P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 21


pergunte ao pó
desça ao porão
siga aquele carro
ou as pegadas que eu deixei
pergunte ao pó
por onde andei
há um mapa dos meus passos
nos pedaços que eu deixei

(*) Quando vejo mapas mostrando como o Homo Sapiens se espalhou pelo planeta, saindo da África, sempre penso: taí uma caminhadinha que eu gostaria de fazer! A vontade passa quando lembro do sol que eu teria que aguentar.

Adoro caminhar, ver o tempo imprimir, na lona dos meus tênis, o desenho dos meus pés. Como uma chapa de raio X. Olho para baixo e vejo um par de sudários andando por aí. Como um polegar na carteira de identidade, eu carimbo pegadas no chão de Porto Alegre. Onde o solo é mais propício. Quando asfalto, basalto e paralelepípedos dão chance à terra. Assim caminha a humanidade, marcando o chão e sendo marcada por ele. Assim caminho e assobio: "ascensão e queda são dois lados da mesma moeda".

(*) Decidi não ter mais carro. Não pense que é um ato heróico, de consciência ambiental. Confesso que  vivo pedindo emprestado o trator da minha mulher ou o fusquinha da minha filha. Graças a Deus, de segunda à quinta, consigo levar minha vida relativamente independente de horários, dá pra fazer quase tudo a pé. Nos shows dos fins de semana, ando muito mais de ônibus e avião do que de carro. 

Ser um pedestre desperta outras sensibilidades. Quando falam sobre automóveis, geralmente as pessoas analisam a potência do motor, o conforto, o quanto de inveja causará no vizinho de garagem (apesar de poucos admitirem isso). O que eu mais prezo num automóvel são as luzes que piscam avisando se o cara vai dobrar à direita ou à esquerda. Me interessa, também, o som  das buzinas. São acessórios para que o carro se comunique. Com civilidade, pois ser dono de um carro não significa ser dono das ruas e estradas.

Quando falam de smartphones, as pessoas geralmente analisam a velocidade do processador, a variedade dos aplicativos. Eu reclamo da pouca visibilidade da tela ao sol. E acho incrível que o touchscreen  funcione mesmo na chuva. É o ponto de vista de quem caminha ao sol e na chuva. Diferente do casulo sobre rodas.

(*) Caminhando, a gente saca nuances que passam despercebidas quando estamos motorizados. Num mesmo trajeto, conforme a hora do dia, a sombra estará neste o naquele lado da rua. Conforme a estação do ano, será melhor andar ao sol ou à sombra. Se queremos uma caminhada mais introspectiva, melhor respeitar as curvas de nível do terreno, evitar subidas e descidas. Se ganhar tempo é a prioridade, melhor enfrentar as lombas. E o suor.

Caminhando, esbaforido no verão ou enregelado no inverno, é comum alguém me reconhecer, parar o carro e perguntar admirado: "E aí, caminhando ?!?". Nunca me ocorreu ir pro meio da rua, parar o tráfego e gritar "E aí, andando de carro ?!?". Sensibilidades diferentes.

(*) Sou fã das leis do trânsito. É lindo que alguém tenha estudado o fluxo e decidido que esta rua só deve ir, aquela só deve voltar, aqui não dá pra dobrar, lá é obrigatório parar. Parecem limites, mas, na verdade, são os alicerces de uma liberdade maior. Se cada um pudesse ir pro lado que quisesse, fazendo o caminho mais curto entre dois pontos, a cidade pararia num engarrafamento insolúvel. As regras do trânsito são, para mim, a melhor tradução do dito bíblico "disciplina é liberdade".

Ok, ok, talvez eu tenha esta boa vontade porque nós, pedestres, podemos andar para o lado que quisermos. Na verdade, também temos nossos limites: não pense em pular aquele muro para atalhar, há um cão estressado te esperando no outro lado!

(*) Moro numa cidade que anda e caga para quem anda. O motorista não respeita a faixa, o condomínio não respeita a calçada, o dono do cachorro não respeita a higiene.

À noite, sensores de movimento acendem as luzes dos condomínios quando passo. Deixo para trás um rastro de luz inútil. Ilhas de claridade desabitada. Sou apenas um vulto suspeito para motoristas que, assustados, tentam entrar na garagem antes mesmo do portão abrir. Calma, meu senhor, estou só caminhando, não me interesso por seu carro, pode esperar os guardas do castelo baixarem a ponte sobre o fosso dos jacarés.

