamava Gentle Giant (de horse e horseman, também). O apelido cairia bem nele. De cada passeio por Copacabana ele voltava apaixonado por alguma mulher. Perdidamente.
           
Recentemente fiquei sabendo que Greg faleceu. Fiquei duplamente chocado, com a notícia e com a forma como aconteceu. Ele estava na Grécia, assistindo a um show de uma cantora que ele produziria, expandindo seu raio de ação. Caiu do palco, bateu a cabeça.
           
Hoje ele está muito vivo neste ônibus escuro em que escrevo. Ainda ouço uma animada conversa entre ele e Alexandre Master, nosso técnico de som. Em 1995, antes de irmos para Los Angeles gravar o disco, Greg veio ao Brasil assistir a alguns shows, conhecer melhor a banda. Um desses shows foi em Santos. Na viagem de volta, Alexandre Master e Greg, gigantes gentis, bateram um papo que parecia divertidíssimo durante  horas, a RIO-SANTOS inteira. O detalhe que tira e dá sentido à história é o seguinte: Master não domina o inglês, Greg não entendia uma palavra de português. Um começava : "Cara..." e o outro continuava: "...man!". Pra melhorar a conversa, era Master que ia em inglês e Greg que voltava em português! Conversavam numa espécie de esperanto compartihada por todo saltimbanco, desde sempre.

Um abraço simples, mas de coração.


Pra twitcam 
(quarta, 11jan, 22h, Simples de Coração na íntegra) 

optei por instrumentos acústicos 
(piano, bandolim, harmônicas e violões de aço, nylon e XII cordas). 
Tudo captado por um só  microfone.

Gravando composições no quarto de empregada que Adri transformou 
no Estúdio Irradiação Fóssil.
A casa é pequena mas o coração é grande, diz a sabedoria popular.
Provavelmente Clara estava cantando Por Acaso.
Seu sotaque, à época, misturava a fala gaúcha, carioca e cearense
(graças à Rose, sua babá).

Bah 1: Há uma contradição no Simples de Coração: apesar de ter a roupagem mais mainstream de todos os discos da banda (com um quinteto e vários excelentes músicos convidados), as músicas, em algum momento, sempre quebram regras consagradas da canção pop. Me dei conta disso agora, preparando as canções pra twitcam. Na época, havia tanta coisa rolando (como é comum em momentos de mudança de fase) que isso me passou batido. Vai ser difícil alguma twitcam me dar tanto prazer, na sua preparação, quanto esta. Eu estava me devendo uma releitura deste disco.

Bah 2: mais infos e infos (talvez) mais objetivas sobre o Simples de Coração podem ser encontradas no PRA SER SINCERO - 123 Variações Sobre o Mesmo Tema ou no relase distribuído à imprensa na época do lançamento (no site www.engenheirosdohawaii.com.br).

Bah 3 : Se alguém quiser compartilhar alguma história relativa ao disco ou à época, os comentários estão aí para isso. Rolaram depoimentos emocionantes quando das twitcams do Filmes de Guerra Canções de Amor e do  Surfando karmas & DNA.

Bah 4: Pra fechar, uma frase do Deluqui, num distante 1995: "os Raimundos vão de Lavou Tá Novo e tú vai de Simples de Coração?!?"

10jan2012

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 30



eu me sinto um estrangeiro
passageiro de algum trem
que não passa por aqui
que não passa de ilusão

(*) Parece que estou parado e que o chão é que se move. Eucaliptos apressados passam. Passam dias e semanas. As esquinas também passam. Chuto a pequena pedra, ela fica parada comigo pois é a calçada que passa. As árvores, os muros e as grades passam.  Agora, até a pedra, que parou, passa por mim. Eu sigo. Uma estrela numa propaganda de uísque  manda "keep walking", eu obedeço.           
          
