P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 7


no tempo em que nada nos dividia
havia motivo pra tudo
tudo era motivo pra mais
era perfeita simetria
éramos duas metades
iguais

(*) Eu já não era moço quando descobri que tinha o que se convencionou chamar "cabelo legal". Quão velho eu era? Digamos que já havia pendurado 3 discos de ouro na parede. Como descobri? De tanto ouvir falar. As razões estéticas nunca me convenceram. A praticidade, sim. Até então, eu pensava que todo mundo podia ficar alguns dias sem se pentear. Não imaginava que a parte de fora da cabeça também pudesse dar trabalho.

Entre 1986 e 2000, quem cortou meu cabelo foi Adriane. Era um corte fácil: uma linha reta nas costas. O resto, a força da gravidade fazia, definindo para que lado cada fio iria. Resultava algo simétrico: cabelo repartido no meio. De vez em quando, passávamos a máquina. Antes de 1986, frequentei alguns barbeiros. Depois de 2000, alguns cabeleireiros.

as coisas mudam de nome
mas continuam sendo
o que sempre serão

Adri só começou a cortar meu cabelo porque eu tinha preguiça de ir a um profissional. Só parou de cortar porque a tesoura perdeu o fio. Nunca pensei que cuidar do visual fizesse parte da minha arte, do meu ofício. Precisa usar dreadlocks pra fazer reaggae? Precisa fazer reggae pra usar dreadlocks? Nah...

A vontade de mudar o visual vinha do nada, quando menos se esperava. Numa das vezes, estávamos num hotel. Entrei cabeludo e sai militar. O que será que a camareira pensou, no dia seguinte, ao encontrar aquele monte de cabelo no lixo? Deve ter achado que se tratava de uma nova tara, um novo fetichismo.


Faço música para satisfazer minhas necessidades espirituais. Graças ao bom Deus, a música que faço também proveu minhas necessidades materiais. Pude escapar das propostas para fazer propaganda de xampu. Mais difícil foi escapar, nas entrevistas, da pergunta: "Qual xampu tú usas?". Logo percebi que responder "Uso o xampu que minha mulher compra", ainda que fosse a mais pura verdade, parecia sarcasmo. Ninguém acreditava que eu não tava nem aí, que simplesmente carregava, dentro e fora da cabeça, o que a natureza havia me dado.

Um dia, num programa de TV, vi alguém explicando que o correto era alternar o tipo de xampu. Pra não "viciar" o cabelo. Caramba, que raciocínio elegante! E anti-corporativo! As corporações nos querem fiéis. "Fidelização do consumidor" é o jargão utilizado. "Fiéis" para não dizer "escravos". Mudar o produto com frequência colocava esta estratégia em cheque. Adorei e adotei a resposta. Mas não o comportamento. Até hoje, uso o xampu que Adriane comprar.


(*) Pelas minhas contas, estarei completamente grisalho em um par de anos. Acho que vou gostar. Minha barba se adiantou na corrida ao branco. A diferença de cor entre barba e cabelo tem me irritado um pouco. Irritação com dias contados: um par de anos. Acho que vou gostar.

Ainda pelas minhas contas, a partir do ano que vem serei mais velho do que meu pai jamais foi. Estou vivendo o que, para ele, foi o último ano. Ele tinha raríssimos cabelos brancos quando chegou a hora. O que deu a impressão de que a hora chegou cedo demais. Nah, sempre é cedo, né?

Nah = Não + Bah

(*) A gente faz as contas, projeta uma vida na outra, tenta se enxergar como se fosse outra pessoa... a gente busca espelhos por que viver é solitário. Busca simetrias porque a vida é torta. A simetria acalma. Talvez acalme por que nós mesmos somos simétricos. Uma linha imaginária, dos pés à cabeça, nos divide em duas partes iguais. Buscamos o que já somos? Será? Esquecemos que esta simetria nunca é perfeita. Para o bom observador, sempre haverá uma perna mais curta, um olho mais caído, uma narina mais aberta...

Certo é que nossa mente busca simetria nas pinturas, nas catedrais e nas notas musicais. Entre passado e futuro, entre os óculos do John e o olhar do Paul, entre Beatles e Stones, nas cores da barba e do cabelo, assim no céu como na terra, assim na serra como no litoral. Entre mãe e pai, pai e filho, num par de filhos, a gente idealiza simetrias que não existem. Buscamos fatos que se repitam, uma ordem, um sentido, um padrão, um padrão, um padrão... Um padrão que não há.
26jul2011

3 comentários:

  1. No fim das contas, a gente faz conta e diz que não está nem aí.

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  2. Acho que queremos um padrão por que temos medo do desconhecido, o diferente acho que é isso.

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  3. Acho que temos a necessidade (que não é nada necessária ou um tanto relativa) de nos encaixarmos em algum estereótipo, assim como as tribos indígenas com seus colares ou penas. Talvez marcas do passado, triste futuro.

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