Havia terrenos baldios. Espaço de transição entre bairros, cidades, pessoas. Havia jardins, transição entre espaços público e privado. Estão todos cercados. Muros e grades. O que é meu, é meu; o que não é meu não é de niguém. Não tome este monte de verbos no pretérito como melancolia saudosista. Só estou vendo as flores crescerem. Com seus espinhos.

 (*) Ops, peraí... desde o dia em que escrevi estes parágrafos até a revisão de hoje, alguns motoristas pararam na faixa de pedestre para que eu atravessasse! Também vi pessoas levando sacos plásticos junto à coleira dos seus cães! Até reparos em uma calçada eu testemunhei! E agora? Deleto meu comentário anterior ou ignoro os fatos novos?

Do ponto de vista estatístico, minha amostragem é irrelevante. Eu teria que passar anos andando pelas ruas para que minhas observações, seja do descaso por calçadas e pedestres seja da educação de motoristas e donos de cães, formassem um número matematicamente representativo.

A vida é assim, não podemos nos basear na matemática das nossas vivências. Ou você acha que conhecerá uma amostragem significativa de pretendentes antes de decidir ficar com alguém? Pode tirar o cavalinho da chuva. Na hora do salto, quando a ciência nos deixa na mão, vale muito o instinto.

Mas afinal, com qual das minhas experiências ficarei? Bárbarie ou civilização? As duas. A primeira para me indignar e a segunda para criar alguma esperança.

(*) O passo é uma queda evitada por outro passo.

por onde anda você?
um abraço, esteja onde estiver
como a sombra dos meus passos
abraça o Chevrolet Bel Air



Post-scriptum:
aonde você vai?
eu vou ficar
tentando abraçar
o carro que sai



 01nov2011

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 20


o mundo fica pra outro dia
andar por aí era só o que eu queria

(*) Acordei com o firme propósito de escrever sobre a onda de protestos que varre o mundo. Há indignados com a economia na Grécia e com a corrupção em Brasília. Há indignados ocupando Wall Street e florescendo na primavera árabe. Me parecem conectados por um elo mais profundo do que a  www.

Abri o laptop e fui bombardeado por fotos de um cadáver. Antes que o café esfriasse, eu já havia visto mais fotos do Kadafi morto do que já vi minhas vivo. Deve ter acontecido o mesmo com todos que passaram por sites de notícia, canais de TV ou bancas de revistas nas horas seguintes à morte do ditador.

(*) Será que sou o único a não gostar de sangue? Os vampiros saíram dos livros adolescentes e estão editando jornais e sites? Que intimidade é essa? Por que jogam na minha cara rostos ensanguentados, porno-propaganda, piadas sobre sexo com gestantes, música absurdamente ruim absurdamente alta vinda de carros absurdamente bêbados? Acham que isso é a realidade? Ok. Acham que SÓ isso é a realidade? Ah, me dá um tempo!

Meu olhar fugiu da tela do computador e se perdeu na fumaça que subia do incenso de canela. As ideias foram se desmanchando como a linha de fumaça se desmancha depois de subir ordenadamente alguns palmos. Assim como o aroma de canela fica no ar depois de apagar-se a brasa do incenso, o lixo que a gente vê fica à espreita, na mente, muito depois de fecharmos os olhos.

(*) Desisti de escrever sobre o mundo lá fora. Quero falar sobre rituais. É provável que "ritual" não seja a palavra certa, mas não me ocorre uma melhor. Me refiro a pequenos gestos que nos acompanham, com constância, vida afora e se transformam no mais límpido espelho. Pode ser um texto postado à meia-noite,  uma prece antes de dormir, um  chimarrão ao acordar, a cerimônia do chá, a arte cavalheiresca do arqueiro zen, a arte da manutenção de motocicletas, o jogo interior de tênis...  Quanto mais lúdicos, quanto menos funcionais e objetivos, estes gestos, melhor. Coisas que fazemos com uma finalidade lógica e fixa sempre serão limitadas pela razão.

