Comentando Audição Comentada

Venho, por meio destas mal traçadas linhas, quebrar uma promessa. Havia prometido contar como foi a Audição Comentada, mas o fluxo de ideias foi tão harmonioso que meu texto não conseguiria registrá-lo (para um cara que quebra promessas, sou bem honesto, né?).

Sei que foram captados audio e imagens. Também sei que isso não significa muito. Tenho mais tempo tentando capturar emoções num estúdio do que alguns de vocês têm de vida. Sei que não é fácil.

Então... que fique na lembrança de cada um que esteve lá. Sabe aquela vovó arquetípica, bonachona,  contando histórias e oferecendo biscoitos? Isto é o que chamo de lembrança.

Pra não chegar de mãos vazias, trouxe alguns dados e sensações. Reveladores, ainda que insuficientes. Aí vão.

(*) Noite de reencontros. Voltar aos prédios da Reitoria da UFRGS, onde assisti dois dos melhores shows da minha vida: Astor Piazzolla e Atahualpa Yupanqui. Voltar ao banheiro  do bar da Faculdade de Arquitetura. Pela primeira vez sem estar bêbado, dizem as más línguas. Ah, as más línguas...

(*) Pelo que elas são, por gostar delas e pelos detalhes em parênteses, selecionei as seguintes canções: CAUSA MORTIS (pra abordar o espírito da Porto Alegre dos anos 80). DOM QUIXOTE (pra falar das parcerias, das diferenças de sotaque e de significado de palavras como "otário" em diferentes regiões do país). FREUD FLINSTONE (para falar dos EngHaw, seis letrinhas que tanto me emocionam quando usadas como sobrenome pelos De Fé. Também porque é uma das poucas músicas que sei exatamente quando e como surgiram). NÚMEROS (pra contar como as ideias vão chegando, como convidados numa festa). SURFANDO KARMAS & DNA (pra homenagear as canções que chegam para dar sentido a um álbum inteiro). ESPORTES RADICAIS (pra explicitar os elos internos do meu trabalho. Entre discos, entre capas, entre canções. É a INFINITA HIGHWAY da maturidade). POUCA VOGAL (porque é meu xodó).

(*) Quando abrimos o microfone para perguntas, a coisa ficou ainda melhor. Uma pergunta a respeito dos dias 11 (das estreias, chats e twitcams) levou à reflexão sobre forma e conteúdo e sobre como é bom quando andam juntos, de mão dadas. Uma benção! Nem sempre somos abençoados.

Lembrei de um artigo sobre história contemporânea que havia lido na noite anterior (uma comparação do  clima revolucionário de 1968 com o desmonte da URSS em 1989). O autor citava um cartaz onde um "68" girava até virar "89".

A queda do Muro de Berlim (considerada o fim do século XX ) foi em 9/11(na grafia americana, 11/9). O ataque às Torres Gêmeas (considerado o início do século XXI) foi em 11/9 (na grafia americana, 9/11). Forma e conteúdo brincando com a gente.

(*) Uma pergunta me deixou sem resposta. Melhor dizendo: eu deixei a pergunta sem resposta. Fiz várias tentativas (nenhuma me convenceu) quando perguntaram como eu ganharia a vida se não fosse  músico. Não quis responder com outra pergunta: ganharia a vida? Tudo bem, às vezes, ser sincero é não saber a resposta.

(*) Estávamos na semana do Rock'n'Rio, ao fazer uma pequena cronologia da minha carreira foi inevitável falar do evento. 

A estreia dos Engenheiros do Hawaii,
a minha estreia e a estreia do festival foram no mesmo dia.
1985.

Participei da segunda edição do RIR em meio à tour do disco O PAPA É POP.
1991.

Da terceira edição, participei em meio à tour do 10.000 DESTINOS. 
2001.

A quarta edição me pegou de folga,
entre shows do Pouca Vogal. 2011

com a Montanha Mágica de Mann
dentro e fora de mim
escolhendo canções pra twitcam
ao som do bandolim

(*) Estas foram algumas impressões da Audição Comentada na UFRGS. A rima de Thomas Mann com twitcam pintou agora. Fica para uma próxima Audição. À medida em que eu for lembrando de lembranças lembradas lá, conto mais. Sem ignorar que, às vezes, o principal fica fora do resumo.

O mais estranho aconteceu depois. Quer dizer: antes. Que dizer: durante.

Logo que cheguei, fiz uma foto para tuitar. O celular travou, não rolou. Algumas pessoas me cercaram, pedindo autógrafos. Coloquei o aparelho no bolso. Depois de uma hora e meia de papo, rolaram mais algumas fotos e despedidas. Fui ao prédio da Arquitetura esperar Clara sair da aula para voltarmos juntos pra casa.

De bobeira, passei pelo twitter. Descobri que, além da foto que eu havia selecionado, haviam sido postadas outras duas. Sem que eu soubesse ou quisesse. Suponho que o celular tenha ficado ligado no meu bolso. O roçar aleatório do tecido na tela abriu aplicativo, selecionou e enviou fotos. 2 vezes!

Numa postagem, a legenda era incompreensível, tipo "qbwuveiqrfbd2cgo". Mas, inacreditavelmente, na última, a legenda era "u-hu"Será que havia um nerd surfista escondido no meu bolso, dando gritinhos e tuitando fotos? Um Engenheiro do Hawaii? Se me contassem, não acreditaria. Conto com a confiança de vocês. Juro por Gúgou.

