P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 29


uma certeza, só uma certeza:
o último dia de dezembro
é igual ao primeiro de janeiro

(*) Às pessoas que me pediram para escrever sobre os livros que tenho lido, prometi fazer, no último post do ano,  uma resenha do que li em 2011. Apesar de ser alérgico a retrospectivas de fim de ano e listas de 10 mais, tentei. Fracassei.

Não consegui espremer em algumas linhas de leitura agradável e compreensível minhas experiências com as duas dúzias de livros que me fizeram companhia neste ano que se vai. Além do mais, não quero influenciar ninguém a ler os livros ruins dos quais gostei ou a deixar de ler os bons livros que não me emocionaram.

Cogitei uma alternativa: em vez de um texto subjetivo sobre minhas leituras (toda leitura é subjetiva), fazer uma foto da pilha de livros. Só uma imagem das lombadas com título e autor, sem interpretações. Objetiva como uma tomografia computadorizada, um  gráfico da bolsa de valores ou os resultados dos jogos da rodada: fatos, só fatos.

Achei a ideia legal. Desci os livros da estante, procurei um cantinho com boa iluminação para a foto, fui buscar no estúdio um par de livros que não estavam no armário e... não os encontrei. Merda! Quem quer trabalhar SÓ com fatos tem que trabalhar com TODOS os fatos. Os dois livros que faltavam significavam 9.090909%. Por esta percentagem aparentemente pequena, a foto perdeu todo o sentido.

(*) Meu cunhado Zé é cardiologista e se criou no pampa. Ele se sente tão à vontade ressuscitando corações na UTI quanto em meio ao gado, no campo. Depois de ler, no post da semana passada, o papo sobre o significado de "brasino", ele me perguntou se eu sabia o que era "picaço". Desconfiei que estivesse armando uma daquelas piadas com duplo sentido pois a pergunta me parecia absurda. Eu tinha certeza de que "picaço" era qualquer cavalo. Estava enganado. Ele me explicou que "picaço" é o cavalo de cor escura com pés ou cabeça brancos.

Aí estavam dois tipos de ignorância: 1- eu não sabia o que era "brasino", 2- eu não sabia que não sabia o que era "picaço". Isso me fez lembrar um discurso do ex-Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld. Em clima paranóico, ele  dizia que a América tinha que se preparar para o desconhecido (o que não sabiam) e para o desconhecido desconhecido (o que não sabiam que não sabiam). 

Se bem entendi o papo do velho Senhor da Guerra, ele queria que os EUA, além de se defenderem de todas as ameaças imagináveis, se defendessem, também, das ameaças inimagináveis! Isso é o que chamo de um campo vasto! Vasto campo de batalha...

(*) E o que as duas notas de rodapé acima tem a ver? Seguinte: fim de ano é hora de olhar pra trás e pra frente, né? Geralmente tentamos organizar o passado e prever o futuro. Mas, cá pra nós, não são ambos igualmente misteriosos? Seja uma simples lista de livros lidos ou o complexo mapa geopolítico de uma nova ordem global, passado e futuro não nos pertencem. Nisso, são iguais. 

Fácil falar, fazer previsões, depois que aconteceu. Fácil pintar o quadro geral da janela de um arranha-céu. Sem ter que sujar as mãos, sem ter nada a perder. Sem o risco de pagar pelos erros que cometeu.
Fácil achar o caminho a seguir num mapa, com lápis de cor. Moleza mandar a tropa atacar na tela do computador. Sem o cheiro, sem o som, sem ter nunca estado lá. Sem ter que voltar pra ver o que restou.
Fácil demais fazer previsões depois que aconteceu. Fácil sonhar condições ideais que nunca existirão.
Sempre à distância, sem noção... O que rola pelo chão não são as peças de um jogo de xadrez!
Com a coragem que a distância dá, fica mais fácil. Em outro tempo em outro lugar, tudo é tão fácil!

Um abraço do alto da minha ignorância. Nos encontramos, no próximo post, no ano que vem, na semana que vem. Que venham em paz dias, meses e séculos. Com mais livros e menos Senhores da Guerra.