(*) Jogo tênis há mais de 30 anos. Não aprendi a jogar bem, mas aprendi a me conhecer melhor. Talvez nem a música tenha me ensinado tanto. Minha arte/ofício de músico é muito enganadora num sentido: ignora a passagem do tempo (se Arte é um diálogo entre o mundo real e um mundo idealizado, não há limite de tempo para ela. Sempre haverá assunto para este bate-papo. Falo de Arte, claro. Não tem nada a ver com tocar mais rápido, cantar mais alto, vender mais cliques de mouse, etc... isso, sim, o tempo derruba).

Numa timeline da minha vida nas quadras, vejo as transformações culturais (na moda dos uniformes), tecnológicas (nas raquetes) e econômicas (na especulação imobiliária que define a  localização das quadras). Vejo o vazio dos anos sem jogar, no início da faculdade, quando estudo e trabalho tomavam todo meu tempo. Sobretudo, vejo mudanças no meu corpo e na minha mente.

Já achei enfadonho picar a bolinha antes do saque. Agora, sinto que este momento tem sua sua própria mística. Hora de tomar ar, esquecer o ponto que passou, planejar o próximo lance ao som do mantra ritmado da bolinha tocando o chão. Um ritual dentro do ritual. Como afinar um instrumento: música dentro da música. 

agora somos só nós dois
eu e minha circunstância
clássico jurássico 
FlaFlu
GreNal
corpo e alma
num ritual

Ih, tocou o telefone. A vida real me quer de volta. Aquele abraço.



Bah 1: Tô achando que a palavra certa é "ritual" mesmo. Devo apagar o quinto parágrafo? Nah... a vida sempre deixa rastros.

Bah 2: sobre Occupy Wall Street, quem estiver interessado não pode perder o discurso do Zyzek. Aqui: http://www.trezentos.blog.br/?p=6448

Bah 3: A Cerimônia do Chá, A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, Zen a Arte da Manutenção de Motocicletas e O Jogo Interior de Tênis são livros que, de alguma forma, me falaram de rituais. Tudo começou com Sidarta e passou por um filme do Bergman do qual já não lembro o nome.

Bah 4: Pra fechar, William Blake numa frase que, para mim, define ritual: "se o doido persistisse na sua loucura, tornar-se-ia sensato".

25out2011

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 19


seria ruído
se não fosse um sinal
só para iniciados
transe tribal

seriam ruínas
mas a gente não esquece
o avião reabastece
em pleno ar

a serpente troca de pele
a gente não esquece
o avião reabastece
sem parar de voar

As casas do meu bairro estão, uma a uma, dando lugar a edifícios. Efeito colateral do fortalecimento da economia do país. Obras por toda parte. A cada caminhada, algo está diferente. Sons de concreto e tijolo me alcançam no intervalo entre as canções que ouço nos fones. 

Numa esquina, há uma estrutura de seis andares abandonada há muito tempo por problemas legais.  Lembra a canção do Caetano: "ainda em construção e já ruína". Recentemente, o terreno foi comprado. A prefeitura não autorizou que implodissem o esqueleto de concreto. Três operários penam para derrubar o monstro com britadeiras. Parecem cupins fazendo cócegas num enorme baú.

Uma demolição em meio a tantas construções é a nota dissonante na sinfonia de ferro e caminhões. Trabalho árduo, interrompido em dias de chuva. Choveu muito neste inverno. Notei que demoraram mais para demolir um andar da estrutura abandonada do que para erguer um na obra que sobe no terreno ao lado.

Lembrei dos comentaristas esportivos (desarmar é mais fácil do que criar). Lembrei do dito popular (pra baixo todo santo ajuda). Lembrei das aulas de física (a entropia é o nível de desordem de determinado sistema e tende sempre a aumentar). Lembrei da força devastadora da água morro à baixo e do fogo morro à cima. E lembrei de perguntar: será? Mesmo?

Há, sim, coisas difíceis pra caralho de desfazer. Quando a praga das opiniões levianas abandonar o campo, só terá destruído o que nunca existiu. Quem pode mais, a borracha ou o poema escrito à lápis? O poema sobrevive às traças que devoram o papel... 

Castelos medievais, castelos de areia e castelos de cartas, talvez, a longo prazo, tenham o mesmo destino. Mas certamente não são a mesma coisa. Ok, ok, do pó viemos e ao pó voltaremos. Mas não somos só poeira, né? Ok, ok, talvez a poeira de que são feitas as estrelas...

