P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 2


Capricórnio regeu meu post anterior
não é por preguiça que sigo neste tom
(nunca é preguiça prum
cabrito-esquisito-carneiro-cordeiro-de-Deus)

ainda criança
li uma frase
assim:
"ad astra per aspera"

até entendi
sem entender
latim

segue a saga
assim traduzida
por mim:
"às estrelas por caminho árduo"

do livro pra vida
do início ao fim

quando não restar mais nada
nos ergueremos como cadarço de coturno
com os braços de Saturno
abraçaremos nova estrada
se não restar estrada

(*) Bootstraps são alças que as botas têm na parte superior do cano. Servem de apoio para as mãos na hora de calçar. O dito "to pull yourself up by your bootstraps" (algo paradoxal como erguer-se do chão puxando os próprios cabelos) sinalizava tarefas impossíveis. Com o tempo, virou metáfora para conquistas realizadas com esforço próprio, sem ajuda externa. O termo universalizou-se como definição de processos auto-sustentáveis. Agora, fala-se em bootstrapping no mundo da física, do direito, da linguística, dos negócios, da computação (bah, dá um boot aí, véio!) e noutros mundos.

Santa Tereza de Ávila teria dito que "uma cruz não deve ser arrastada, mas erguida, pois ao erguê-la nos erguemos com ela". Taí, bootstrapping no mundo religioso.

Quando minha filha era suficientemente pequena para ouvir minhas gracinhas sem jogar o objeto mais proximo da sua mão na minha cabeça, eu vivia repetindo para ela: "Sabia que a gente bota a calça e calça a bota?", "Sabia que o sabiá sabia assobiar?". Moto-contínuo, frase sem início nem fim. Pai e filha. Bootstrapping na falta do que fazer. Tarde chuvosa, brinquedos pelo chão, nada legal na televisão.

(*) Perguntei ao Wikepedia de onde vem a utilização do termo bootleg para "gravações piratas". O amansa-burro virtual me disse que a origem está n'As Viagens de Gulliver. No livro, em certo ponto da história, botas são usadas para esconder contrabando. Daí...
Dylan saiu na frente dos piratas e lançou, ele mesmo, sua Bootleg Series. A canção Boots of Spanish Leather está no nono volume (ok, pode chamar de Volume 9 pra não soar no-no-no). Nela, um viajante canta pra quem ficou:

-Is there something I can send you from across the sea?
-No, there is nothing I wish to be ownin'.
-I just thought you might want something fine, made of silver or of golden...
-There's something you can send back to me: spanish boots of spanish leather.

Enquanto Bruce Dickinson berrava Die With Your Boots On (morra lutando; os ratos são os primeiros a abandonar o navio) era o baixo do Steve Harris que eu ouvia. Vi caixas de som levitarem, ouvi baixos erguerem bandas como se fosse possível tirar os pés do chão puxando o próprio cabelo. Iron Maiden, Iron Butterfly, Le(a)d Zeppelin: numa borboleta de ferro ou num dirigível de chumbo, mesmo o metal pesado pode flutuar.

Quem dança num campo minado? Uma bailarina usando coturnos ou um soldado de sapatilhas?

Eu tinha canções na cabeça quando mergulhei de cabeça na escuridão do armário dos calçados. Inverno chegando a POA, hora de ressuscitar minhas botas. Outros tênis vão hibernar. É assim todo ano. E todo ano fico um tempo admirando os ganchos que prendem o cadarço no cano da bota. Ali, o cordão não passa por orifícios, como é comum em sapatos e tênis. Fica a impressão de que aquela coisa não vai se manter amarrada. Mas os ganchinhos funcionam. A tensão se mantém pela tensão se mantém pela tensão se mantém pela tensão se mantém... Moto-perpétuo. Na parceria. Se um deles entortar, desaba o castelo de cartas. Bootstrapping é asim: tem que acreditar.


KAPRIKORNIANOS KEREM KOMBIS E KANGOOS
KOM KÂMBIO MEKÂNIKO
(KRÊEM KE KÂMBIO AUTOMÁTIKO KANSA)

(*) A dupla condição de pedestre e músico me fez notar uma mudança na cidade que urbanistas não captarão: o som do trânsito tá diferente. A popularização do câmbio automático faz os carros arrancarem mais lânguidos a cada esquina. Um modo de dirigir mais impessoal toma conta das ruas. Eu? Gosto de fazer meu próprio café e mudar minhas próprias marchas. Caminhando, eu e minhas botas somos ainda mais livres.

(*) Fechando o papo de signos do qual nada entendo: Maestro Saturno rege a orquestra kaprikórnika. Deus romano da justiça, força e agricultura, ele equivale ao grego Cronos. Quem sabe o que significa cronômetro ou cronologia sabe que o tempo não pára. Cada vez que mergulho na escuridão do armário de calçados, é outro inverno. Sou outro eu.

Porto Alegre
Primeiro dia do inverno de 2011
21jun2011

6 comentários:

  1. Então, é isso: coturnos fazem bem para a vida!

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  2. Moto-perpétuo .. . Criatura e criador.... Ovo e a galinha...os pontos e a linha... O pai o filho e o avô...os cadarços para as botas e os cabelos para um pensador ... Valew hg

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  3. Observando os posts anteriores, atualmente o bloGessinger ganhou bastante interação.

    Abraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaço!

    Ah! Será que foi depois que você começou a mandar abraço?!

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  4. Falando de botas, eu só usava-as na infância
    (não lembro das bootstraps)
    Falando de Bob Dylan, não sabia que ele tinha cunhado
    o termo bootleg.
    Fanlando de Iron Maiden, eles morreram a muito tempo, não?

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