P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 11


planos de voo

tava tudo em cima:
céu de brigadeiro sobre nós


pane! pânico!

perdemos altura:
puxaram o tapete voador
 

(*) 1987. Voo de Belém para Porto Alegre. Sobe e desce, muitas escalas no caminho. O produtor da banda me acorda pedindo um autógrafo na capa do LP A Revolta dos Dândis.
- Qual nome?
- Stanley.
- Será que é abrasileirado, tipo "Estânlei"?
- Não, é com S e Y mesmo.
- Pronto.
- Valeu. Vou entregar pro Stanley Clarke. Ele embarcou em São Paulo.

Quando ouvi o fim da frase, o disco já estava fora do alcance do meu braço. Me joguei no corredor para agarrá-lo:
- Nããããããooooooo!
- Mas ele não é um dos teus baixistas favoritos?
- Sim.
- Não estão superlegais os baixos do Revolta?
- Sim.
- E não quer que ele ouça?
- Não.

Meus ídolos são de outro mundo. Prefiro eles lá.

(*) 1989. No Galeão, embarca Leonel Brizola. Um jovem empresário na poltrona ao meu lado fica exaltado e começa a falar mal dele. Na primeira pausa que fez para respirar, falo calmamente: "Com licença, vou ali pedir um autógrafo pro Briza".

Era possível adorar ou detestar Brizola. Em cada caso, de um jeito bacana ou de um jeito babaca. Resultam quatro possibilidades. Não sei em qual eu me encaixava. Certamente, não era a mesma do jovem empresário. Ele estava embriagado pela utopia da mão invisível do mercado fazendo cafuné em todo mundo, no mundo inteiro. Era a onda do momento. Quando voltei com o autógrafo, ao menos o cara ficou quieto.

(*) 1989. É impressionante a contribuição que a Espanha deu à humanidade. De modo especial na pintura. Dizem que a luz do sol banha o país de forma singular. Seria esta a explicação. Durante o voo para a URSS (com conexão na Dinamarca), olho pela janela e vejo, na paisagem, cores que nunca tinha visto. Pergunto o que estamos sobrevoando... feitos os calculos: a Espanha.

Na URSS, uma outra luz iluminava tudo que víamos e sentíamos. Era o comunismo real. Nos pagaram em rublos, moeda que não era convertível. Deixei meu cachê pro cara que nos serviu de intérprete durante a estada. Alexandre Master, nosso técnico de som, jogou as notas para o alto enquanto caminhava lentamene, com um cigarro no canto da boca, pelo aeroporto de Moscou. Por não acreditar no que estava vendo, ou por que o dinheiro valia pouco, pouca gente se abaixava para pegar.

Nos tempos anteriores às restrições ao cigarro, as últimas filas de poltronas dos aviões eram destinadas a fumantes. As primeira eram exclusivas para não fumantes. Pouca diferença fazia. Principalmente pra quem sentasse no limite entre as duas áreas. O ar era o mesmo para todos. É o que acontece com quase todas as leis: há uma área cinza onde elas ficam absurdas. Quase todas...

(*) 1990. Em Maceió, esperando para decolar, vem a notícia: o aeroporto seria fechado sem previsão de abertura. Motivo: o recém empossado presidente Collor chegaria, de Brasília, para passar o fim de semana em casa. Cinco horas depois, foram liberados os pousos e decolagens: o cara tinha desistido do passeio.

(*) 1990. A economia do garimpo tem suas peculiariedades. É um fluxo de dinheiro maluco, aleatório. Um trabalho duro num ambiente hostil. Quando pousei em Boa Vista, uma quantidade enorme de monomotores sobrevoava a pista do aeroporto. Parecia um enxame de abelhas. No café da manhã do hotel, vi um vendedor mostrando catálogos de aviões para um garimpeiro descalço e com poucos dentes. Antes que meu café esfriasse, eles fecharam negócio.

