P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 8


na esquina em que se encontram corpo e alma
há música ou silêncio, nada mais
nada mais é definitivo na transição entre estações
no lusco-fusco, quando anoitece ou amanhece
não há drama, nem comédia nem tragédia
na hora incerta em que se beijam corpo e alma


(*) "Supervisor das tempestades" era a resposta de HD Thoreau a quem perguntasse, objetivamente, qual era sua profissão. Resposta bem subjetiva. Qual é a minha profissão? Toco num power-duo, escrevo num blog toda terça-feira e faço uma TwitCam no dia 11 de cada mês. Fui objetivo?

se eu quiser ser mais direto
vou me perder
melhor deixar quieto


(*) Se eu reclamasse da vida, Deus deveria lançar uma sequência de raios sobre minha cabeça. Ou me fazer ouvir todos os discos do *****. Mas, como este blog é o espaço da mais irracional franqueza, cabe o desabafo: aeroporto-asfalto-hotel-asfalto-aeroporto, às vezes, cansa. Por sorte, tenho uma cabeça pouco prática, o que me impede de ser um bom churrasqueiro, mas ajuda na hora de criar jogos mentais que aliviem a monotonia.



Um exemplo é o jogo de fotografar sombras (minha sombra na parede dos quartos de hotel ou a sombra do avião feito cobra no chão). Uma variante mais sofisticada é fotografar a estrada. Parece simples, mas este jogo tem suas artimanhas. O sacolejar do ônibus, a precariedade da câmera do smartphone e o compromisso de rechear as fotos de signos e significados são os osbstáculos a superar. As placas, viadutos e carros passam voando. O foco da câmera é lento. A luz não ajuda. Deve ser assim que se sente um caçador de borboletas raras.

Outra meta do jogo é escapar dos chatos hiper-objetivos e suas perguntas: Por que não usa uma câmera melhor? Por que não pede pro ônibus parar? Por que não faz no Photoshop? Geralmente quem pergunta isso é alguém capaz de passar horas jogando futebol no videogame sem que eu pergunte: Por que não compra uma bola? Hey, caçador: por que não compra a borboleta na internet? Lá, raridade é a coisa mais comum!


É facil ver o absurdo na vida dos outros. Na nossa, tudo sempre parece normal e justificável. Somos bem mais generosos com nossa subjetividade do que com a dos outros. Duh, que novidade!

Adriane acha nonsense que eu vá caminhando para meus jogos de tênis. São 50 minutos de subidas e descidas com mochila nas costas. Ela acha que (1) mesmo indo de carro, eu preservaria mais a natureza se não usasse iluminação artificial e bolas novas com tanta frequência, (2) aproveitaria melhor o jogo se entrasse na quadra descansado. Por outro lado, eu acho nonsense que ela suba pelo elevador quando chega em casa depois de malhar na academia. Quer saber? Nós dois temos razão... a razão não é uma só.

Um amigo me disse que não faz sentido usar iPod se posso ouvir música no smartphone. Este mesmo amigo carrega dois celulares pois, dependendo do local, é mais barato falar num ou noutro. Calculo que, em 10.000 anos, ele terá economizado o suficiente para comprar um terceiro telefone com o qual poderá poupar para comprar um quarto, quinto, sexto...

Um outro amigo é médico, especialista numa parte do corpo que eu não gostaria de visitar com a frequência que ele visita (ainda mais no corpo de outras pessoas). Cada vez que digo que vou tocar numa cidade pequena, distante e com nome esquisito, ele faz uma careta.

Agradeço a preocupação de ambos, mas estou muito feliz na minha estrada e tenho uma relação afetiva com meu tocador de mp3. Meus amigos não ficarão chateados com estas inconfidências. Amizade é o bar da esquina onde objetividade e subjetividade se encontram para um cafezinho (de corpo e alma). O absurdo que vejo neles, eles podem ver em mim. Hey, taí uma bela profissão: sermos gentis espelhos de nossos absurdos.


Na contramão do clichê "a grama do vizinho é sempre mais verde", JP Sartre resmungou que o inferno são os outros. Ah, mas sem os outros não há paraíso, né, monsieur?
02 agosto 2011

3 comentários:

  1. Absurdo. Taí uma palarva de significado intrigante.

    Quer saber? Absurdo mesmo é ter de não ser 'Absurdo'.

    ResponderExcluir
  2. ''Hey, caçador: por que não compra a borboleta na internet? Lá, raridade é a coisa mais comum!''

    Bixo, eu nao to bebado, sao 01:46 e eu to rindo muito disso. MUITO!

    Grande abraço, velho.

    ResponderExcluir
  3. O hábito das pessoas saberem aquilo que é melhor para mim, me faz por um momento pensar que sou um incopetente pois não vejo a praticidade que os olhos que estão sobre mim enxergam fazer oque né.

    ResponderExcluir