P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 5


DIAS DESSES

provavelmente
terei vivido
mais da metade
da minha vida
no século passado

daqui pra frente
estou decidido
nada será
como tem sido
um jogo já jogado

provavelmente
ter escolhido
este caminho
só faz sentido
sem pressa
e para sempre

n'alma da gente
já existia
cicatriz antes do corte
cinza antes do fogo
vida após a morte

(*) Nem sempre os números estão com a razão. Às vezes, os adjetivos se aproximam mais da verdade. Mas, na hora certa, 0,1,2,3,4,5,6,7 e 9 são ótimos companheiros. Tá te achando o máximo? Experimenta colocar teus anos de vida numa timeline mais abrangente. Não precisa ir muito longe, um único século basta. Garanto que os pés voltam ao chão rapidinho.




(*) Desde o início da minha saga de músico-amador-profissional, acompanhei várias mudanças drásticas (ah, que vontade de usar a palavra "revoluções") na tecnologia de audio. Entre elas, a digitalização (que tirou do chão os pedais e empilhou os efeitos num rack) e o MIDI (um protocolo para teclados trocarem informação). Sem falar nos processos de gravação. Oops estúdio é papo de produtor. E produtor é quem transfroma música em produto. E eu sou músico.

A revolução (pronto, usei a palavra) mais sintomática foi uma que não aconteceu. Na primeira metade dos anos 90, a revista Keyboard veio com uma capa definitiva: "The Next Big Thing". Falava de uma nova tecnologia de sintetizadores.

{Nos anos 60, se os sintetizadores analógicos queriam imitar o som de algum instrumento já existente, o resultado ficava tão distante que soava original. E ser original, acreditem, era do caralho! Com a digitalização, nos anos 80, abria-se uma estrada potencialmente infinita para a originalidade. Dando as costas a esta estrada, os sintetizadores começaram a ter, cada vez mais, sons que imitavam instrumentos já existentes: pianos, órgãos, cordas, metais e até Moogs e Oberheims (os teclados analógicos do passado). Criou-se um vácuo, um buraco negro. Uma época sem sons próprios.}

A tal nova tecnologia anunciada na capa da Keyboard permitiria, além de copiar quaquer instrumento, criar instrumentos virtuais. Se bem me lembro, davam como exemplo uma flauta com 3 metros de comprimento.Kitsch, mas, pelo menos, promessa de novos sons. Só promessa. A revolução morreu na casca. O que pintou foi mais do mesmo: sons de piano elétrico (anos 40), sons de piano acústico (século XVIII), os sons que Keith Emerson tirava dos Moog e que Jon Lord tirava do órgão Hammond (anos 70), o som que Van Halen tirava de um Oberheim (anos 80). Jump! To the past...

(*) A guitarra ficou nos anos 60/70. Este instrumento ainda evoluiu até o início dos 90, com a sonoridade quase nerd dos shredders (caras que apostavam corrida nos braços das guitarras, os gatilhos mais rápidos do oeste). São desta época os últimos modelos a ter alguma relevância: Kramer, Parker Fly, Paul Reed Smith... O grunge acabou com os atletas da guitarra e suas armas letais. Voltou-se à época dourada das Fender,Gibson, Rickenbacker... É óbvio e, ainda bem, que há exceções nesta história que exponho de maneira tão generalista.

(*) Os sons têm significados técnicos (frequências, timbres) e culturais (quem usou, em que canções). Características inatas e adquiridas. Misturando estas duas perspectivas, coisas interessantes e inesperadas acontecem.

Astor Piazzolla fez sociologia e piada quando disse que o bandoneon nasceu na igreja mas cresceu nos bordéis. Um dos sons mais sexys do mundo, a Clavinet Hohner usada por Stevie Wonder eletrificava o som do cravo (sim, o cravo do período barroco). O mesmo caminho foi feito pelo órgão Hammond: originalmente pensado para igrejas e lares recatados, se transformou num som tão maravilhosamante sacana quanto a guitarra. Taí o Deep Purple de Jon Lord e Ritchie Blackmore que não me deixa mentir. Smoke on the water, fire in the sky. Peixe fora d'água, borboletas no aquário. Coisas fora do lugar. Inesperado e interessante. Como o mictório branco que Marcel Duchamp transformou em peça de museu.