Bah 1: Estando certa a Wikipedia, o que o Master of War Donald Rumsfeld falou foi o seguinte: There are known knowns, there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns, that is to say we know there are some things we do not know. Traduzindo: o cara não era muito bom com as palavras.

Bah 2: Quando fico impressionado com algum livro, comento no twitter. Mas não me levem muito a sério, ok? Em nenhum assunto. Como diz o adesivo de carro: "não me siga, também estou perdido".

Bah 3: Feliz Ano Novo!
27jan2011

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 28


há quem faça as contas
há quem vá às compras
quando mais um ano chega ao fim

hora de escrever cartões
hora de rever os planos
mais um ano chega ao fim

que venha em paz o ano que vem
que venha em paz o que o futuro trouxer

cai a neve nas vitrines
e a gente derrete ao sol
neste natal tropical

os cachorros da vizinhança vão latir
sob fogos de artifício
pensarão que é o fim mas será só o início

que venha em paz o ano que vem
que venha em paz o que o futuro trouxer

há quem ignore o calendário
há quem fique de olho no horário
quando mais um ano chega ao fim

que venha em paz o ano que vem
que venha em paz o que o futuro trouxer

(*) Eu não apostaria uma moeda de 11 centavos no meu futuro, quando era adolescente. Sei lá de onde  veio este futuro para o qual já olho, em parte, pelo espelho retrovisor. Certo é que um futuro pintou. Brotou do chão (semente bem plantada) ou caiu do céu (dádiva divina)? Não sei. Só sei que, seja de onde for, ele continua chegando. Um futuro para o qual olho de binóculos, lá na frente, ainda sem descobrir quais são seus planos pra depois da curva.

Minha arte-ofício me levou a lugares que, tenho certeza, não foram feitos para mim: hotéis luxuosos, salas VIP, poltronas de primeira classe em voos para o outro lado do planeta com direito a aeromoças vestidas de gueixa oferecendo vinhos finos e toalhas aquecidas.

Mais importante: minha arte-ofício me conectou com um monte de gente bacana que me trata melhor do que mereço. Tem até uns malucos que inventaram um tal Gessinger Day que me deixa morrendo de vergonha cada vez que abro o computador no 24 de dezembro  (por total falta de talento para corresponder às expectativas e ao carinho). O que posso fazer? Agradecer de coração e, no limite das minhas possibilidades, voltar ao refrão: faz de conta que fui mais legal.

(*) Outra experiência que certamente eu não viveria, não fosse minha arte-ofício, são as missas do Padre Marcelo Rossi. Explico: depois dos shows de sábado é impossível dormir, fico acordado até abrir o café da manhã do hotel. Geralmente começa às 6 da manhã. E sempre há, no restaurante, uma TV ligada na missa do Padre Marcelo. Não fosse a rotina maluca da estrada, certamente esta hora do domingo não me encontraria em frente a uma TV.

Não que eu tenha algo contra a igreja católica. Pelo contrário: meu HD foi  formatado por ela. Na minha família havia tios padres e tias freiras. Meu pai estudou num seminário (um pouco por convicção religiosa da família, um pouco para ter ensino de qualidade, o que não era fácil numa colônia alemã  no interior do RS). Imagino o dilema em sua cabeça quando, ainda jovenzinho, resolveu largar. Para desgosto do meu avô.

Por toda vida, meu pai seguiu um católico convicto. Duvido que ele servisse mais ao Senhor se fosse um "profissional". Ele veio morar em Porto Alegre e encontrou minha mãe numa festa de São João. Alguns anos depois, eu nascia. Carregando, desconfiado, aquele futuro que já pensei não valer uma moeda de 11 centavos.

Minha mãe segue firme e forte, paparicando netos e neta. Meu pai segue firme e forte na minha lembrança. Gostaria de sonhar mais com ele. Raramente sonho. Sonho muito que estou nadando. É tão bom, no sonho, que preferi não aprender a nadar. Para evitar decepções. Duvido que seja tão bom na vida real. Me basta o sonho.