Há uma linha tênue entre o saber científico de que tudo se desintegra e o sentir místico de que tudo conspira a favor. Ruína e construção andam de mãos dadas nesta corda bamba. O que já foi e o que ainda será brigam pela nossa atenção. Às vezes nos fazem esquecer o que, desde sempre e para sempre, é.

Há, sim, coisas que não mudam, para as quais sempre podemos retornar. Um minúsculo porta-aviões num oceano sem fim. Uma chance em mil. Improvável janela de oportunidade. 

Adoraria fechar este texto com algum exemplo grandiloquente de coisas que não mudam e para as quais sempre podemos retornar (até escreveria em letras maiúsculas: AMOR, VERDADE, BELEZA...). Mas só me vêm à cabeça sons, cheiros, sabores, um par de olhos, um pôr do sol, um abraço... insignificantes no esquema geral das coisas, mas suficientes. 



hg + u = hug
18out2011

      

Retrato numa Polaroid

            Li em algum lugar (argh que maneira insossa de começar um texto) que a barra de metal que determina o tamanho exato de 1 metro e é guardada a 7 chaves num instituto francês está diminuindo. Não, espera! Acho que é a medida do kilo, guardada em algum museu americano que está perdendo peso. Não, não, nada disso... lembrei: foi minha mãe que ouviu na TV a tese científica de que o tempo está passando mais rápido! Que isso seja um sentimento, entendo, mas... tese científica? Será?
            A prova irrefutável de que (o meu) tempo tem passado mais rápido é a quantidade de projetos em andamento que tenho. Empilhados numa gaveta mental. Outra pilha, esta digital, é formada por solicitações que recebo por email. Entrevistas, depoimentos, participações musicais e literárias, etc... Difícil confrontar com todas estas urgências o sagrado tempo do ócio criativo. Mais ainda para um  capricorniano cristão fazedor.
            Recebi o formulário abaixo de um jornal, com a palavra URGENTE em maiúsculas no título do email. Parecem simples estes pingue-pongues,  perguntas e respostas curtas. Esta aí a armadilha das tentativas de resumir em uma palavra coisas como "qualidade" e "defeito". Para o leitor são divertidos, não posso negar.
            Me impus a disciplina de responder os emails por ordem de chegada. Por isso, demorei 3 dias para mandar as respostas ao jornal. Bem depois do prazo. Não sei se será publicado... 

Nome: Humberto Gessinger. É tudo. É só. Sem pseudônimo.
Local e data de nascimento: Porto Alegre, 24 dezembro 1963, 18h30min.
Signo: Capricórnio.
Maior qualidade: Timidez.
Maior defeito: Timidez.
O que toca no teu Ipod: Obscuras bandas de rock progressivo dos anos 70.
O que gosta de comer:  Chocolate.
Cor preferida: Azul.
Perfume: Não uso perfume. Adoro incenso de canela.
Mania: Sou maníaco por algumas marcas, mas não vou fazer propaganda delas aqui (hehehehe).
Nas horas de folga: Jogo tênis.
Último filme que foi ver no cinema: Nem lembro. Deve ter sido pra levar minha filha, quando era criança.
O que mais aprecia nos amigos: Fidelidade.
O que te decepciona:  Lixo jogado no chão. Mentiras jogadas no ar.
Ideia de felicidade: A mente quieta e o coração tranquilo.
Significado de família: Um berço, um colo, carinho e proteção.
Se não fosse você, quem gostaria de ser: Goleiro do Grêmio. Cabeludo, usando bandana, fazendo milagres e tomando alguns frangos.
Qual a melhor maneira de defini-lo: Aprendiz de música.

16out2011 

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 18


não é ciência exata
não acontece em tempo real
é demais! humano demais!
é demais! animal!

(*) Encontrei Demi Moore na capa do site onde posto minhas fotos. Ela estava de costas, seminua, refletida num espelho de banheiro. Autoretrato feito com um smartphone.

A imagem parecia tosca demais pra ser alguma propaganda, mas como os publicitários estão cada vez mais malandrinhos, querendo que tudo pareça casual, fiquei na dúvida. Fui conferir outras fotos do perfil dela para entender.