(*) Pela minha natureza cética e por ter acompanhado a digitalização dos equipamentos de audio, fui imune à histeria que tomou conta de algumas pessoas quando as mudanças chegaram ao dia a dia do cidadão comum. Me interesso pelas novidades na medida em que elas podem me ajudar, mas não fico babando porbits e bytesConheço gente que, literalmente, muda sua visão de mundo de acordo com o software ouhardware que tem à mão. Brinco com elas dizendo que não podem passar nem perto de um vibrador. A piada poderia ser mais elegante mas não poderia ser mais pertinente. É legal ser flexível, claro, mas mudar tanto tão rapidamente me parece esquizofrenia.

eu sei, a onda é teclado virtual
luvas com dedos é o normal
mas tenho ideias caminhando
e onde ando faz um frio glacial



(*) Dia desses, quase todos os cronistas do jornal que leio fizeram crônicas saudositas. Uma lamentava o fim do "quebra-galhos" do bairro. Outra falava do cheiro tradicional que cada bairro tinha e que já não sentimos. Uma terceira lembrava do som do afiador de facas que não passa mais pelas ruas do bairro. Na seção de esportes, protestavam contra o fim dos campinhos de futebol nos bairros. Coincidência? Os cronistas são todos da mesma faixa hetária e o outono em PoA favorece à melancolia. Isso pode ter dado uma forcinha para a coincidência (e com ajuda de uma forcinha, já não é coincidência, né?). Afinal, bairros... ainda existem?

As crônicas são os únicos textos que leio no jornal de papel. Quando ele chega, as notícias lidas online já estão velhas. Mantenho a assinatura para forrar o banheiro dos meus cachoros, Laika & Bóris. Taí: uma das razões deste saudosimo pode ser o fato de os meios digitais deixarem poucas pegadas físicas. Pense na diferença entre deletar alguns textos e fazer uma faxina na biblioteca. Ficamos sem referências tácteis, olfativas, visuais.

Será que vem daí o fascínio exercido pelo som de LP arranhado na mente da molecada? A simulação deste som está em todos os sintetizadores digitais! Por isso os filtros amarelando fotos feitas a menos de um minuto nos smartphones? O tempo que amarela o papel não amarela o display. Este, ou funciona ou fica preto. Geralmente é jogado fora antes disso. Não testemunha a passagem do tempo. Por isso fabricam um passado? Lembranças artificialmente envelhecidas em virtuais barris de carvalho. É fofo mas é kitsch mas é fofo mas é kitsch... Kitsch é fofo. Fofo é kitsch. As lojas de instrumentos de Porto Alegre (pretensa Liverpool jamaicana) estão cheias de guitarras semi-acústicas. Se pudesssem, venderiam também o telhado de Abbey RoadYou say you wanna a revolution? Well, you know...


além dos outdoors
nos muros
o que continua
escrito à mão



(*) Não acredito que a memória seja um lugar esperando nossa visita. Me parece mais algo que construímos a cada visita. E nunca construímos da mesma forma. Sempre que lembrarmos do primeiro beijo, será um beijo diferente. Será sempre outra pessoa, a pessoa que nos tornamos, a lembrar do mesmo beijo.

(*) A passagem do tempo e a obsolescência programada têm frequentado meus últimos posts, né? Deve haver algum motivo que não seja saudosismo. Tenho saudade, sim: de algumas pessoas, alguns objetos. Mas não tenho saudade de "tempo" nenhum.

Voltar à adolescência, à faculdade, às primeiras raquetadas, aos primeiros acordes e letras, às músicas "de trabalho" e aos discos "de ouro"? Deus me livre! Deixo eles lá, com todo o carinho do mundo. Estou de corpo e alma aqui e agora. Não acho que as coisas só tenham piorado. Pelo contrário. Vejo sinais bacanas e possibilidades no ar. Profetas do apocalipse querendo vender o melhor assento num bonde chamado "Fudeu" não me seduzem. Não estamos no paraíso, é óbvio. Mas o paraíso não está no passado. Ainda bem: pra lá não se pode ir!

(*) Um pequeno saudosismo que eu tenho é alheio: fico com pena da meninada que, com o fim dos LPs, não pode apreciar a divisão de lados de discos como Tatoo You dos Stones e Bringing it All Back Home do Dylan. Nestes discos, a ordem das músicas e a maneira como foram divididas fazem parte da criação artística. Que Cymbaline venha depois de Green Is The Colour na trilha sonora More do Pink Floyd também aumenta a força de cada uma delas. Isto se perdeu nos tocadores de MP3.