(*) 1991. Não me perguntem como ele conseguiu: num pouso em Manaus, Alexandre Master convenceu a aeromoça a deixá-lo fazer o speech. "Senhoras e senhores... em instantes estaremos pousando... por favor afivele o cinto de segurança... poltrona na vertical... etc e tal". Ao fim do texto protocolar, ele gritou alucinadamente: "Rain Forest! Rain Forest! Raaaaaaain Forest!". Para supresa de todos, susto de muitos e divertimento dos mais chegados.

(*) 1993. Enquanto meus camaradas passavam rapidamente pelos Guardas da Fronteira, no aeroporto de Los Angeles, meu passaporte era debulhado com extrema atenção e passava por muitas mãos. Respondi várias vezes as mesmas perguntas. Quando me liberaram, entendi o tratamento especialmente cuidadoso: um sobrenome alemão num passsaporte brasileiro que só tinha dois carimbos, um japonês e outro soviético. Era estranho, suspeito. Suspeito de que? De ser suspeito.

(*)1994. Não me lembro a origem do voo, só o destino: Maringá. Avião pequeno, a maior turbulência da minha vida. Paredões de nuvens. O turbo-hélice hesitava, pra lá e pra cá, como um bêbado dançando tango. O barulho vacilante do motor, a porta da cabine batendo, choro e ranger de dentes serviam de trilha sonora para este filme de terror. Quando pousamos, todos correram para os orelhões do aeroporto (ainda não exisitiam celulares). As expressões mais ouvidas eram "desculpa... a gente briga por qualquer bobagem... o importante é estar vivo... nunca mais... graças a Deus... daqui pra frente...".

Não sei quanto tempo duraram as promessas e as reconciliações feitas sob o trauma de um voo tão ruim. Talvez menos do que a tendinite no braço que me acompanhou por duas semanas. Fruto da tensão: eu passara o voo inteiro agarrado à poltrona como se ela fosse salvar minha vida. Também prometi mudar algumas coisas. Se não mudei, continuo prometendo. Já é um primeiro passo. Mesmo que seja o passo de um bêbado dançando tango.

(*) 1995. Quando me acidentei a caminho de um show no interior do Espírito Santo, o médico costurou o que precisava ser costurado e me receitou antibióticos, anti-inflamatórios, anti-não-sei-mais-o-quê... Novato no reino da química, tomei os remédios em jejum, acompanhados de meia xícara de café preto. Desde então, meu estômago tem desconfiado de todas as decisões que tomo e de tudo que como. No voo de volta pra casa (Vitória/Rio), fiquei no banheiro. Da decolagem ao pouso.

(*) 1998. Esqueci meu exemplar de Moby Dick num voo entre Salvador e Porto Alegre. Alguns dias depois, recebi telefonema do pessoal da Varig. Queriam conferir o endereço para entregar o livro, que fora encontrado no bolso da poltrona. Não sei se eles faziam isso com tudo que era esquecido nos aviões (talvez por isso tenham falido). Achei o máximo! E o clássico de Melville, para mim, ganhou mais uma história.

(*) 2000. Não lembro de onde vinha nem para onde ia o voo. Um senhor de idade avançada se apresenta: era maestro. Começamos a falar sobre música. Fiz vários comentários contra a substituição dos músicos por teclados e samplers. Um pouco por pensar assim mesmo, um pouco para agradar meu companheiro de profissão, supondondo que a tecnologia estivesse lhe tirando trabalho. Depois de pegar sua bagagem na esteira, ao se despedir, o velho maestro me deu seu cartão: "Fulano de Tal - Maestro - Programador de Sintetizadores".

(*) 2007. Saca o filme Terminal, com Tom Hanks? Tive um dia parecido. Decolei de Porto Alegre às 6 da manhã para tocar em Fortaleza à noite. No meio do caminho, o caos aéreo me pegou. Fiquei 14 horas no aeroporto de Cumbicas. Desembarquei em Fortaleza e nem esperei as bagagens, fui direto pro palco. Banda e equipe, que tinham saído do Rio, me esperavam com ansiedade. Só deu tempo de dizer "Oi!" e contar 1,2,3,4. O público cearense, caloroso como sempre, entendeu o atraso e, junto com a gente, fez um baita show!

