P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 12


me espanta que tanta gente sinta
(se é que sente)
a mesma indiferença
...
me espanta que tanta gente minta
(descaradamente)
a mesma mentira
...
me assusta que justamente agora
todo mundo (tanta gente)
tenha ido embora
...
todos iguais e tão desiguais

(*) Quando digo que não gosto de ir ao cinema, recebo olhares que misturam espanto, reprovação e pena. Eu mesmo devo ter misturado estes três ingredientes quando li que o poeta João Cabral de Melo Neto não gostava de música. Ou quando ouvi Maria Bethânia dizer que não gosta do pôr do sol (segundo ela, é uma hora "nem barro nem tijolo").

Mais do que questões de gosto pessoal, me interessa o caráter provocador destas declarações. São pequenos desafios ao bom-senso-uníssono-ensurdecedor. Valorizo cada vez mais os pensamentos minoritários, quase idiossincráticos. É preciso preservá-los da patrola e da patrulha. São como as notas dissonantes que embelezam tantos acordes. Não podem silenciar.

(*) O mundo virtual, com suas redes sociais, propicia que pensamentos minoritários encontrem um fórum, o que é muito legal! Estranho é que este encontro sirva para que se reproduzam os mesmos vícios das maiorias. Um monte de gente que pensa igual se encontra, se fecha em grupos muito específicos e perde contato com pensamentos diferentes. Isolados, os iguais se realimentam, radicalizam e acabam atrofiando os músculos da tolerância.

É mais fácil pregar para os convertidos. Mas... faz sentido? Nah... temos é que aprender a conviver! Sem represas, sem apartheid. Sem vidas secas nem olhos úmidos.

Ops, se tá confuso o papo, provavelmente a culpa é minha. Só pensei nisso superficialmente, enquanto saia do estádio, depois do GreNal. Vi dois caras caminhando, lado a lado, pacificamente, cada um com a camisa de um time. Pensei nisso por que esta paz me surpreendeu. Seria melhor se não surpreendesse: esta paz deveria ser normal!

viva a diferença
chame de xímia a geléia geral

(*) Quando entramos em contato pela primeira vez com uma banda, uma pessoa ou uma canção, é natural que nos perguntemos com que outra ela se parece. Pensamos por analogia. Precisamos catalogar a informação, para isso usamos atalhos. Tudo bem, se for só a reação inicial. O perigo é vivermos sempre catalogando, abreviando, atalhando. Pior ainda se, para sermos mais rapidamente entendidos, cedermos à tentação de abreviar, catalogar e traduzir nossas próprias atitudes. Muito cuidado com a pessoa, a banda ou a canção que quer se parecer com outra!

(*) Algumas coisas são difíceis e levam tempo. Algumas destas coisas (difíceis e que levam tempo) são as melhores da vida. Pensei nisso enquanto comia um pouco de lixo num fast-food.

Falando em comida (e mudando de assunto): acho estranho que as refeições sejam unanimemente aceitas como momentos de confraternização. Ok, ok, "partilhar o pão" é uma metáfora insuperável, sem dúvida. Mas não acho o ser humano, enquanto mastiga e engole, uma visão muito agradável. Talheres, copos e guardanapos não ajudam muito a disfarçar a verdadeira finalidade do "churrascão" e da "jantinha". Pra ser sincero, acho as cenas de leões se alimentando que vejo no Discovery Channel menos agressivas do que a socialização que testemunho em restaurantes.

Putz, pena que não entendo nada de antropologia! Gostaria de saber se sempre foi assim, em todas as culturas: "churasquinhos" e "coquetéis". Será que alguma civilização fez do momento emblemático da alimentação algo solitário e instrospectivo? É a hora em que mais nos aproximamos do pó do qual viemos e ao qual voltaremos, né? Abocanhar, mastigar e engolir matéria para continuar sendo matéria! Nós, pobresspirits in a material world. Bah, desculpaí, se foi mais um pensamento do tipo "não gostar de música, cinema e pôr do sol".

(*) ... e o prêmio de "Melhor Pergunta" vai para: João Cabral de Melo Neto! Ele perguntou a Vinícius de Moraes se o querido poetinha não cantava outras vísceras além do coração. Que figura ímpar! Como todos nós, né? A diferença é o que temos em comum.

30ago2011

9 comentários:

  1. Esta semana, estava zapeando a tv e parei no Saia Justa, do canal GNT. Estavam falando, justamente, disso. De como as pessoas "singulares", sofrem em mundo tão "plural".

    Confesso que, já tentei ser plural.
    Gostar da bandinha da moda, rir das piadas sem-graça do meu chefe, dizer que fulano deveria ir para a seleção, quando na verdade, achava o jogador um pereba. Cara, não desce!

    Noutro dia, ouvi uma frase maravilhosa. Mas, perdi quem era o autor. Dizia: " Desconfie sempre das pessoas que falam no plural. Nós vamos conseguir. Nós vamos fazer. No fim, elas não fazem nada"

    Gosto de dizer, no meio de uma roda de cabeludos vestidos de preto, que sou fã de Engenheiros do Hawaii. Causar aquela reação de "O queeeee? Como assim ?".

    Isso é muito mais heavy metal, do que ouvir qualquer banda trash no volume máximo! (*)


    (*) "mais chocante/direto"

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Deve ser uma coisa do tempo das cavernas, os homens caçavam em bando porque assim conseguiam mais sucesso na sua caça, depois naturalmente comemoravam juntos comendo a caça obtida. Deve ser... será?

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  4. Uaau! Eu canto o coração! Mas conto mãos e olhares e sorrisos... até mesmo "teclares" (sei, essa palavra não existe... acabei de cria-la), mas canto as idéias em si! Idéias verdadeiras! sem CtrC, CtrV...
    Idéias!
    Acho, humildemente, o Pouca Vogal foi o ápice do HG... (ápice não seria palavra... talvez platô...). Nenhuma intenção tanto de verder... mas de saborear... palavras, vidas, situações... apenas saborear...


    Huggs!!!
    Eloisa Rocia

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  5. Que texto cara!
    "A diferença é o que temos em comum"
    finalmenteeeeeeee!!!!!!!!!!!! consegui entender esta frase!

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  6. Putz... Odeio comer sozinha. Acho muito chato. Mas fico feliz em saber que pensamos diferente, afinal, seria um tédio se todos pensássemos da mesma forma.

    Hugs!!!!

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  7. Eu gosto de comer sozinho. Acho um pouco chato ter que responder várias perguntas toda vez que alguém percebe que sou vegetariano. Quanto a cantar..."por pura falta de opção", eu canto mesmo é com o coração...(é o que me conecta ao mundo)...

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  8. Um dos melhores textos... Sempre que dá eu volto, pra lembrar os detalhes!! ♥

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