(*) Respeito minha ignorância. Convivo bem com coisas que não entendo, cantos escuros e encontros silenciosos. Se a dúvida for o preço da pureza, algumas vezes vale pagar, tá barato (noutras, é melhor pagar pra ver... você decide, não olhe pra mim... eu sou só um tocador de contrabaixo, quase um baixista).


Picaço Velho é o nome de uma música que me fascinava, na infância. Conta a morte de um cavalo causada por um boi brasino. Não saber o que "brasino" significava deixava a música mais misteriosa. Evitei, a vida inteira, buscar esta palavra no dicionário. Preferi imaginar significados cada vez mais malucos. O mesmo acontecia quando eu ouvia músicas em inglês antes de conhecer o idioma: a cada audição, inventava uma letra.

(*) Ops, me deixei levar... acho que tirei os olhos do caminho e acabei derrapando nas curvas do texto. Que pena! Hoje, eu queria ser sucinto e essencial. O que preciso dizer já foi dito tantas vezes que periga não significar mais nada. A não ser que a voz venha simples e do coração quando diz: "Feliz Natal!"

Se tem alguém aí prisioneiro da melancolia-banzo-spleen-blues que costuma pintar no fim dos ciclos, achando que seu futuro não vale uma moeda de 11 centavos, deixo meu especial abraço. Enquanto abraço, sussurro: "Vale muito mais!"

Já passei Natais muito alegres e muito tristes. Eu olho nos olhos dos anjos que sobrevoam as árvores enfeitadas nos shoppings apinhados de gente estressada e... não acredito nessa bondade toda. Nem em toda essa maldade. Como diria minha tia Hildegard: a sopa nunca é tão quente quanto a fumaça faz parecer.   Em algum ponto entre quem acha tudo beleza-massa-delícia e quem acha que não-tem-mais-volta-estamos-indo-a-pique, deve estar a verdade. Se é que ela existe. Se é que é uma só.

Então... curto e grosso; simples e de coração: Feliz Natal!
20dez2011

cara 'cê não vai acreditar
Papai Noel chegou
eu 'tava em outro lugar

cara 'cê não vai acreditar
um dente era de ouro
e os tênis, All Star
Bah 1 : Tenho gravado, a cada fim de ano, uma nova versão da música EM PAZ. Este ano não gravei versão "oficial". Preferi espalhar algumas pela vida: junto aos amiguinhos do Instituto do Câncer Infantil-RS, no Prêmio Açorianos de Literatura, na twitcam de dezembro e , hoje, na Grêmio TV. Estão todas em algum ponto da www. Imagino que, no futuro, poderemos cantá-la, todos juntos, online. Quem sabe em 2012?

Bah 2 : Por vocês, fui ao Google: "brasino" aplica-se ao gado cujo pelo é vermelho (cor de brasa) listrado de preto. Mas, quer saber? Vou tratar de esquecer isto e voltar à minha ignorância! Taí a canção: http://www.letras.com.br/jose-mendes/picaco-velho

Bah 3 : Pra não restar dúvida (correndo o risco da redundância): Feliz Natal. Mesmo.

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 27


se eu soubesse antes o que sei agora
erraria tudo exatamente igual

(*) O mais legal de construir uma obra extensa e intensa é poder movimentar-se dentro dela. Como se anda pelas ruas e praças de uma cidade ou pelos vários ambientes de uma catedral. Há sempre um novo olhar possível.  Faço isso com artistas dos quais gosto: passeio por suas fases, canções e álbuns. Se o cara for honesto, talentoso e persistente, sua obra cria um universo no qual é possível passear, quase morar. Sou um visitante contumaz destes mundos paralelos. Quase prefiro eles à realidade. Se ao menos isso fosse uma opção...

Não canso de repetir como tem sido bom, para mim, fazer as twitcams temáticas, tocando meus discos na íntegra. Em menos de uma hora de música, só para os De Casa e De Fé, tento concentrar emocionalmente tudo que imaginei para determinado álbum e tudo que a vida imprimiu nele. Como a epifania de William Blake "o mundo num grão de areia... o infinito na palma da mão... a eternidade em uma hora de vida".

