C(*)NT(*) C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 9


Ele estendeu a mão de forma insuficiente. Uma isca. Para me obrigar a virar a cabeça. Queria cruzar olhares. Eu nem teria notado, não fosse o sino das chaves batendo uma na outra. Meu olhar saiu do painel do carro, onde eu procurava uma rádio em que não estivessem dizendo bobagens. Do painel para as chaves, das chaves para os olhos dele, quase invisíveis sob a sombra do boné.

O tanque estava cheio, o troco estava certo. Não era isso que ele queria dizer. Queria dizer que era meu fã. E que agora não era mais. Havia se convertido: só ouvia música religiosa. Fiquei feliz. Só não pedi desculpas pelo tempo que ele perdera com minha música porque soava deslocada minha felicidade. Eu perdera um fã, ele ganhara um sentido para a vida. Por que, então, eu estava alegre e ele parecia triste, constrangido?

Fiquei constrangido por ele estar constrangido. Seria contagioso? E se a corrente de constrangimento saísse do carro, jorrasse da bomba de gasolina e contaminasse todo o posto, a loja de conveniência, os prédios ao lado? Constrangeria o mundo inteiro?

Uma buzina trouxe minha mente de volta ao triste rosto no posto. Tentei animá-lo. Falei que trocaria de lugar com ele, na boa, pois deve ser bom ter as respostas definitivas pro espírito e um emprego fixo pro corpo. Foi como se eu não tivesse dito nada. Ele já não me ouvia.

Voltei pra abastecer outras vezes. Nunca mais o encontrei.

(*) Tenho fãs melhores e em maior número do que mereço. Não entendo como nem porque, mas agradeço a Deus. Quem começa a trabalhar comigo sempre se surpreende. Acho sintomática esta surpresa e cumprimento todos os "de fé" com um piscar de olhos imaginário: nós conhecemos a força da teia que tecemos. Silenciosamente.

Azar teve Eddie Van Halen. Nunca fez minha cabeça o som dele (pelo contrário, foi um dos motivos que me fizeram achar o baixo um instrumento mais interessante do que a guitarra em 87), mas reconheço sua maestria. Um gênio. Foi um cara seminal na revolução que colocou uma guitarra no quarto de cada adolescente americano nos anos 80 (ok, depois as guitarras viraram computadores, mas isso é outro papo, outra década).

Aquele roquenrrou pirotécnico ficou espremido entre o nervo exposto do grunge e o atleticismo musical de caras como Joe Satriani e Steve Vai. Sufocado entre uma postura mais visceral e outra mais cerebral. É assim na vida e na arte: ciclos, movimentos pendulares, ondas que vêm e vão. 

Injustificável é que os fãs do Eddie tenham se calado. 
É raríssimo, hoje em dia, alguém dar crédito ao cara pela influência que teve.

faça uma prece pra Freud Flintstone
acenda uma vela pra Freud Flintstone
sacrifique o bom senso no seu altar
...
esqueça a prece pra Freud Flintstone
acenda a fogueira pra Freud Flintstone
vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo

(*) Cazuza cantou que seus heróis morreram de overdose. Imagino que se referisse a Jimi, Jim, Janis... Atemporal, a canção fala das meninas Amy e Cássia, dos bateristas Boham e Moon, dos baixistas Pastorius e Lynnot. Metafórica, ela fala dos carros de James Dean e Albert Camus, dos voos de Steve Ray Vaughan e Buddy Holly, dos mistérios de Robert Johnson e Jeff Buckley, dos absurdos disparos-para-o-coração de Lennon e Cobain. Prematuras, estas mortes condenam os mitos à vida eterna. Todas têm um pouco de encenação da Paixão de Cristo. Adorados, os posters ficarão para sempre imitando crucifixos na "parede da memória".

Há heróis que continuam por aí, fazendo de conta que o tempo não passa (Jagger/Richards e McCartney, por exemplo). E há aqueles que, de uma forma ou outra, em um momento ou outro, saltaram do bonde (o bonde chamado desejo?). É pensando nestes que escrevo: os caras que me ensinaram a ser jovem e estão me ensinando a envelhecer.

Joni Mitchell encheu o saco da forma como as mulheres são vistas na indústria cultural e foi pintar. Bjorn Borg achou que era muita pressão ter que acertar todas as bolas e foi errar um pouco na vida. Leonard Cohen raspou o cabelo e foi ver de perto qualé a do budismo. Roger Waters ergueu, demoliu e cantou (não necessariamente nesta ordem) seu próprio muro. Dylan por várias vezes saltou do bonde (a primeira: depois do acidente de moto em 66; a mais recente: o mergulho no trabalho, na Never Ending Tour).

O que há de comum nestes exemplos? Eles acharam que o solo estava muito duro, seco demais para receber sementes? Acharam que a esponja não absorveria mais nada por estar molhada demais? Pode não haver nada em comum, eu posso estar forçando a barra... mas realmente acho que estes caras assumiram as rédeas, traçaram os próprios rumos. Parece pouca coisa? Só para quem nunca fez isso.
09ago2011

6 comentários:

  1. "Tenho fãs melhores e em maior número do que mereço. Não entendo como nem porque, mas agradeço a Deus."
    Não precisa entender, nem agradecer, apenas sinta a presença de seus fãs em cada show e em cada música!!!
    ^^

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  2. Continuando com a música ou não.
    Como escritor ou não.
    Não importa o que o futuro lhe reserva! sempre estaremos te acompanhando pela janela completamente paranóicos.

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  3. Sou eternamente grata pela sua existência, vc é o sal da terra!!

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  4. Um dia você disse: "Como fã, detestaria que saber que aquele trabalho foi feito pensando em mim, no que me agradaria"...

    Para mim o segredo do que você não entende esta aí... ser você, fazer por você, não surfar nas ondas do modismo... pelo menos é isso que eu sempre admirei... letras com conteúdo, músicas com sonoridades que chegam ao coração e um "não to nem aí" para a mídia e os críticos...

    Até mais,

    Anacléia

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  5. O artista tem que mostrar seu trabalho e acreditar nele, sempre. Não importa onde, tem que ir aonde o povo está.
    Esse negócio de 'tchau radar' é muito perigoso, a TV aberta
    está vivendo esse CAOS cultural devido a isso. (o artista não deveria ser egoista). Tocar só para seu público é o mesmo que namorar com sigo mesmo diante do espelho (nonsense). Exemplo: os Paralamas quando foram gravar seu famigerado Acústico MTV chamaram apenas seu fã-clube... por que? Uma banda com mais de 10 anos e com excelentes canções tem medo do que? De váia, de bocejos, de 'escapadinhas' para o banheiro?
    O artista é assim, transformar o céu e inferno de todo dia em poesia (mas tem que mostrar às pessoas).
    Pra que escrever poesia em papel higiênico e depois se limpar? (alguém aí quer namorar com o espelho?)

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