P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 15


L(*)NGE DEMAIS D(*) CAPITAL

(*) Dinheiro. Astral estranho cerca esta palavra. Seja na especulação online, global e sem cheiro, seja nas imundas notas amassadas do mundo físico; é um astral estranho.

Tranquilizo quem resistiu a este par de frases hippongas e continua lendo: eu sei que se pode comprar coisas bacanas. Não só objetos: dá pra comprar tempo, informação e saúde. Mas também dá pra fazer um monte de merda com tempo, informação e um cirurgião plástico.

Não conheço ninguém que goste de dinheiro. Quase todo mundo que eu conheço gosta (adora, venera, necessita) do poder e do prazer que o dinheiro pode trazer.

(*) Tudo na vida tem um lado bom e um lado ruim (com exceção dos LPs do Pink Floyd, que tinham dois lados bons). O dinheiro tem um lado interessante: ele é sincero, fala alto e deixa tudo explícito. É uma ferramenta útil para explicar como e porque andam as coisas. Money talks, bullshit walks (dinheiro fala, o resto se cala).

Nas ruas da cidade, é fácil seguir as pegadas da grana. Ela deixa um rastro de construções e demolições. Passo frequentemente por uma esquina nobre de Porto Alegre. Um dos quatro prédios que a configuram, com colunas pretensiosamente niemeyerescas, deixou de ser banco para vender telefones celulares. Na diagonal oposta, uma loja de esportes virou farmácia. Telefonia e remédios, pelo menos aqui, parecem ser a bola da vez. Rádios, cinemas e teatros da minha cidade se transformaram em franquias de video-evangelistas. Será uma vitória do espírito ou da matéria?

(*) Para facilitar a convivência, nossa tragicômica raça criou relógios, sinais de trânsito, apertos de mão, gramática e moeda. São algodões entre cristais. Mal usados, relógios, sinais de trânsito, apertos de mão, gramática e moeda se transformam em elefantes numa loja de cristais. Ah, nossa cristalina raça...

O que acontece com a boa ou má utilização do dinheiro, todos sabemos. O que frequentemente esquecemos é de reconhecer sua importância como mediador de trocas. Imagine se não existisse: eu teria que pagar meu dentista com uma canção! E se nenhum dentista gostasse do meu som? Eu ficaria sem meu dente de ouro! Por outro lado, nenhum ginecologista jamais poderia ouvir minhas músicas pois eu não teria uso para seus serviços.

Claro, poderíamos fazer tudo por amor. Mas... ah, o amor! Melhor não sobrecarregá-lo, né? Melhor deixá-lo florescer ao seu modo. Onde e quando menos se espera. Frágil e imortal.

(*) Alguns artistas (e todas as religiões) também oferecem sistemas para explicar o mundo. E há os pensadores, é claro. Marx e Adam Smith. Freud e Jung. Einstein, Newton, Kant, Copérnico, Galileu... O grande Darwin! Todos com sacadas geniais. Cada um na sua.

Tudo na vida tem dois lados: um bom e outro ruim (com exceção dos discos do ............. , que só têm lado ruim). Quando um sistema é muito bem concebido, é difícil escapar da tentação de usá-lo fora de contexto. É conhecido o caso do cientista soviético que tentava aplicar as idéias de Marx na (pásmem!) genética das plantas. Também é muito comum usarem, erroneamente, o darwinismo para explicar movimentos sociais. O dinheiro, nem se fala, tá sempre entrando onde não foi convidado: nas relações familiares, nas amizades... no amor? Nah... Deixemos o amor em paz. Falar de amor não é amar.

Com exceção das religiões (que são indiscutíveis por se basearem na fé e em dogmas) todos os sistemas pra explicar o mundo, por melhor que sejam, são parciais. Eles têm limites. A realidade nunca se deixa capturar completamente. Algumas vezes até parece que ela não existe, né?

(*) Espero que meu papo não tenha deixado o astral estranho. Sei que muita gente lê no exato momento em que eu posto, na madrugada de terça. Não gostaria de tirar-lhes o sono. Nem de fazê-los dormir. Se alguém lê antes do almoço, não gostaria de tirar-lhe o apetite. Nem de fazê-lo comer mais do que precisa. Só queria bater um papo, sem euforia nem depressão.

Enveredei por esta trilha porque começou a tocar nos meus fones a canção que diz: it all makes perfect sense expressed in dollars and cents, pounds chillings and pence (tudo fica claro expresso em dólares e centavos, libras, xelins e pence). E, por um momento, tudo fez sentido. Só por um momento. A realidade, bichinho assutado, escapou de novo.

quanto vale a vida
nas garras da águia
nas asas da pomba
há coisas que o dinheiro não compra
contas que a gente não faz

Opa, peraí! Tava pensando que ia sair sem meu abraço? Nah, nah, nah!