Quando a sinaleira passou por mim, ouvi o som que nunca ouvira: verde-CLAC-amarelo-CLAC-vermelho... a sucessão tem som! Inaudível dentro dos carros ou mesmo fora, se a cidade estiver no seu ritmo normal. Seu anormal ritmo normal. Para mim, hoje, tudo pass-a-normal. O feriado libertou os prisioneiros, foram para serra ou litoral. A cidade está silenciosa. Dá pra ouvir a sinaleira trocando de cor. CLAC!
          
Fora da minha cabeça, por quanto tempo estas ideias sobreviveriam? Como vírus e bactérias  que morrem expostos ao ar, ideias precisam de um hospedeiro? Outras cabeças?
         
Saindo  do Rio Grande do Sul, por quantos kilômetros faz sentido a palavra sinaleira? Quando vira semáforo? E goleira, até onde significa a meta (o gol, o arco) e quando passa a ser a fêmea do goleiro? Bergamota, fatiota, amolado, atucanado, pechada... isso faz sentido em outros estados? Em outro estado de espírito, faço sentido? Ando, penso, assobio : "quem não precisa de uma versão, uma tradução?"


(*) Lost in translation, o filme de Sofia Coppola, chegou ao Brasil como Encontros e Desencontros. Parece uma inside joke (brincadeira para iniciados) pois Lost in translation, a expressão, se refere a termos que perdem o significado em outras línguas, mesmo traduzidos literalmente. Millor Fernandes brincava com estas traduções que, de tão literais,  perdem o sentido (a vaca foi pro brejo : The Cow Went To the Swamp).
          
É o significado que se perde na tradução ou somos nós que nos perdemos na impossibilidade de traduzir? Entre encontros e desencontros, nem bússolas nos ajudam: no mapa de um estadunidense, o Perú é a Turquia (Turkey). O braço de uma guitarra é pescoço (neck) e a mão é cabeça (os instrumentos com sistema de afinação que dispensa a mão são headless).
          
O que um mother fucker tem a ver com um  filho da p***? O que kiss my ass tem a ver com tomar no c* ? Americanos não têm uma palavra para corno (por serem mais liberais no comportamento ou mais limitados no idioma?).  O que não se perde na tradução é o tom da voz de quem diz estas coisas. O tom, a forma de falar, diz tanto quanto o significado da palavra. É a voz que chega antes do verbo. É o som que fica depois do silêncio.
(*) O que escrevo caminhando (teclando no smartphone, correndo risco no campo minado por buracos e bosta de cachorro) pode ser entendido por quem está parado? Tomara que sim. A Marselhesa também faz sentido pra quem não é francês.

se tudo passa, talvez você passe por aqui
e me faça entender tudo que vi


Bah 1: Ops! Estavas aí?!? Nem te vi chegar! Tava aqui, pensando alto bobagens e besteiras... Como foi teu Reveillón? Tudo certo? Seguimos juntos, né? Quer escolher a música? Ando Só ou Lado a Lado? Tudo bem, cada uma vai ter sua hora em 2012... Simbora! Quer uma mate? Se estás lendo à noite, vai tirar o sono... tem o dobro de cafeína do que café... se é que se chama cafeína também a substância da Ilex Paraguariensis que tira o sono.




Bah 2: Quando fui a Los Angeles gravar o Simples de Coração, o produtor se amarrou no disco e quis fazer uma versão em inglês. Me apresentou um letrista americano para ajudar na tradução, mas... não rolou. Tudo parecia lost in translation. Resolvi fazer sozinho. Achei que ficaria melhor mesmo se ficasse pior.


Bah 3: Falando nisso, dia 11 de janeiro, quarta, 22h, rola a twitcam com o disco Simples de Coração na íntegra. Terça que vem falo um pouco sobre ele. Até lá, fica na paz! E mantém tua cabeça presa ao pescoço (ou sobre os ombros, como dizem os gringos: keep your head on your shoulders)!


03jan, primeira terça de 2012