Em troca de uma tradução fiel do papo,
tá valendo um abraço desde as escadarias da Reitoria da UFRGS?
HG + U = HUG
30set2011

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 16


 

por que você não soa (sua) quando toca?
por que você não sua (soa) quando ama?
ninguém derrama sangue quando perde
batalhas de fliperama

(*)  Muita gente chiou quando um grande jornal brasileiro passou a colocar, ao lado dos nomes, a idade das pessoas citadas nas matérias. Diziam que o número entre vírgulas era pouco literário, que era imitação dos jornais gringos. De fato, era imitação. Talvez, para a época, a forma fosse mesmo muito seca. E sabe como é, pra chiar ninguém paga imposto nem pensa duas vezes. É o esporte favorito de muita gente.

Eu gostei da iniciativa. Nenhuma informação que possa ser expressa num par de algarismos é tão rica quanto a idade de uma pessoa. Saber o sexo ou a localização geográfica também revela bastante, é claro, mas estes dados ocupam mais espaço num texto.

E o signo? São necessárias 11 letras pra revelar o meu. 11 páginas para falar dos outros ítens do mapa astral. 11 capítulos para interpretar. 11 livros para discutir se há alguma base para todo este raciocínio alegórico.

Time de futebol, filiação partidária, marca da roupa íntima, cor dos olhos, tamanho do membro... a relação custo/benefício (espaço/informação) desaconselha a colocação destes ítens em textos sobre outros assuntos.

Quem sabe que sou "Humberto Gessinger, 47", sabe que nasci em 1963. Que fui adolescente nos anos 70. Que, se não me embotoquei ou plastifiquei, tenho rugas. Que, se não estou careca nem pinto os cabelos, tenho muitos deles grisalhos. Que, quando surgiram os primeiros computadores pessoais, eu já tinha folheado muitos livros.

Há muita informação neste "47". Dá pra saber a que correntes musicais eu fui exposto (e em que fases da vida). Dá pra saber que times vi dominar campeonatos ou sucumbir. Se o assunto for tênis, dá pra saber que vi Borg com olhos de menino. E que chamei Nadal de menino.

Eu sei que várias idades convivem no presente de cada pessoa. Nascemos velhos e somos eternas crianças. Nem todo adolescente é igual. O mesmo vale para bebês e anciões. Mesmo assim, para algo que pode ser dito com 2 toques no teclado, a idade revela muito.

(*) Talvez minha idade explique a dificuldade que tenho de entender o fascínio exercido pelo anonimato no mundo virtual. É provável que este fetiche estivesse aí, latente, desde sempre. Em trotes para o Corpo de Bombeiros, na coragem dos covardes quando estão em bando nos estádios de futebol, nos aviões de papel que só voam quando o professor vira as costas.

Com a chegada da www,  Sr Ninguém encontrou seu paraíso. Entendo quem acha que é só brincadeira, que não é covardia. Pode ser. Há casos e casos, como sempre. Mas, em geral, acho pseudônimos, fakes, imagens recicladas e opinião-sobre-opinião-sobre-opinião-sem-base-real tão sem graça quanto bonecas infláveis em vitrines de sex shop.

É tão bom saber com quem estamos falando! É cada vez mais difícil saber com quem estamos falando! Talvez estejamos, todos, falando muito e ouvindo pouco. Hey, quem são estes caras? Em blogs, bandas,  citando-citações-de-citações-de-citações, links-para-outros-links-para-outros-links, sempre de bom humor, sempre de máu humor... quem são? Is there anybody in there? Há sangue de verdade nas veias  ou é só Ki-Suco?

Ops, falei Ki-Suco! Se vocês ainda não soubessem, o termo teria revelado minha idade.

(*) Frequentemente me perguntam se pretendo lançar alguma obra de ficção. Tenho muito cuidado. A boa ficção está no topo da minha lista. A má ficção, lá embaixo. Pra quem não é do ramo, parece fácil inventar uma história, um grupo de personagens. Pra quem já tem algum tempo como leitor, é doloroso demais acompanhar histórias mal estruturadas, personagens com jeito de... personagens.

E há tantos destes personagens (com jeito de... personagens) em livros, blogs e bandas! O que falta é vida. Palavras vivas. Canções e fotos vivas. Desenhos, pensamentos, gritos, sussuros e silêncios com vida própria. Qual o sentido de toda esta movimentação, se não for injetar vida nas rachaduras do concreto e do  asfalto?

na hora da canção em que eles dizem .................
eu não soube o que dizer
ah, vida real, como é que troco de canal?
tchau!

(*) Há uma historinha que ouço há tanto tempo que começo a duvidar que tenha acontecido. Talvez seja uma lenda urbana, revivida de quando em quando por diferentes personagens. É assim: um jovem artista pede conselhos ao mestre, pergunta o que deve fazer para chegar lá. O mestre responde: "Desistir".

Geralmente este diálogo é considerado amargo: um iniciante inseguro pedindo tapinha nas costas e um veterano rançoso virando a cara. Acho que é possível e justa uma interpretação mais generosa.

A tradução do "desista" pode ser: "Prove-me que você não deve desistir. Existe talento verdadeiro aí? Existe força para abrir espaço? Existe delicadeza para dar tempo ao tempo? Prove que eu estou errado, por favor, adoraria que isto acontecesse! Nada é melhor do que a companhia da pessoa certa. Venha! Se há vida aí, viva!" 

Forcei demais a barra? Dei a a entender que as palavras não valem nada, que "desista" pode significar "não desista"?  Não foi a minha intenção. Só quis dizer que, além da palavra, há quem disse a palavra e a circunstância em que foi dita. Tudo fala.

(*) Tenho visto tanta coisa ruim e sem substância que, em vez de me abater, fico esperançoso: deve haver muita coisa boa, escondida, que brotará a qualquer momento. (The darkest hour is just before dawn... a mola encolhida... o minuto de silêncio antes da explosão.)

Um abraço (hug) desde a serra gaúcha, ao som de bandolins:


 

"U can't give a hug without getting a hug"
H U G = HG + U
27set2011