P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 4


Pasárgada não é um reino
são as teclas do piano
são as cordas do violão
lá sou amigo dos Reis
do Iê Iê Iê e do Baião

Pasárgada não é um reino
são meus fones de ouvido
anjos cantando só pra mim
lá sou amigo dos Reis
Freddie, Albert e BB King


(*) Música sempre foi uma atividade social. Com o surgimento do walkman começou a individualização do que era coletivo. Na contramão, resta a praga dos caras que abrem o porta-mala do carro num posto de gasolina pra beber cerveja quente e ouvir a eguinha pocotó.

(*) Minha amiga tá atucanada procurando novos fones de ouvido. Quer o melhor som que seu dinheiro pode comprar. Me pediu dicas... não sei se ajudei. Por deformação profissional, os fones que uso se parecem mais com um árido raio X de tórax do que com uma bela pintura de torso. E são muito caros.

Espero que minha amiga tenha encontrado as frequências graves que procurava. Ela tinha razão na sua atucanação: fones são mais importantes do que roupas.

(*) Mal posso esperar o início da temporada dos fashion weeks. Acompanho pela TV. Não os desfiles, pois não tenho talento para apreciá-los. O que me fascina é a cobertura especializada, os comentários, as entrevistas com estilistas. Nem na Academia Brasileira de Letras nem nas vanguardas do modernismo o verbo foi levado a limites tão longínquos. Me divirto muito. Numa dessas, ouvi essa: "a coleção sintetiza a história dos Jogos Olímpicos e tudo que aconteceu na Rússia, dos czares ao comunismo". Impagável!

E dê-lhe "tendência" pra lá e "tendência" pra cá. O termo é onipresente. Atrás desta palavra suave (que sugere possíveis caminhos), se esconde uma rígida lista de regras e imposições. Estou exagerando? Tente comprar uma calça sem bolsos nas pernas quando esta não for a tendência. Será tão fácil quanto comprar uma camisa do Renato Gaúcho na loja do Inter. Se for tendência, a calça com excesso de bolsos será inevitavel como uma camisa do Zico na loja do Flamengo.


(*) Dias desses perdemos um GreNal decisivo. Nos pênaltis! Nosso centroavante chutou a bola a perder de vista. Algumas horas mais tarde, Osama Bin Laden foi assassinado. Não lembro de terem usado a palavra "assassinato". Eufemismos devem ter limpado a cena do crime. Ok, o cara era uma mala, mas, pelo meu dicionário, o termo seria esse mesmo.

Por conta do meu fuso horário disfuncional (fruto do meu talento inato para trocar o dia pela noite e da minha rotina-sem-rotina de músico-amador-profissional), eu estava dormindo quando a notícia tomou conta do mundo. Quando acordei, a crer no relato, o corpo de Bin Laden jazia no mar havia algumas horas. A primeira mensagem que li no twitter dizia: "pô, esta piada é velha! RT: Osama morreu por que foi atingido pela bola do pênalti que Borges errou".

Menos de 24h horas depois, a piada já era velha? Era. Caraca!

(*) Dia desses vi, na capa do jornal, o desenho de um iPod andando de bengalas e usando cachecol, óculos e boina. O aparelho (tão inovador há tão pouco tempo) fora transformado num velhinho para ilustrar uma matéria que anunciava o iminente fim de seus dias.
Caraca! Tempos velozes para as piadas e para a tecnologia.

O ReiPod morreu?
Viva o ReiPod!
Façamos um minuto de silêncio
Réquiem para um bolso vazio


(*) Hegemonia me irrita. Melhor: me dá sono. Melhor ainda: irrita E dá sono. Seja nas relações pessoais, nas inovações tecnológicas, na indústria cultural ou mesmo no futebol. Neste, se trata de ganhar, é claro. Mas acho bobagem o papo sobre quem tem o maior estádio, a maior torcida.

Na indústria cultural, não é de agora o uso de metáforas bélicas: o filme foi um "blockbuster". A música "estourou". Rolou uma "blitz" de divulgação. Sintomático: guerra, hegemonia.

Fico irritado e com sono quando, num piscar de olhos, o país inteiro começa a usar palavras em italiano macarrônico ou termos mal assimilados da cultura indiana por que assim falam numa novela da rede de TV hegemônica. O efeito manada não acontece só nas camadas mais populares. Teus amigos cultos começaram a falar de belle époque com uma sincronicidade estranha? Deve ser influência de um novo filme do Woody Allen.

(*) Segundo a tese tecnicista, tudo que pode ser quantificado pode ser comparado e aprimorado. O raciocínio pode servir para uma fábrica de parafusos, mas será que faz sentido para qualificar vinhos, restaurantes ou perfumes?

Quando as mais importantes revistas especializadas começaram a dar nota numéricas (números com vírgula!) aos vinhos, a excitação do mercado foi evidente. Uma ferramenta para medir objetivamente o que é subjetivo. Quem realmente entende do assunto despreza estesrankings. Mas, pro mercado, funciona. E muito. Parece que as pessoas não estão interessadas na qualidade do vinho ou no prazer do jantar. Elas querem dizer que tomaram O MELHOR vinho e jantaram n'O MELHOR restaurante. Querem estar no lado hegemônico.
Existe o melhor beijo? Até pode existir, mas só na opinião de, no máximo, duas pessoas. O melhor beijo jamais será hegemônico.


(*) Acho que enveredei para este papo sobre hegemonia por que, enquanto escrevia este texto, na sala de embarque do aeroporto, um menininho puxou o pai pelo braço e, apontando para o meu laptop, disse: "Eu queria um computador daqueles da maçã. São os melhores do mundo, pai!".

Me deu vontade de dizer: não entra nessa, garoto! O melhor computador é o de quem tem as melhores idéias. Não adianta entulhar as fotos de filtros bacaninhas que envelhecem e embelezam "naturalmente" a imagem. Nenhuma maquiagem esconde a falta de conteúdo.
(*) Bons fones, se possível. Boa música, sempre!

05jul2011
Você realmente acha que
uma perda de tempo é uma perda de tempo?
Então, não perca tempo:
Ouça os 3 Kings: Freddie, Albert e BB.
Leia o poema do Bandeira:
http://www.releituras.com/mbandeira_pasargada.asp

6 comentários:

  1. Como vc sempre disse: forno aberto não assa pão.

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  2. Quando desfilo fora de moda pelas calçadas de Curitiba, é quando estabeleço a trilha sonora que rola no meu mp3 - devidamente convertidos em ondas sonoras com um Koss Porta Pro. Já encontrei - poucos - que usam do mesmo artifício nas calçadas da cidade. Quase um "você é maçom?" pensa em escapar pelo meu sorriso. Inevitável esse prazer da sensação de "pertença" que me acomete - mesmo quando tento represá-lo (o dedo na fissura da represa).

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  3. Glauber gorski, tenho um mesmo Koss Porta Pro. É impressionante como isso também já aconteceu comigo.

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  4. Vou embora pra Pasargada!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Pasargada, hegemonia, falta de conteúdo, e amansa-burro virtual para Woody Allen. :/
    Amo fotografia, pois eterniza momentos e carrega consigo uma inifnidade de sentimentos, basta tocá-la, Você nunca vai ouvir : Sabe aquela fotografia de seu pai ? Pois é, morreu! E disse que sempre te amou.

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