Tudo isso do meu ponto de vista, claro, sem subestimar a importância das pessoas que participaram e enriqueceram a experiência. Há viagens intensas e extensas que só se pode fazer sozinho. Como um pássaro voando, como se voasse em bando. As twitcams ampliam uma sensação que algumas vezes pinta nos shows: a de que estou tocando para UMA pessoa. Um para um, um por um, 1/1, 1:1... bela razão matemática.

(*) Chegou a vez do Surfando Karmas & DNA. Um disco que, à exemplo do  Longe Demais das Capitas, A Revolta dos Dândis e HG3, inicia um ciclo.

Os fatos apontam para o 10.001 Destino como o disco em que voltei à guitarra. Na verdade (sempre maior do que os fatos), foi no SK&DNA. Voltei por necessidade de independência, para ficar menos suscetível às mudanças da companhia.

Foi por esta época que desisiti de procurar minha turma. Agradeço a Deus por ter tocado com tanta gente bacana, com quem aprendi muito sobre música (e sobre a vida pois já não sei onde uma começa e outra acaba). Mas desde sempre (e talvez para sempre) me senti deslocado. Talvez este estranhamento seja meu estado original, uma solidão que talvez me seja necessária. Talvez este papo de "turma" só faça sentido quando se tem 16 anos. Talvez procurar eternamente sua turma (ou cagar para as tchurmas) seja tão bom quanto estar enturmado. Talvez... Enfim, assim é. Sou assim.

Na falta de uma micro-turma, surgiu uma macro-turma, espalhada por gerações e pelo Brasil. Is there anybody out there? Caramba! Há, sim! E, de repente, em meio à falta de sentido, tudo faz sentido. 

Quem quiser saber coisas mais objetivas sobre o disco as encontrará no release (www.engenheirosdohawaii.com.br) e no meu livro PSS123. Aqui é o espaço da subjetividade, ideal para especulações vagas, do tipo: será que a ideia das cravelhas como asas metálicas, na capa, me veio por influência dos discos do BBM e Joaquin Sabina que também retratam anjos estranhos? Jamais saberei.

Reler release e entrevistas da época do lançamento do disco deixa uma sensação dúbia: são fiéis retratos verbais daquele momento. Mas é impossível, na emoção da hora, sacar todas as potencialidades do disco. Mais difícil ainda é prever o diálogo entre as músicas e a realidade. Um exemplo: eu não sabia, na época, que o disco seguinte seria Dançando no Campo Minado. Nem imaginava que,  dez anos depois, eu ainda estaria tentando escrever o fim da "trilogia do gerúndio". 

(*) Canções feitas com honestidade trazem, dentro de si, profecias autorrealizáveis. Não é por outro motivo que Ilusão de Ótica, com sua colagem sonora, deixou inquietos alguns lunáticos que enxergam pelo em ovo e Segurança, com sua autoironia pop art, vira-e-mexe seduz publicitários. São dois casos explícitos de metalinguagem com os quais me divirto e aprendo. Há vários outros, mais sutís.

e-Stória, por exemplo. É um dialogo com Carlos Maltz e conta com a participação do Borghettinho. No dia da gravação, um repórter do jornal porto-alegrense Zero Hora me ligou, conversamos, ele ficou sabendo da música, me pediu que mandasse a letra manuscrita para ilustrar a matéria. A matéria saiu. Página inteira, se bem me lembro. A letra? Desapareceu. Terá sumido porque falava que "em Porto Alegre anda tudo ZH"? Outra coisa que jamais saberei.

Vários trechos deste disco cresceram com o fermento da vida real e viraram citações recorrentes: surfar karmas e DNA, sentir com inteligência, pensar com emoção. O "quem são eles?" de Terceira do Plural, a enigmática palavra de 5 letras nas palavras cruzadas de Nunca Mais e o "otimismo da vontade e pessimismo da razão" de Esportes Radicais (que devo creditar a Antonio Gramsci) já fazem parte do Zeitgeist EngHaw.

Fomos ágeis neste disco, chegamos à praia ainda sobre a prancha. Além da música em si, SK&DNA me fez sentir, pela primeira vez, que havia uma galera De Fé a fim de amadurecer comigo. Ou, ao menos, tentar.