(*) Por que Lula e Iron Maiden batem papo num mesmo canto do meu cérebro? Não, não é pela relação fonética entre "metalúrgico" e "metaleiro". Em 2011, pela janela de um avião que pousava, vi o jato da banda inglesa estacionado no aeroporto de Curitiba. Em 2003, dias depois de Lula assumir a presidência, pela janela de um avião que decolava, vi o jato presidencial na pista de Congonhas.

Tive a mesma sensação nas duas ocasiões. Um operário e uma banda de heavy metal ocupavam o espaço que geralmente é de outro tipo de gente. Legal! Nas duas vezes, a imagem dos aviões na pista (a pintura pop art do Iron Maiden e o brasão solene da presidência) se misturava com o reflexo do meu rosto na janela de um avião que ora pousava, ora decolava. Dez anos entre as duas ocasiões. Menos da metade da duração do meu voo como músico.

Tenho andado por aí... já não me incomoda ignorar para onde, porque e até quando. Há poucos dias, durante um voo que desceria em BH, uma guria pediu para fazer uma foto. Muito querida, ela contou que havia tatuado uma frase minha nas costas. Tinha idade para ser minha filha. Mas ali não havia pai nem filha, nem ídolo nem fã, nem um cara dando em cima de uma menina, nem uma menina a fim de um cara. Eram dois seres humanos em trânsito, mergulhados nas suas vidinhas particulares mas conectados pela vida maior: da arte e das canções. Deve estar aí a resposta que sempre me escapa. Para onde, porque e até quando...

23ago2011

9 comentários:

  1. Isso estava na hora de um blog Huumba, e eu leio e releio esses textos cada dia vendo de uma forma. parabéns você eh foda!

    ResponderExcluir
  2. Cristiano Borba / Santos SP24 de setembro de 2011 20:08

    Cara sempre que viajo de avião fico procurando OVNIS.
    Espero um dia encontrar , não sei não...


    Abração

    ResponderExcluir
  3. Humberto, você tem idéia de quantos vôos já fez, fico aqui só imaginando. Parabéns pelo blog e pela música. Abraço, você é o cara!

    ResponderExcluir
  4. Imagina Lula e HG todos os dias na minha cabeça?

    Cara... legal! Muito legal essa retrospectiva!
    Pirei!


    Huggs!!!!
    Eloisa Rocia

    ResponderExcluir
  5. 1995. Quando me acidentei a caminho de um show no interior do Espírito Santo, o médico costurou o que precisava ser costurado e me receitou antibióticos, anti-inflamatórios, anti-não-sei-mais-o-quê... Novato no reino da química, tomei os remédios em jejum, acompanhados de meia xícara de café preto. Desde então, meu estômago tem desconfiado de todas as decisões que tomo e de tudo que como. No voo de volta pra casa (Vitória/Rio), fiquei no banheiro. Da decolagem ao pouso.

    KKKKKKKKK!!!!!!!!rachei!

    ResponderExcluir
  6. O detalhe mais curioso é a referência a um filme. Creio que encontrarei muito menos referências a filmes na história desse blog do que referências a aviões neste único post. Filme em texto do HG é o objeto voador a ser identificado no radar do controlador de voo.

    ResponderExcluir
  7. Nos dias atuais ao vir para Maringá você corre o risco de ficar preso num sobrevôo em círculos... por quê? Aeroporto fechado em razão da forte neblina que costuma visitar (com uma frequência irritante...kkk) a região onde o novo Aeroporto esta instalado...

    Mas mesmo assim venha sempre a Maringá, os "De fé" daqui vão amar...

    Abraços,

    Ana

    ResponderExcluir