P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 10


um-DOIS / um DOIS
um-dois-TRÊS-quatro
um-dois-três-QUATRO-cinco-seis
UM-dois-três / UM-dois-três / UM-dois-três

o tempo da música, qualé?
segundos / semanas / séculos
o tempo da música, qualé?

(*) Adoro agendas (de papel, hoje é necessário especificar). São um misto de livro e calendário. O futuro nas páginas em branco, o passado nos garranchos da minha escrita. Graças a elas guardo registro de todos os shows e eventos importantes da minha carreira.

Não são só as palavras que contam histórias. Os desenhos que o arrependimento nos fez soterrar com rabiscos, o número de telefone que nunca mais lembraremos de quem é, os versos que não viraram canção, a pressa ou o capricho com que desenhamos as letras, a mistura das cores dos vários tipos de canetas que usamos durante o ano... tudo conta histórias. Gosto do degradê que a hidrocor com pouca tinta traça. Da primeira letra ao ponto final, a cor vai desmaiando como se a frase fosse o fade out de uma canção.

Minha caligrafia sempre foi das piores. Na escola, só um ou outro colega canhoto conseguia escrever pior do que eu. E tem piorado com a falta de uso. Neste mundo de teclados e telas sensíveis ao toque, o que resta da minha caligrafia é preservado por autógrafos, fichas de check in em hotel e anotações na agenda. Últimos redutos da escrita manual. Um cativeiro onde a espécie ameaçada de extinção, constrangida, se reproduz.

Agendas antigas testemunham mudanças de gosto e atitudes. As minhas têm vários levantamentos de preço de instrumentos. Uns que me arrependi de comprar, outros dos quais sinto saudade apesar de nunca ter tocado neles. As páginas em branco, sem o amassado do manuseio, guardam mistérios. Eu estava tão ocupado que nada escrevi ou não escrevi porque nada aconteceu? Aquela hora anotada para lembrarmos da ida ao dentista numa quarta-feira de 2003, hoje, nos lembra como é bom estar sem dor. Alguns contatos somem depois de frequentar várias agendas, outros aparecem de repente e permanecem nos anos seguintes.


(*) Quando a Editora Belas-Letras me propôs lançar uma agenda, pensei em tudo isso. Pensei na continuidade visual com as 123 e 45 variações sobre um mesmo tema. Aos poucos foram pintando idéias para esta agenda que, em 2013, colocarei na estante, ao lado do Pra Ser Sincero e do Mapas do Acaso. Espero que, então, ela esteja cheia de coisas legais para lembrar.

Um dos desafios mais interessantes ao desenhar uma agenda é a maleabilidade: fazer com que ela sirva a todos. Um padrão que a vida, o dia a dia de cada um, vai personalizar. Para Fulano, cada dia da semana deveria ocupar três páginas e fins de semana seriam desnecessários. Para Beltrano, os sábados e domingos seriam imensos e o resto da semana caberia em meia folha. Mas uma agenda não é feita para alguém: é feita para todos.

(*) O pessoal da editora selecionou algumas frases minhas, de entrevistas e livros. Achei bacana. Alguns devaneios em letra miúda aqui e acolá. Para serem lidos ou ignorados. Eu assinalei algumas datas significativas da minha trajetória. É possível que alguém se lembre deste ou daquele momento e a gente compartilhe, silenciosamente e à distância, memórias afetivas.

Não quis colocar trechos de músicas. Fico muito feliz quando leio um verso meu em camisetas, num perfil de twitter ou pichado num muro. Mas vinculá-los a um dia de um mês de um ano que nem começou, me parecia estranho (três datas são as exceções).

Não acho que minha música seja boa trilha sonora para auto-ajuda. Não tenho nada a ensinar e não quero que minha melancolia ou minha excitação, minhas crenças ou meu ceticismo, sirvam de exemplo pra ninguém. Ouço relatos de pessoas dizendo que alguma canção minha as ajudou em momentos difíceis e transbordo de felicidade. Quem bom! Mas colocar os versos na agenda em branco... não sei... achei estranho, não quis fazer.

Talvez por pudor de quebrar o vínculo que une todas as frases de uma canção, o elo com a melodia, com um acorde suspenso, com uma bem vinda desafinação da voz cansada na última sílaba. Não sei... achei estranho selecionar trechos das letras. Não fiz.

Talvez por desconfiar de músicas lineares, puramente motivacionais, onde tudo-tudo-tudo-vai-dá-pé-quando-o-sol-brilhar-tudo-de-bom-vai-acontecer-e-quando-a-noite-chegar-vai-rolar-a-festa. Honestamente, não sei até que ponto esta overdose de alto astral ajuda as pessoas. Não me surpreenderia se o número de suicídios no carnaval fosse maior do que na quaresma. Não acho que uma música melancólica aumente a melancolia. Na verdade, ela faz companhia.

(*) Tenho um pé atrás com pessoas que estão sempre de bem com a vida. Já vivi o suficiente para saber quando alguém está querendo enganar a si mesmo enchendo as frases com adjetivos exagerados e excessivos pontos de exclamação. Conheço artistas que perderam o brilho nos olhos depois de anos se obrigando a achar tudo legal, dando tapinhas nas costas de cada colega, paparicando cada fã. São gente finíssima, fina camada, verniz superficial sob o qual já não existem.

O outro pé também tenho atrás: com pessoas que estão sempre de mal com a vida. Já vivi o suficiente para saber que o fim do mundo não pode ser todo dia. Profissionais do máu humor apocalíptico não me convencem. Conheço artistas que perderam o brilho no olho depois de anos se obrigando a odiar tudo, dando punhaladas nas costas de cada colega e virando a cara para cada fã. Grosserias, sob grossa camada de gelo, estes caras já não existem.

A virtude está no meio termo. Mas o meio termo a gente nunca sabe onde é, né? E William Blake disse que "o caminho do excesso leva ao castelo da sabedoria"! Ah, aforismos são o band-aid do pensamento: só servem para cortes superficiais. Ih, acabei de criar outro aforismo, né? Vou anotá-lo na agenda. Que tal usar lápis de cor?

alegrias e tristezas: é a vida
#fato
sempre alegre ou sempre triste
é sempre chato

(*) Como? Se eu posso autografar na data do aniversário? Claro, é um prazer. Tem caneta? Desculpaí a letra, tá?
16ago2011

5 comentários:

  1. Comprei a agenda!!!!
    Fiquei triste, assim q comprei pela Sempre Ler a Stereophonica lançou a agenda autografada... esqueci a tirsteza rápido e a alegria aumentou quando minha agenda chegou! rsrsrsrsr
    Não fico sem agenda, não tenho memória suficiente pra lembrar de tudo que me envolve, e gosto de passar as páginas, sentir, lembrar...
    Adorei a ideia de lançar a agenda e espero que isso se repita!
    Abraço!

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  2. Sempre penso se é estranho pensar que ter uma foto de um ídolo é algo estranho... No fio da minha meada eu consigo conviver com a ideia de que os ídolos é que deveriam receber fotos e autógrafos de seus fãs. Afinal, o que não sai da memória afetiva não precisa da materialização. E a matéria fotográfica da imagem/autógrafo de um fã é o primeiro material para acessar o emocional e a memória de um ídolo.

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  3. Pensei em escrever tanta coisa... mas todas ficam pela metade.

    Do mais, parabéns, vc escreve muito bem.

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  4. Poxa Humberto,não vai ter a versão 2013?

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  5. felicidade é um estado de espírito.

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