Vai aqui um brinde a todos que se interessam pelo SK&DNA! De forma especial, ao Glaucio Ayala (parceiro para tudo, sempre de alto astral), ao irrequieto Bernardo (sempre buscando sons) e ao Paulinho Galvão (parceiro em músicas das quais gosto muito - o diálogo das nossas guitarras, com seus contrastes,  sempre me lembra Mark Knopfler e Mick Taylor no disco Infidels do Dylan!).


Bah 1: não precisa ir ao Google! A Wikepidia define Zeitgeist assim: termo alemão cuja tradução pode ser espírito da época, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo numa certa época ou as características de um determinado período de tempo.

Bah 2: importante citar as ilustrações do Trimano que unificaram graficamente os dois primeiros discos da "trilogia no gerúndio", Surfando Karmas & DNA e Dançando no Campo Minado! Aproveito para mandar um abraço ao Gil Lopes que me apresentou o trabalho dele.

Bah 3: mais uma digressão vaga: vaga significa espaço vazio, ato ou efeito de vagar, multidão, onda (ah, ondas! Ainda existem? Só elas existem? Quando virá outra, uma nova? La Nouvelle Vague, the new wave..., quando virá? Tá vendo? Já passou...).


 13dez2011

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 26


escrever é quebrar a ponta
apontar o lápis
livrar da casca que protege, o grafite
impedir que a mão aceite o limite

amassar o papel
errar a cesta
ir do céu ao chão por vocação
deixar em branco
deixar no ar

ensinar a mosca a sair da garrafa
esperar que a garrafa sobreviva ao mar

(*) Inspirado pelos leitores que relatam carinhosamente como, quando e onde lêem meus posts, vou tentar relatar como, quando e onde eu os escrevo.

As ideias pintam a qualquer hora, em qualquer lugar. Geralmente quando estou caminhando. Eu as anoto esquematicamente. Geralmente num smartphone. Seria mais fácil gravá-las, mas não gosto de ouvir minha voz falando. Nunca gostei. Então escrevo. Escrevendo me entendo. Um pouco. Gosto de teclas com caracteres pintados, teclado físico. Teclados virtuais me dão a sensação de estar pagando contas num  caixa eletrônico.

Estas anotações são os ingredientes. A escrita, deixo para saborear na estrada. É magia alquímica, comida caseira feita pela Mãe Imaginação. Quem já leu meus livros PSS123 e MDA45 vai reconhecer a cena: a escuridão do ônibus iluminando uma fatia do asfalto depois de algum show. É ali que gosto de escrever.

Há algo no movimento de um veículo que faz os bebês dormirem e os adultos sonharem acordados. Há algo na solidão em grupo que faz as crianças chorarem por atenção e os homens pensarem com emoção. Geralmente estou sozinho: o único cara acordado no ônibus. Além do motorista, é claro.

Os shows são, quase sempre, muito tarde. Sextas e sábados. No domingo, chego em casa  sem ter dormido. Com auxílio de chimarrão, família, futebol no rádio e  foot-ball na TV, este Dom Quixote Zumbi se mantém acordado o dia inteiro e vai dormir num horário razoável.

Segunda, meus horários ainda seguem razoáveis. Acordo cedo e releio o texto. Frequentemente o reescrevo. No meio da tarde, jogo tênis (hey, não me julgue um vagal: segunda é meu findisemana!). Este Dom Quixote Jedi vai para a quadra caminhando. São 45 minutos liberando endorfina.  Na volta, passo na Stereophonica para tomar um café e autografar livros e posters pros De Fé. Nesta hora e meia de caminhada, indo e vindo da quadra, é possível que pinte alguma ideia ou que eu me arrependa de alguma frase. Chegando em casa, faço a versão final do post.

Aí é só esperar a meia-noite ouvindo música (Wagner para escrever, Debussy para ler o que escrevi). A TV fica ligada, sem som, como se fosse uma lareira. É bom olhar pro fogo de vez em quando. No caso, Monday Night Foot-Ball. Faço questão de publicar o texto no limbo entre 24h de segunda e 0h de terça. Com a precisão cronométrica de um treino de Fórmula 1 (este que vos fala é um Dom Quixote Nerd).