20set2011

11 comentários:

  1. Essa é a realidade do mundo consumista que vivemos,conheço muita gente que é escrava do dinheiro,aqui em caruaru também acontece o mesmo,teatros e cinemas estão fechando as portas e estão se transformando em igrejas ou pontos de vendas !
    E quando chega alguém com pinta de banaca no balcão onde trabalho,o pessoal vai a loucura porque sabe que aquela pessoa pode gastare uma comissão é sempre bem vinda,acho tudo isso muito vulgar,não que o dinheiro seja ruim,mais tudo em excesso faz mal ou vira moda,não sei !
    Como diria o humberto " Amar e mudar as coisas me interessam mais " !
    Eu : @sivaldoallysson

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  2. Can't you see
    It all makes perfect sense

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  3. Tinha ficado tão triste,pensando que vc não iria mais alegrar as minha terças! Mas,vc me surge com esse blog,fiquei tão contente! Seja bem vindo(de novo)
    Te Amo seu lindo!

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  4. "Não entendo os homens, gastam a saúde para conseguir dinheiro e depois, gastam o dinheiro para conseguir saúde" (Mahatma Gandhi)

    "Quando se anda em círculos, nunca se é bastante rápido."

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  5. É bem isso mesmo, gastar saúde pra conseguir dinheiro e depois pagar pela saúde.

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  6. Seriamos mais livres se pudéssemos viver alheios ao dinheiro e tudo o que esse mundo consumista pode nos oferecer de "bom e bonito"? Pura ilusão, estamos mergulhados nesse "sistema ... O bom é que podemos ouvir e ver pessoas como você, fazendo parte de nosso mundo, mesmo que seja num espaço "virtual".
    Meu filho e eu te amamos de paixão.
    Quando é que você vem a BH? Logo, espero.
    Um beijo.
    Que bom você neste blog....
    Regina

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  7. Sim, tudo tem seu lado bom e ruim, sim, os discos do Pink Floyd têm o dois lados bons. E sobre o dinheiro um dia uma amiga minha se lamentou assim “Eu sinto sua falta. Sinto falta de ir em restaurantes com você. E de ir ao cinema com você! Sinto falta até das baladas com você! Sinto falta de sair em feriados sem nenhum motivo em especial com você. Sinto sua falta em cada final de semana! Eu sinto falta de não ter que me preocupar com o mundo porque você estava lá para mim. Acima de tudo eu sinto falta da felicidade de saber que eu tinha você. Dinheiro, pra onde você foi???”. O lado ruim do dinheiro passa batido quando ele não está com você, o que não quer dizer que não existe. Desmembrar isso é uma tarefa um tanto “zen” nesse mundo sem tempo para ser “zen”. Hoje sinto mais falta do tempo, que dizem que é o mesmo que dinheiro. Mas por que fico sem tempo quando estou com dinheiro. E “as contas que a gente faz”? Tendo dinheiro, mesmo muito, o contamos, e tendo supostamente tempo de sobra, já que tempo é dinheiro, e vice e versa, por que contamos sempre? Talvez seja por que sempre contamos as sobras, seja de dinheiro ou de tempo. E sobras não são legais. Talvez precisemos de “novas variáveis” que não o tempo e/ou dinheiro: esses dois duendes de mãos dadas a nos atormentar nesse mundo moderno de ideias velhas.

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  8. Dinheiro compra quase tudo. Só não pode comprar a saúde de nossas crianças... :-7

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  9. As pessoas não devem servir ao dinheiro
    O dinheiro deve servir as pessoas, assim como as idéias,talvez em um futuro próximo seja assim, abraço irmão e obrigado por compartilhar sua visão.

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  10. Esse abraço de set/2011 recebi em jan/2012. Comunicação atemporal que transporta um gesto clássico. Contemporâneo e moderno. Hoje jogo o meu abraço, que você receberá em outro momento, como um bumerangue que procura uma outra origem, construindo um novo destino.

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  11. Dentro de todo seu trabalho que eu amo de paixão (e não existem exageros nessa frase...kkk) eu tenho minhas preferências a primeiríssima é "Ando só", já o segundo lugar é divido por várias outras, dentre elas "Quanto vale a vida", cada vez mais atual ele retrata muito bem o valor que as pessoas dão as demais hoje... NENHUM!!!

    Um grande abraço,

    Ana

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