Para equilibrar perdas e ganhos, a função shuffle (modo de reprodução aleatório) do iPod pode nos levar ao paraíso por instantes. Se tivermos sorte. Mesmo o modo de reprodução por ordem alfabética pode nos fazer fruir algumas músicas de forma mais rica. No meu celular, Dear Heart, Dear Mr. Fantasy e Death Is A Starformam uma sequência alfabética. Thin Lizzy, CS&N e The Clash. Uma benção em algumas caminhadas. Neste caso, a rígida ordem alfabética cria uma sequência sem muito sentido. Estranha sensação boa. Não dá pra saber se há ordem ou caos ali. Boa sensação estranha.

{Os primeiros iPods tinham um shuffle muito sofisticado. Aleatório MESMO. Ao contrário do que parece, não é fácil fazer uma sequência acontecer de forma 100% aleatória. O iPod conseguia. Mas o aleatório não é domesticável, pode gerar coisas indesejáveis: um iPod com 5.000 músicas na memória poderia tocar 5.000 vezes a mesma música. Algumas sequências de canções começaram a incomodar os consumidores. A Apple teve que reduzir a aleatoriedade do shuffle nos modelos seguintes para que os consumidores achassem que a sequência das músicas era realmente casual.}

(*) Pra frente é que se anda, para a praça, ver a banda passar. Inventei um power-duo. Montei meu equipamento em frente à lareira numa noite do inverno portoalegrense. Liguei uma webcam e toquei para milhares de compañeros espalhados pelo mundo. No ranking que mede audiência, os trendig topicsmundiais, apareci com três referências: meu nome e duas músicas. Sem nada além de boca a boca virtual. Na parceria com os de fé. Não quero me exibir e quero que os rankings se fodam, mas, às vezes, 0,1,2,3,4,5,6,7,8 e 9 podem nos dar alguma esperança, né? Não estão surgindo novas oportunidades? Não é um avanço? Não pode ser libertário? Tô ficando louco?

valeu o carinho
e a companhia de vocês
som de poema francês:
Três Te-Tês



(*) Então, tá combinado: algum resmungo que me escape não é fruto do desejo de fazer os ponteiros girarem no sentido anti-horário. Está mais ligado à falta de inteligência que insiste em nos acompanhar em qualquer tempo. Estamos amused to death (que é o contrário e a mesma coisa que estar morto de tédio; "amused" é entretido). Somos o macaco assistindo TV que aparece na capa do disco Amused to Death. Confortavelmente anestesiados, pra ficar nas palavras de Roger Waters. There is no pain, you are receding.

A boa notícia é que acordar está ao nosso alcance.
12jul2011


Para que uma perda de tempo
não seja uma perda de tempo:
Caetano Veloso, Oração ao Tempo:
http://www.youtube.com/watch?v=PhSpjxxC31E

5 comentários:

  1. Cristiano Borba / Santos SP24 de setembro de 2011 19:57

    Veja bem , os anos 80 parece que voltaram brinquedos , Vinil ( que bom ) ,músicas regravadas ; creio eu que a nostalgia é como uma epidemia que se alastra rapidamente.
    Tenho comigo que a vida é um ciclo contínuo , as vezes reciclado mas é o mesmo ciclo.

    Ficou devendo o abraço em HG.

    Abração

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  2. Somos o macaco assistindo TV que aparece na capa do disco Amused to Death. Confortavelmente anestesiados, pra ficar nas palavras de Roger Waters. There is no pain, you are receding.

    A boa notícia é que acordar está ao nosso alcance.

    Mas será que queremos acordar???

    abração irmão.

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  3. Que texto sensacional... as vezes me acho um pouco saudosista ao mesmo tempo que não me apego a lembraças e objetos do passado... meio louco isso neh...

    Mas concordo o passado pode ser revisitado, mas não é nele que devemos concentrar nossas forças...

    Vlw HG

    Anacléia

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  4. O passado é tão importante quanto o presente. Quem não gosta de voltar ao passado pra reviver aqueles bons momentos e tentar achar razão para os maus? Só não consigo vislumbrar o futuro, pois não sei se daqui a pouco estarei vivo.
    Será que vale a pena?

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  5. Falando em passado, lembrei das fitas... para ouvir minhas músicas preferidas pegava a caneta e começava a girar até por intuição chegar na faixa desejada... um mp3 nao foi tão mal assim...rsrs A tecnologia é agradavel, afinal, seria impossivel ler esse blog se não fosse a internet acessível... todavia, não posso esquecer do cheiro de terra, da brisa, do infinito ceu azul e do calor intenso após a previsão na rádio de que teriamos uma friagem ¬¬' o mesmo se aplica ao passado.. é agradabilissimo (nem sempre) mas nao deve ser (re)vivido. De fato, o que vale é o aqui e o agora!

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