É um perfil bem normalzinho. Só achei estranho ela usar o nome do marido, @MrsFulanoDeTal. No mais, são cenas pessoais, auto-elogios visuais, aquele clima pseudo-espontâneo tão comum nas redes sociais, uma ou outra reflexão a cada dúzia de fotos.

Foi o suficiente para me fazer tirar do coldre um arsenal de frases neo-hippies, feministas e anti-sexistas e sair disparando: "Vaidade, tudo é vaidade! Paparazza de si mesma! Mulher objeto!"

No dia seguinte, vi o que muitos consideram a prova definitiva da existência de Deus: a foto da Scarlett Johansson que havia vazado na www já fazia algum tempo. Ela estava de costas, seminua, refletida num espelho de banheiro. Autoretrato feito com um smartphone. Ops: já li estas frases antes!  Oooooops: já vi esta imagem antes!

Caiu a ficha! A foto da Demi Moore era uma brincadeira em cima do rumoroso caso Johansson. Como eu não havia visto a imagem original, achei que a paródia ERA o original. Ainda bem que meus disparos verbais foram silenciosos, restritos apenas a pensamentos.

Algo semelhante aconteceu quando mataram Osama Bin Laden: antes de ler a notícia, li várias piadas a respeito. A carroça veio antes dos bois.

(*) A www é mesmo uma rede. Do ponto de vista espacial, não tem centro nem periferia. Do ponto de vista temporal, não há antes nem depois. Sem início nem fim. Tudo pode ser agora. Não há motivo para espanto caso sirvam a sobremesa antes do almoço. 

Era uma vez um tempo em que se sabia onde as histórias começavam (Era uma vez...) e onde elas acabavam (... e viveram felizes para sempre. The End. That's all folks!). A linearidade já não é regra. Vivemos em meio a vários loops. Realidades paralelas. Festas ou guerras infinitas. Não é preciso acompanhar desde o início nem ficar até o fim.

A música eletrônica, na virada do século, já prenunciava esta característica dos nossos tempos. Até então as canções nasciam, amadureciam e morriam na nossa frente, em 3 minutos. Introdução, verso, refrão, solo, fim. Mudou  o paradigma no reino pop. Baseada em loops (ciclos repetidos, sem início nem fim), a música techno é feita para se pegar "o bonde andando".  Afinal, são tempos onde o bonde não para, está sempre andando. 

(*) Se quisermos ver a metade vazia do copo, digamos que não há mais tempo (generosidade) para nada. Se quisermos ver a outra metade, lembremos William Blake: "Veja o mundo num grão de areia / 
veja o céu em um campo florido / 
guarde o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora de vida"

Mas, pô, eu tô aqui para dar minha opinião e não pra empurrar dúvidas pra vocês, né? E qual é minha opinião? Acho que o copo está meio cheio e meio vazio.

(*) Vivemos o enigma de Tostines. Afinal, vende mais porque tá sempre fresquinho ou tá sempre fresquinho porque vende mais? Loop. Não se iluda se conseguir responder. O trabalho recomeça: Quem nasceu antes, o ovo ou a galinha? Loop.

Por que escrevo isso nesta noite igual a tantas noites que passei escrevendo? Ecos de coisas que li em noites adolescentes?

Lembro de Nietzsche falando do "eterno retorno". Loop. Lembro de Camus comparando o absurdo da vida ao mito de Sísifo, condenado a passar a vida inteira empurrando uma pedra montanha acima só para  deixá-la rolar para baixo e repetir tudo de novo. Loop.

Acho que escrevo para agradecer à Scarlett Johansson por ser o ícone perfeito para tempos em loop. Um avatar para nossa civilização: alguém fotografando as próprias costas. Ao menos é uma bela imagem. Mesmo que não seja a prova definitiva da existência de Deus. Humano. Demais.

E segue o baile. 24 horas por dia. 7 dias por semana. A cobrinha do Várias Variáveis engolindo a própria cauda, no seu infinito recomeçar. O cão perseguindo o próprio rabo (sem o auxílio de smartphone ou espelho de banheiro). Girando, girando, girando, sem par e sem parar. 

um abraço
com dois braços
como no baixo
abaixo
um abraço
do passado
pra sempre
presente

11out2011