Eu sei que o tempo é relativo. Talvez nem exista na www. Mas não é isso que nossos corpos sentem. Eles estão se lixando para o que é virtual. Sentimos na pele a frieza do histérico ponteiro dos segundos e o calor tranquilo de algum corpo pulsando próximo. Além de espírito e visão, somos de carne e osso, lembra? Humanos. Eu gosto de ser. Poderíamos estar à beira de uma fogueira pré-histórica com esta mesma cara que ora encara o monitor. Não mudamos muito.

Saber que há olhos abertos na outra ponta do cabo de fibra ótica é um alento. Imaginar corações batendo em tempo real do outro lado do cordão umbilical wi-fi é um acalanto. Alento e acalanto são palavras que soam bem. E são bem mais do que palavras.

Depois de postar, acompanho os primeiros comentários e começo a entrar na minha rotina sem rotina, trocando o dia pela noite. Sem saber onde um começa e outro acaba. Já desconfio que não começam nem acabam. E já acho razoável que seja assim, relógios derretidos de Salvador Dali.

(*) Há músicos que levam a casa para a estrada. Seguem a rotina sem sobressaltos: pensam com inteligência, sentem com emoção, almoçam comida típica no típico horário do meio-dia, dormem à noite, acordam pro café da manhã, visitam os pontos turísticos de cada cidade (sejam eles um sítio arqueológico ou um shopping hi tech - para corações turistas, a diferença é pouca).

Há músicos que levam a estrada para casa. Eu, por exemplo. Minha arte-ofício transbordou e tomou conta da minha vida.  Agradeço a Deus pelas belas paisagens que Ele tem colocado nas janelas dos hotéis e pelos ótimos restaurantes nas esquinas, mas... Agradeço muito mais por minha arte-ofício. É ali que busco enxergar. É ali que me alimento. Aprendi, ali, a sentir com inteligência e pensar com emoção. Os sobressaltos, aprendi a chamar de "vida".

Me sinto deslocado nestes tempos de café sem cafeína, cerveja sem álcool, esquerda light e diet indigestão. Eu nunca soube trabalhar com baixos teores. Isso já me criou mais confusão do que eu gostaria de admitir. Mas foi esta intensidade que me trouxe até aqui. Então, não me resta alternativa: aceito e agradeço.

O resultado? Algumas palavras com mais sílabas do que deveriam ter, alguns solos com mais notas do que deveriam ter, alguns silêncios maiores do que deveriam ser. Quanto mais sei que há coisas mais importantes do que minha arte-ofício, mais sinto que não há nada mais importante do que minha arte-ofício. Dá pra entender? Não, né? Como tantas outras coisas...

(*) Um especialista é alguém que conhece um assunto há menos de 20 minutos (um turista?) ou mais de 20 anos (um nerd?). Esta distinção entre Nerd e Turista não é qualitativa, fique claro. São duas visões de mundo com boas razões para existir. Também não é muito rígida a fronteira entre elas. Podemos ser um ou outro, dependendo da circunstância.

Um tempo atrás me convidaram para participar da campanha "12x8". É uma iniciativa legal, para divulgar a importância do controle da pressão arterial. Enquanto eu fazia fotos e gravava depoimento, um cardiologista me deu uma aula sobre os riscos da pressão alta. Fui da gravação direto para academia. Chegando lá, comecei a falar sobre o assunto com um senhor que estava na esteira ao lado. Ele ouvia tudo mostrando muito interesse. Enquanto eu passava adiante todo o conhecimento recém adquirido, alguém saudou o companheiro de esteira que me ouvia: "Bom dia, Dr Fulano". Fiquei surpreso, perguntei: o senhor é médico? Qual especialidade? "Cardiologista", ele respondeu. Putz, que mico! Lá estava eu ensinando o padre a rezar missa... é... fiz papel de turista nessa. 

 um abraço de frente e verso
deste Dom Quixote Nerd Jedi Zumbi

06dez2011